27.11.16

PARA FREI BETTO, FIDEL ERA O ÚLTIMO GRANDE LÍDER POLÍTICO DO SÉCULO XX

RIO  -  Amigo pessoal de Fidel Castro, o escritor Frei Betto recebeu com surpresa a notícia da morte do ex-presidente cubano na madrugada deste sábado. Betto esteve com Fidel em Havana nas comemorações de seu aniversário de 90 anos, em 13 de agosto. Foi a última vez que encontrou Fidel, a quem considera o último grande líder político do século XX.

“É um momento de perda de um amigo íntimo e ao mesmo tempo de uma figura que representava o último grande líder político do século XX, que logrou resgatar a dignidade da nação cubana. Seja contra ou a favor a revolução, o fato é que a pequena ilha do Caribe nunca mais passou despercebida da opinião pública mundial. E Fidel soube comandar esse processo com tamanha habilidade política”, afirmou Frei Betto ao “Globo”.

“Cuba sobreviveu a queda do muro de Berlim, ao desaparecimento da União Soviética e hoje, junto com o Brasil, é o único país que recebeu recentemente quatro visitas papais”, lembrou.

O escritor recordou o bom estado de Fidel no seu aniversário de 90 anos. “Ele estava inteiramente lúcido, embora com o corpo debilitado. Mas não tão debilitado que o impedisse de caminhar sem apoio da entrada do teatro Karl Marx até a cadeira na primeira fila, onde foi apresentado um espetáculo em sua homenagem, um espetáculo protagonizado por crianças”, relembrou o religioso.

Betto diz que não esperava que Fidel fosse partir já neste ano. Durante sua visita à casa do ex-presidente, o escritor contou que Fidel não tirava os olhos da TV para acompanhar a Olimpíada. “Achava que ele ainda teria anos de vida pela frente. Fidel continuava estudando, lendo e inteiramento ligado ao noticiário. Naquele período de agosto, não tirava os olhos da TV interessado nos Jogos Olímpicos. Fidel era esportista: praticou natação, pesca submarina e basquete”, contou.

Para Betto, a morte de Fidel significa a “perda de um líder mundial num mundo carente de liderança, onde a única figura de expressão internacional respeitável é o Papa Francisco”. “É a perda de uma referência de um homem que teve profunda coerência na vida com suas ideais e convicções. E nesse mundo onde vários dirigentes progressistas se deixam levar pela corrupção, é hora de lembrar a frase de Fidel: ‘Um revolucionário pode perder tudo, até a vida, menos a ética’”, ponderou.

O escritor acredita que a morte de Fidel não deve afetar no processo de abertura e de reaproximação com os Estados Unidos. E mandou um recado para o presidente eleito Donald Trump: ” Esperamos que Trump não cometa a besteira de provocar um retrocesso. A repercussão da morte dele talvez leve os novos governantes dos EUA a entenderem a importância desse processo de reaproximação entre os povos.”

Agência O Globo

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