17.3.16

Construção de um Bloco de Hegemonia proletário-popular é a única resposta possível ao impasse que vive a sociedade brasileira

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ANTONIO CARLOS MAZZEO

Assistimos ontem o festival de absurdidades que expressa a forma-consciência de grande parte da pequena-burguesia (ou, se quiserem para ilustrar, a “classe média”) brasileira. Não adianta dizer que o fascismo cotidiano está localizado somente no Sul e no Sudeste do Brasil. Como diz Marilena Chaui, a aberração cognitiva é a essência fundante da consciência da “classe média”.
A pequena-burguesia sempre foi base política do fascismo, isto é até historicamente didático. Basta que lembremos da base social clássica dos fascismos europeus, a pequeno-burguesia e o lumpen proletariado (em alemão, Lumpenproletariat, o proletariado em farrapos – marginais, mendigos, ladrões, etc.), todos com baixa formação cultural, extremamente religiosos, (falsos) moralistas e antidemocráticos, segmento de classe esse, muito bem representado pelo pseudo-teatrólogo nazista Hans Johst, em sua peça Schlageter (1933), quando faz o personagem central de sua trama dizer: “Quando ouço a palavra cultura, saco logo meu revólver” (“Wenn ich Kultur höre … entsichere ich meinen Browning”)
Em períodos de crise e de desorganização proletário-popular a pequena burguesia cresce tendo como discurso ideológico o mais rebaixado senso comum. Isso não é privilégio do Brasil, basta que vejamos o que ocorre na Europa, com as reações mais reacionárias e racistas contra a imigração. Mas não há um crescimento meramente espontâneo. Os fascistas tem seus quadros dirigentes prontos a organizar os setores mais conservadores e despolitizados da sociedade. No caso do Brasil, não há o que tergiversar, isso acontece e a responsabilidade direta é do PT, que está colhendo o que plantou. Pior, plantou e deixou parte dessa colheita para os setores da esquerda antagonista. Herança maldita da socialdemocracia!
A socialdemocracia-tardia aliada com o grupo sindicalista-economicista, os núcleos hegemônicos do PT, assumiu, em 2002, a tarefa de administrar e modernizar o capitalismo brasileiro. Para tal, procurou atrelar o movimento sindical – especialmente a CUT, ao projeto de modernização conservadora, que absorvia a proposta dos setores monopolistas da burguesia brasileira, visando integrá-la ao concerto do capitalismo internacional. Lula não hesitou em golpear o funcionalismo público, atingindo a forma da aposentadoria dos trabalhadores do setor público, retirando suas aposentadorias integrais , sem dar, ao menos, o benefício do FGTS. Dilma em seus governos, foi diminuindo os gastos com políticas públicas e respondeu à crise mundial do capitalismo aderindo à cartilha do FMI e do Banco Mundial, arrochando os recursos para as políticas de caráter social e ampliando as vantagens dos empresários. Mais ainda, os governos petistas distanciaram-se de suas bases sociais, optando por alianças com os setores mais reacionários da política nacional. Na primeira crise de instabilidade econômica, o resultado foi o progressivo esgarçamento dessas alianças e o consequente surgimento de uma articulação para tirar o PT do governo, e devolver a administração do capitalismo à burguesia.
Diante dessa situação de crise, a reação da classe ficou muito prejudicada. De um lado, pelos 13 anos e meio de despolitização e de cooptação, pelos governos petistas, à ilusão de que era possível ao proletariado partilhar as benesses do capitalismo com a burguesia, de que o proletariado estava se transformando em “classe média”. Segundo e, como consequência, a hegemonia socialdemocrata sufocou por décadas os partidos da esquerda antagonista, sempre combatidos pelas direções petistas, hegemonicamente anticomunistas e antissocialistas, que estigmatizaram os partidos revolucionários como “radicais, inconsequentes, porra-loucas, etc.
A despolitização, a hegemonia de uma mídia fuleira, deletéria e fundamentalmente antinacional e antipopular, a cooptação e a inépcia do PT em afrontar a ofensiva da extrema direita e dos setores golpistas, fizeram crescer nos setores desorganizados dos trabalhadores, dos segmentos do precariado a sedimentação de um pensamento ligado ao mais rudimentar e reacionário senso comum, o que Wilhem Reich chamou de a“psicologia de massas do fascismo.”

Como fazer para reagir à crise? Não podemos apoiar uma oposição corrupta e inépta, uma lumpen-burguesia débil e claramente fascista. Temos que ir às ruas apoiar um governo que vem golpeando os direitos dos trabalhadores, que despolitiza sua ação e que alia-se ao mais retrógrado, quando cria a lei antiterrorismo para atingir militantes antagonistas?

É óbvio que o proletariado e seus aliados devem ter independência de classe e autonomia em suas decisões políticas. Diante da atual clivagem e do caráter que se apresenta a radicalização da luta de classes o conjunto dos setores mais avançados do movimento deve apresentar uma proposta, lembrando que há o risco de um hiato de projeto socialista e antagonista, diante da derrocada ideológica, moral e ética do PT.
O âmbito da luta de classes é a realidade objetiva, daí não podemos ler o real a partir do que desejamos que ele seja. Como dizia o velho Lenin, há que se dar respostas concretas à realidade concreta, de modo que não podemos fingir que a radicalização da crise não atingirá diretamente a classe, não somente no plano econômico, mas também no âmbito das liberdades democráticas – como já se verificou no ensaio geral da invasão pela PM de Alckmin, de uma assembleia do sindicato dos metalúrgicos do ABC, em Diadema.
A posição de independência de classe deve estar balizada na imediata organização e aglutinação dos setores vinculados diretamente à luta, quer dizer, chamando os Movimentos Sociais, como o MST e o MTST, e os outros movimentos por saúde educação, defesa ecológicas e do meio-ambiente, os setores do LGBTT, etc, além dos sindicatos e das organizações classistas, que juntamente com os partidos políticos socialistas e revolucionários devem apresentar aos trabalhadores uma alternativa democrático-radical e um projeto econômico que tire imediatamente o país da estagnação, apontando para a necessidade de se ampliar e fortalecer o mercado interno, aglutinando, nessa proposta, as cooperativas de trabalhadores, do campo e da cidade e ampliando as reformas agrária e urbana, na perspectiva de se fortalecer o Poder Popular e as bases social e ideologicamente direcionadas ao socialismo.
Somente a organização independente dos trabalhadores poderá dimensionar a ação consequente do proletariado nesse contexto de crise. Para tanto, é fundamental construir um Programa Político de Unidade das Esquerdas Socialistas e Revolucionárias, que seja amplamente discutido com os setores organizados do proletariado. A construção de um bloco de hegemonia proletário e popular é a única resposta ao impasse que vive a sociedade brasileira.
FONTE: PORTAL PCB

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