26.1.16

“Fui demitido”: o relato de um Professor Doutor demitido pela ANHANGUERA por ser qualificado


elton rivas


Por ELTON RIVAS
No próximo semestre não estarei mais lecionando na Anhanguera. Essa é a resposta às perguntas de qual matéria “eu darei” nesse semestre.
Publiquei artigos. Sou bem avaliado pelos alunos. Não falto, sou pontual e nunca tive maiores problemas com colegas ou alunos.

Mas sou Doutor. O que acontece quando a educação vira mercadoria?
Vejamos nos trechos do texto que disponibilizo na íntegra, no rodapé da página
“A Anhanguera Educacional tornou-se uma empresa S.A., com ações na bolsa de valores e uma agressiva política de compra de outras instituições. Depois de gastar R$ 800 milhões com a compra de 12 redes de ensino, o grupo tornou-se a maior rede de ensino do país.

Segundo dados da Federação dos Professores de São Paulo (Fepesp), o Grupo Anhanguera demitiu apenas no Estado de São Paulo 1.497 professores. E esse número deve ser ainda maior, uma vez que há relatos de demissão em outros estados, como Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso do Sul.

Especula-se que a Anhanguera deseja reformular seu quadro com professores de titulação mais baixa. Segundo professores da Anhanguera, a instituição paga a um mestre o valor de R$ 38,00 por hora-aula e, agora, deverá pagar R$ 26,00 aos novos contratados”
Imagina o que ocorreu com os doutores, que ganhávamos quase R$ 60,00.

Mas nem tudo está perdido. Nos oferecem o feliz retorno em seis meses, desde que aceitemos ganhar o novo piso. E o que faço com os 6 anos de formação para obtenção dos títulos de mestre e doutor? Ah, muda de cidade e vai dar aula numa universidade pública, já me disseram.

A questão não deveria ser essa. Negar a titulação e a remuneração decorrente dela, seria incoerência de quem passa a maior parte do tempo repetindo como um mantra aos alunos a importância da qualificação, da formação acadêmica.

Espero nunca precisar passar por isso, nunca ceder a essa lógica. Lamento pelos colegas que não tem escolha, lamento pela política de ensino superior do Ministério da Educação. Desejo voltar a lecionar lá ou em qualquer outro lugar. Não peço nada além do óbvio. Não quero fechar portas. Quero escancarar as portas, janelas e derrubar os muros. Por isso escolhi ser professor.

Para o sociólogo Wilson Mesquita de Almeida, existe a consolidação de um modelo de Ensino Superior que prioriza o lucro em detrimento da qualidade. “Hoje, os fundos de investimento de educação reestruturam as instituições, reduzindo custos, com o corte de professores e outras medidas que influenciam na qualidade”, afirma o sociólogo. A lógica da política de ensino superior no Brasil, construído para suprir a baixa oferta de vagas em universidades públicas, tem reflexos diretos no modelo e na qualidade do ensino universitário brasileiro.

Fonte: Blog do Paulinho

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