1.12.15

ENTREVISTA SOBRE O MÊS DA CONSCIÊNCIA NEGRA



Entrevista concedida ao jornal dos estudantes do Colégio da Polícia Militar de Pernambuco, anexo I - Petrolina.

O preconceito racial é um problema que veio do Brasil Colônia e ainda persiste na sociedade atual. Que formas de preconceito é mais perceptíveis atualmente?
BRÁULIO WANDERLEY - Na verdade, o preconceito racial remonta à própria antiguidade nas relações de dominação de classes. No caso brasileiro, sim, ela é uma herança lusitana para a descendência luso-brasileira da casa grande, com forte contribuição do catolicismo que, em documentos oficiais, considerava o povo africano como “sem alma”, na sua contrarreforma protestante, a fim de poupar os povos indígenas (silvícolas) puros e ingênuos. Não é à toa que na cruzada de extinção antropológica dos povos ameríndios, a maioria dos seus sobrenomes é: “Santos, dos Anjos, Jesus”, etc. Uma situação sui generis, é a quase inexistência de história afro nos livros de história. Somos breves citações em casos como Palmares, Brasil holandês, no processo abolicionista e em casos isolados como a revolta da Chibata, sob a liderança de João Cândido e numa triste demonstração de desprezo à justiça, quando o ministro da fazendo Rui Barbosa (o famoso águia de Haia) mandou incinerar todo o acervo da escravidão no Brasil a fim de evitar futuras indenizações por parte do Estado e dos antigos latifundiários escravocratas.

As cotas raciais para o ingresso da faculdade ainda são uma polêmica no Brasil. Em sua opinião, as cotas raciais são mais uma forma de preconceito, ou serve como reparação aos danos causados pelo racismo?
BW - O racismo também se manifesta através da semântica, repare o termo “cota”, ao invés de política afirmativa. Seguramente, e mesmo quem pense o contrário, a elite branca tem uma dívida histórica com os povos de matizes africanas. A revolução industrial avançou, avança, mas não libertou o negro, ela o aprisionou nas fábricas e designou algumas “castas” cujo sucesso pode ser admissível como os campos da arte e do desporto.
A pauta não se tratava na humanização (enquanto nova forma de sociabilidade), mas em ampliação do mercado consumidor. Era o “time buy” e as “leis pra inglês ver” aplicadas aqui no Brasil (Eusébio de Queiroz, sexagenário e ventre livre), até chegar à Lei Aurea sem nenhum reparo de três séculos e meio de opressão. Não houve, e não há ainda de modo adequado, processos sérios como reformas agrária, urbana, política e educacional que insiram uma cidadania plena, de fato. Infelizmente, parte considerável desta sociedade, regida pelo legado feudal, agrário e aristocrata, resume a questão do negro às relações de consumo, como se isto fosse o seu único fim.

As cotas são apenas uma medida paliativa ou devem continuar?
BW - As políticas afirmativas devem existir até o ponto que a democratização dos espaços públicos, políticos e socioeconômicos não sejam determinados pela cor de um ser humano.

Quais são as consequências das cotas para a Educação brasileira?
BW - Mesmo considerando os limites de ascensão socioeconômica determinado pelo capitalismo brasileiro, as políticas afirmativas devem ser implementadas para além do horizonte determinista de inclusão universitária, deve-se pensar na construção do perfil de cidadania a ser desenvolvido. Elas (as políticas afirmativas) devem anular com toda e qualquer forma de segregação que perpassa no Brasil pela capacidade de consumo das pessoas. Gente não pode ser reduzida ao estereótipo de etnia/raça, cor, gênero, faixa etária, orientações filosófica, sexual, e de classe. O que há por trás da máscara de uma suposta miscigenação brasileira, com a competente e falsa propaganda do “Brasil de todas as cores” é a anulação da identidade e a criminalização da pobreza.

O principal argumento de quem é contra as cotas raciais é o uso da questão racial como uma desculpa para praticar uma injustiça com vários estudantes e alguns vão além, dizendo que a meritocracia é a única forma justa de entrada para o ensino superior. Qual a sua opinião sobre esses argumentos?
BW - A meritocracia é uma mais uma “novidade” neoliberal e existem mais perguntas a serem respondidas pelos seus defensores que respostas a serem dadas por mim, a seguir: quem determina a capacidade produtiva? O mercado? Sob que lógica? O lucro? Quais os critérios debatidos com a participação da sociedade sobre essa tão propalada moda?

Além das cotas, que tipo de iniciativa deveriam ser tomadas para ajudar a luta contra o racismo?
BW - É necessário estabelecer que a questão do preconceito no Brasil de hoje tem muito a ver com a criminalização da pobreza. Basta observar que o código do consumidor tem mais importância que os direitos humanos.

No seu local de trabalho atual ou antigo, você já presenciou alguma situação racista? Como esse tipo de situação é/foi tratada?
BW - Eu já fui vítima de racismo, não no CPM, e creio que todos nós já passamos por algo humilhante deste gênero. Neste último sábado, meu amigo e companheiro de profissão, Professor doutor Nilton de Almeida Araújo, da Univasf, foi agredido na rua de sua casa em nítida situação de racismo ao ser abordado por policiais militares na nossa vizinha Juazeiro da Bahia.

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