9.4.15

A PRIMEIRA CRÔNICA DE UMA CRIANÇA

Por Bráulio de Barros Wanderley

Quando eu soube que você estava a caminho desse mundo não sabia o que fazer: se sorria, se chorava, se enfartava... fiquei meio que no passado onírico, tão poetizado por Chico Buarque de Holanda em João e Maria, que você ainda vai conhecer de ouvido e de ninar. 

Agora eu era uma das pessoas mais felizes do mundo.

A gente só sabia que você já existia há um mês e dezoito dias, mas parecia que estava ali, tirando onda das nossas caras. Ali mesmo, ao lado da gente, rindo exabundante.

Rolou a pergunta de praxe: E o nome, já sabem? Lascou!

Vigorou um silêncio contemplativo apenas quebrado quando perguntaram: "se for menino, já sabem?".

Lascou mais ainda.

Seus pais disputavam seu nome. Disse sua mãe: "se for menino não vai ter seu nome, é muito feio, quero não".

Seu pai, apaixonado, doido cego por sua mãe, foi mais ameno: "Meu amor, o combinado é que você escolhe o nome se for menina porque se for menino vai ter meu nome... vai ser um inho".

Rapaz... pra quê???

Sua mãe, apaixonada desabestada pelo seu pai, braba e de gênio forte foi "dura na queda" (outra música de Chico) e o replicou: "não quero não, nem você gosta do seu nome! Prefere o apelido... não." Seu pai ficou igual a Geni levando pedras (no sentido conotativo, claro).

Pra quebrar o gelo, pediram a palavra, consensualmente concedida pelos seus pais na esperança (deles) de que se chegasse a um bom senso.

Disseram: "olhe, não se pensa um nome imaginando um apelido. Apelido é uma marca, algo que identifica a pessoa com o tempo, o diminutivo de um nome como carinho... eu mesmo sou chamado de formas diferentes..."

Sua mãe concordou, numa interjeição de aplauso: "boa!", seu pai também emendou de forma mais cautelosa um afetuoso "tá certo...".

Contudo, uma coisa é certa, você será membro da maior torcida do Nordeste, a do SPORT CLUB DO RECIFE.

Era semana santa e a mais humana das criações já era objeto de desejo, num ensaio sobre o mais puro dos amores, o de pai e o de mãe.

Semana que vem a gente vai saber seu nome. Você terá dois meses e alguns dias. Será o/a bebê mimado/a ainda na barriga pelas palmas da sua mãe e pelos beijos do pai, das tias e dos tios.

Posso falar dois segredos: acabamos de escolher possíveis nomes pra você e daqui a três semanas vou aí te dar um xero na barriga.

Acho que até você tá curiosa/o pra saber quem é quem nessa conversa. Todos nessa narrativa, prometeram, por ora, nem sequer divulgar que você está com 2 grandes e amados centímetros. 

Só posso afirmar que seu primeiro ano novo vai contar com pais, tios, avós bem babões e você será o centro de todas as atenções, amada, cultuada e chegando pelas tabelas.

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