30.1.15

PT E PSDB OU AS ALAS VERMELHA E AZUL DA DIREITA BRASILEIRA

DO DIÁRIO DA LIBERDADE,
POR ISRAEL SOUZA

Tratar o PSDB como direita e colocar-se como esquerda tem sido um recurso bastante utilizado pelo PT. Tal estratégia tem-lhe servido como uma espécie de trunfo moral.

Quando as coisas apertam (como nas últimas eleições), os petistas colocam como obrigação moral das forças políticas comprometidas com "os de baixo" não permitir que a direita (PSDB) volte ao poder. Isso tem dado certo resultado positivo para eles.

Emblemático a esse respeito foi a atitude de Luciana Genro (Psol) que, no segundo turno disputado entre Dilma e Aécio, disse a seus eleitores que estavam livres para votar, que ela não apoiaria ninguém. Todavia, para evitar confusão, foi enfática: "Aécio, não". Faria alguma diferença se ela tivesse dito "Dilma, sim"?

A atitude de Luciana Genro foi a mesma de muitos outros, e contribuiu para a vitória de Dilma.

Não vamos engrossar o coro daqueles que dizem que não faz mais sentido falar em direita e esquerda. Digo apenas que, se os partidos tomados como parâmetro de uma e outra coisa forem PT e PSDB, então realmente não faz mais sentido falar em direita e esquerda.

Hoje muitos criticam Dilma, inclusive gente do governo e do PT, de Marta Suplicy a José Dirceu. Criticam-na, como se ela tivesse dado um inusitado e imperdoável giro à direita em seu governo. Entretanto, observando atentamente a "verdade efetiva das coisas" (como diria Maquiavel), Dilma tem sido coerente, isto é, segue aprofundando e ampliando (contra)reformas iniciadas sob os governos Lula, do mesmo modo como este aprofundou e ampliou (contra)reformas começadas sob os governos FHC.

Um exemplo para ilustrar. Fernando Henrique Cardoso tinha intenção de taxar os inativos. Na oposição, o PT não deixou. Quando no governo, uma das primeiras ações de Lula foi esta: taxar os inativos. Vê-se, por este ângulo, que as (contra)reformas na previdência recentemente efetivadas por Dilma apenas aprofundam e ampliam algo já começado por seus antecessores.

Tomando estas e outras tantas coisas em conta, não há motivos para gritar contra Dilma e silenciar sobre FHC e Lula. Tomando estas e outras tantas coisas em conta, nada há de substancial que nos autorize tratar PSDB como direita e PT como esquerda, como se um fosse o contrário do outro.

A propósito, vale lembrar duas frases do ex-presidente Lula. Numa delas, respondendo a críticas vindas de setores comprometidos com as classes subalternas e procurando justificar a orientação (destrista) de seu governo, disse que "o PT nunca foi esquerda", que ele sempre foi um "partido de centro". Noutra, afirmou que "nunca os banqueiros haviam ganhado tanto como em seu governo". Com razão, Paulo Maluf, "companheiro" seu, pôde dizer em tom de galhofa que, perto de Lula, ele era "um comunista", posto que não apoiaria as multinacionais como o ex-presidente o fez, e sua sucessora continua fazendo.

A fim de tratar as coisas pelo seu devido nome, importa dizer que o "centro" é a fronteira avançada da direita e a zona onde os desertores da esquerda usam folhas de parreira para esconder sua rendição à direita. A terceira via nunca foi mais que o fruto da confraternização que direitistas e ex-esquerdistas fazem a expensas "dos de baixo". Não sem razão, na Europa como nos EUA, há quem veja em Lula uma espécie de Tony Blair tropical.

Os motivos de tal comparação são assaz patentes. Este, como aquele, tem vínculos com as forças trabalhistas. Mas orientou seu governo no sentido de enquadrá-las nos projetos do capital.

Retomando uma expressão utilizada em décadas passadas, poderíamos definir os governos petistas (sob Lula e sob Dilma!) como "governos violino", porquanto serem "levantados pela esquerda, mas tocados pela direita".

Como dissemos acima, tratar PT como esquerda e PSDB como direita tem servido como trunfo moral para o PT. Um trunfo de que há muito ele vem se mostrando indigno. Por isso, para construção de um projeto societário verdadeiramente popular, cumpre deixar claro que PT e PSDB não são partidos com projetos societários opostos e mutuamente excludentes. Eles são, na verdade, variação de uma única e mesma coisa. PT e PSDB são, respectivamente, as alas vermelha e azul da direita brasileira.

Israel Souza é Cientista Social e membro do Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental - NUPESDAO. E-mail: israelpolitica@gmail.com

2 comentários:

Zé Oliveirão disse...

Quando falou que gente do próprio partido critica Dilma, lembrei-me desta postagem feita por Eduardo Suplicy no Facebook neste último dia 31:

"Esta é minha última hora e dia de senador após 24 anos de mandato. Agradeço muito a todos que votaram em mim, que colaboraram comigo de tantas formas para que eu pudesse representar bem o povo de São Paulo e contribuísse para a construção de um Brasil justo. Sinto imensamente que a Presidenta Dilma Roussef, após ter assegurado que me receberia antes do término do meu mandato, para conversar sobre proposta feita por todos os 81 senadores, não tenha me recebido. Foram oito cartas enviadas desde junho de 2013. Sou senador do PT. Muitos foram recebidos mesmo não sendo do PT. Era justo que me recebesse ou, como ela mesmo me disse, "mais do que justo". Sinto que cumpri com as minhas responsabilidades, procurando honrar a confiança que me foi dada e o privilégio de representar a população de São Paulo. Viva o Brasil!"

É óbvio que dá pra perceber que ele não está nada contente em relação as atitudes da colega de partido. Depois que vi isto fiquei uma dó do "bixin"... ele tá como uma andorinha solitária abandonada na bandeirinha de escanteio.

Na prática, realmente o PT não demonstra ser o partido que nasceu pra ser. Muita coisa mudou e isso prova que nacionalmente o governo não é fiel aos seus princípios, mas, ainda há alguns que jamais desistirão da ideia inicial e sairão do partido para buscar forças em extremos da esquerda. Gente, quem é de um partido santo atire a primeira pedra! Porque digo isso? Pq há municípios que o PT ainda representa uma esquerda forte. Se isso vai acabar eu não sei, mas principalmente no interior não tem quem segure a esquerda senão o partido dos trabalhadores.

Nacionalmente de modo geral no qual é representado pelo governo, pode ter se tornado um partido de centro, assim como o PSDB, mas nunca um de direita, até porque o país não vê um partido de direita há muito tempo. O que vemos são seguidores de Olavo carregados de ódio onde a maioria não sabe nem o significado da sigla do partido.

Enfim, sobre a definição final da terceira via não posso concordar totalmente com você, até porque não podemos generalizar e dizer que é tudo farinha do mesmo saco. Hoje em dia em alguns casos ela pode sim ser a solução, mas... não em todos. Essa briga infinita da falsa esquerda e da falsa direita ainda durará muito tempo e como vimos nessa última eleição, o país está realmente com a opinião divida. Então porque não ouvirmos o outro lado e tragamos o que é de bom?

Zé Oliveirão disse...

Quando falou que gente do próprio partido critica Dilma, lembrei-me desta postagem feita por Eduardo Suplicy no Facebook neste último dia 31:

"Esta é minha última hora e dia de senador após 24 anos de mandato. Agradeço muito a todos que votaram em mim, que colaboraram comigo de tantas formas para que eu pudesse representar bem o povo de São Paulo e contribuísse para a construção de um Brasil justo. Sinto imensamente que a Presidenta Dilma Roussef, após ter assegurado que me receberia antes do término do meu mandato, para conversar sobre proposta feita por todos os 81 senadores, não tenha me recebido. Foram oito cartas enviadas desde junho de 2013. Sou senador do PT. Muitos foram recebidos mesmo não sendo do PT. Era justo que me recebesse ou, como ela mesmo me disse, "mais do que justo". Sinto que cumpri com as minhas responsabilidades, procurando honrar a confiança que me foi dada e o privilégio de representar a população de São Paulo. Viva o Brasil!"

É óbvio que dá pra perceber que ele não está nada contente em relação as atitudes da colega de partido. Depois que vi isto fiquei uma dó do "bixin"... ele tá como uma andorinha solitária abandonada na bandeirinha de escanteio.

Na prática, realmente o PT não demonstra ser o partido que nasceu pra ser. Muita coisa mudou e isso prova que nacionalmente o governo não é fiel aos seus princípios, mas, ainda há alguns que jamais desistirão da ideia inicial e sairão do partido para buscar forças em extremos da esquerda. Gente, quem é de um partido santo atire a primeira pedra! Porque digo isso? Pq há municípios que o PT ainda representa uma esquerda forte. Se isso vai acabar eu não sei, mas principalmente no interior não tem quem segure a esquerda senão o partido dos trabalhadores.

Nacionalmente de modo geral no qual é representado pelo governo, pode ter se tornado um partido de centro, assim como o PSDB, mas nunca um de direita, até porque o país não vê um partido de direita há muito tempo. O que vemos são seguidores de Olavo carregados de ódio onde a maioria não sabe nem o significado da sigla do partido.

Enfim, sobre a definição final da terceira via não posso concordar totalmente com você, até porque não podemos generalizar e dizer que é tudo farinha do mesmo saco. Hoje em dia em alguns casos ela pode sim ser a solução, mas... não em todos. Essa briga infinita da falsa esquerda e da falsa direita ainda durará muito tempo e como vimos nessa última eleição, o país está realmente com a opinião divida. Então porque não ouvirmos o outro lado e tragamos o que é de bom?