23.11.14

PT SERIA 'HERDEIRO' DO PCB DE 1922

Confesso que durante décadas, equivocadamente, acreditei parcialmente no título acima, sobretudo, por meio das crises e dissidências pelas quais passaram o Partidão. A história mostrou que errei, cabendo a mim como marxista o exercício da autocrítica.

Segue para debate, polêmica e reflexão, matéria do Jornal Opção, datada de 08 a 14 de abril de 2012.

Historiador, Daniel Aarão Reis Filho lembra que Lula e Dilma incorporaram ideia de reformismo progressivo e pluriclassista e de caráter nacional-estatista
Renato Dias
Especial para o Jornal Opção

O herdeiro Partido Comunista Brasileiro, fundado em março de 1922, não seria nem o PCB (refundação), muito menos o PCdoB ou mesmo o PPS, mas o PT. Do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e da atual inquilina no Palácio do Planalto, Dilma Rousseff. É o que afirma com ex­clusividade ao Jornal Op­ção o historiador Daniel Aarão Reis Filho, professor-do­utor da Universidade Fe­deral Flu­minense (UFF) e au­tor do li­vro “A Revolução Fa­­l­­tou ao Encontro – Os co­m­unistas no Brasil” (1990), Editora Brasiliense.

Segundo ele, há uma tradição legada pelo PCB, da ideia de um reformismo progressivo, pluriclassista, incluindo o que então se chamava de "burguesia nacional". De alianças com alas não hegemônicas do imperialismo. Um reformismo de caráter nacional-estatista com perspectiva de distribuição de renda, diz ele. “Esta tradição se mantém, atualíssima, nos dois governos Lula, e no de Dilma Roussef”, analisa Aarão Reis. “Assim, ouso dizer que o PCB, sob outras indumentárias, pois mudaram muito as circunstâncias, continua vivo.”

Autor de “1968: A paixão de uma utopia”, ele lembra porém que existe outra herança do PCB, a militarista: “A que vem das origens, reiterada na insurreição de 1935 e nas tentativas revolucionárias empreendidas no contexto do Ma­nifesto de agosto de 1950, de enfrentamento aberto com a Ordem vigente, retomada pelas organizações revolucionárias dos anos 1960 (Da ALN de Carlos Marighella e do PCBR de Mário Alves), hoje, se encontra em sono profundo, praticamente es­quecida, pois a revolução saiu da or­dem do dia, pelo menos por enquanto.”

Presidente do PPS em Goiânia, Darlan Braz discorda. “Se formos olhar na raiz, o PPS é de fato o herdeiro do PCB, que foi criado em 1922. Já que em 1962, uma parte do PCB (partidão) que ainda defendia a tomada do Estado pelo uso das armas, afasta-se do PCB e funda o PCdoB. Em 1992, com a queda do Muro de Berlim, e vendo que o comunismo soviético mostrou-se insuficiente e ineficaz para apresentar soluções ao Estado e à sociedade, os dirigentes do então PCB promovem sua dissolução e criam o PPS, com radicalidade democrática como programa”, frisa Candidata ao Palácio das Esmeraldas em 2010, a professora Marta Jane diz que o verdadeiro herdeiro do velho PCB é o atual PCB.

“Que manteve a sigla e a linha po­lítica marxista-leninista.” Ani­mada, ela afirma que o PCdoB é uma dissidência do PCB que houve em 1962. “O PCdoB não manteve a linha marxista-leninista e se vinculou à perspectiva maoísta, alinhada ao Partido Comunista Chinês. Hoje, numa linha nacional desenvolvimentista, atua politicamente se aliando aos representantes do capital”, ataca ela a legenda rival.

Cáustica, Marta Jane condena a troupe de Roberto Freire (PPS-SP). “O PPS dispensa explicações, já que surgiu em 1992 com a iniciativa dos liquidacionistas que não acreditavam mais numa alternativa socialista para o Brasil”, provoca. Segundo a líder comunista, o PPS queria "fechar as portas" do PCB e, no seu lugar, criar o PPS, partido que nasceu alinhado à direita e foi se aperfeiçoando como parceiro menor dos partidos defensores da ordem no quadro político reacionário do país. “Mas os comunistas resistiram e mantiveram o PCB que hoje comemora 90 anos de luta”
Versão

Ponderado, o historiador Romualdo Pessoa, da Universidade Federal de Goiás (UFG), diz que tanto o PCdoB quanto o que restou do velho PCB podem se afirmar como continuadores daquele par­tido criado em 1922. “Não vejo nenhum problema nisso, mas é cla­ro que ao longo da história enquanto os remanescentes do Partido Comunista Brasileiro foram se enfraquecendo, o PCdoB conseguiu não somente sobreviver, mas crescer de forma consistente.” Ele revela também que no Rio de Janeiro militantes do PCB se filiaram ao PCdoB, como o sambista Martinho da Vila.

“Historicamente, então, considero que os dois partidos são herdeiros do velho Partido Comunista do Brasil, o PCB”, registra Ro­mualdo Pessoa. “Mas o que surgiu depois foi um novo partido, o Partido Comunista Brasileiro. Só que foi criado pelos que tinham o controle do partido, por seus então dirigentes legais. Ao mudarem o nome, deixaram o tradicional Partido Comunista do Brasil para que um dissidência forte e respeitada pudesse fazê-lo ressurgir em 1962”. Ele desconsidera o PPS como herdeiro das tradições operárias e camponesas socialistas.
Outro lado

Presidente do PT em Goiânia, o deputado estadual Luis Cesar Bueno conta ao Jornal Opção que o PT nasceu com um projeto distante tanto da herança stalinista (de linha soviética, chinesa ou albanesa) quanto da social-democracia e contra a ditadura civil e militar. Historiador, ele condena o que chama de ortodoxia do PCB e do PCdoB, que não conceberiam a democracia e os direitos humanos como valores universais. O parlamentar lembra que os comunistas defendiam e ainda defendem a concepção elaborada por Karl Marx de “ditadura do proletariado”.

Ex-líder do PT no Palácio Alfredo Nasser, Luis Cesar diz que o século 21 não comporta mais “visões messiânicas” de que uma classe social apenas, sob a direção de um partido de vanguarda de inspiração leninista, promoveria a redenção da humanidade rumo ao paraíso na Terra.  “É delírio.” O dirigente petista defende o que Daniel Aarão Reis Filho chama de “reformismo progressista”, executado por Lula e agora por Dilma Rousseff. “Por etapas, com distribuição de renda, regulação do Estado e democracia representativa”, insiste o cardeal petista.

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