24.10.14

A ESQUERDA E O SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES NO BRASIL

Por Antônio de Campos

Fatos passados que se deram em contextos históricos distintos no século passado servem como lições para todos nós, é verdade, mesmo que não se esteja vivenciando mais uma situação recorrente nas décadas de 20/30 em que o stalinismo se consolidava como um poder burocrático na União Soviética. 

Todavia, a relação de forças e as condições objetivas são particulares em cada ocasião, num determinado e específico momento. Isto é, nos casos do Brasil e da América Latina, o pós-ditaduras nos encaminhou para uma volta ao populismo “esquerdizante” e “nacionalista” - que se expressa num aparente enfrentamento contra o imperialismo estadunidense. Os ditos “avanços políticos” obtidos com os tais governos populistas que se apresentam como “soberanos e independentes” tem resultado na desagregação do movimento de massas, com as centrais sindicais e as uniões estudantis, por exemplo, desfiguradas e atreladas aos aparatos governamentais, constituindo-se assim num “freio de arrumação” para conter outros ganhos mais significativos. 

Isso é um viés progressista? A resposta está na política “desenvolvimentista” para um possível Capitalismo nacional, que seja pujante e “não selvagem”? O populismo é um avanço consistente? Ou se pode apostar até mesmo num “Socialismo de mercado”? 

Ora, precisamos deixar claro que não cabe às esquerdas o papel de gerenciar o Capitalismo para torná-lo um sistema ameno, plausível e menos agressivo. A lógica que o move é a da própria movimentação do mercado, que está alicerçada na ganância em busca da lucratividade onde os meios empregados justificam os fins alcançados a qualquer custo, desde que o Capital seja “devidamente” remunerado. 

A cobiça pelo lucro, com taxas de retorno cada vez mais elevadas quanto possíveis, em qualquer atividade que possa ser exercida, impede os capitalistas de abdicarem da rentabilidade nos seus negócios. 

De outro lado, não é tão difícil se esclarecer que as “ondas à direita” sempre ocorreram e vão ocorrer em variadas ocasiões, sejam na Europa ou em outros continentes, desde que os impasses por avanços mais firmes e duradouros não encontram soluções nos marcos da sociedade capitalista. A sociedade do “bem estar” que perdurou no pós-guerra mundial, principalmente no continente europeu, e ainda se mantém até hoje em alguns países como a Finlândia e a Noruega, representou um esforço do Capitalismo para “neutralizar” as propostas revolucionárias na direção do Socialismo, a partir da vitória da Revolução Russa, mesmo tendo-se que se conviver com a contrarrevolução stalinista e as suas políticas de “frentes populares” - de alianças com as burguesias nacionais. E que só durou de 50 a 70, mais ou menos uns 20 anos, tendo como consequência direta um ciclo perverso de derrotas seguidas da classe trabalhadora em geral e da maioria das populações de cada país, ao se lançarem a novas conquistas. Enquanto isso, os países europeus que alcançaram um significativo crescimento econômico junto com um consistente “desenvolvimento” social, somente puderam manter os excelentes padrões de vida a troco da exploração dos outros povos, da Ásia, da África e das Américas. Com a concentração de Capital acumulada pela exploração dessas áreas externas e periféricas, o sistema capitalista dos “países avançados” pode “oferecer” um padrão de vida bastante elevado, evitando assim crises muito mais profundas nessas economias nacionais e no “gerenciamento” delas, a despeito da fome e da miséria que continuou e ainda continua persistindo noutros países ditos “atrasados” ou “emergentes” ou “em desenvolvimento”. Mas, afinal o Capitalismo não foi uma “invenção europeia” a partir do desenvolvimento das forças produtivas de então? Especificamente, no momento em que a Europa que se unifica em monarquias e viabiliza a ascensão dos burgueses, como umaclasse progressista e detentora do Capital?

Então, o que está novamente “em jogo” é a incapacidade de percepção por parte das esquerdas de como construir sólida “uma ponte” na direção da transformação social, possibilitando que se concretizem revoluções políticas e sociais, complementares. Em contrapartida, a centro-direita, especificamente, sabe o que faz em cada uma dessas situações e, aos poucos, ela se recicla a tempo de “assimilar” algumas propostas populares. Já os programas ditos sociais, de claro conteúdo assistencial, mas que refletem certa redistribuição de renda, por mínima que seja, não são acompanhados de uma melhoria na conscientização política da população. Muito pelo contrário, pois os governos considerados como “populares e de esquerda” se colocam acima dos interesses das massas, combinando ações populares com concessões aos principais grupos econômicos, através das quais possam gerar um razoável crescimento da economia e possibilitar uma continuidade administrativa e governamental. E, deste modo, deixam de explicar as causas da exploração sócio-econômica recorrente e não procuram conscientizar as massas sobre o papel nefasto do Capitalismo com as suas mazelas de concentração da renda e, consequentemente, de bolsões de pobreza e miséria que se perpetuam ao longo do tempo, na outra ponta.

Com toda a certeza, não se pode ficar na dependência e à mercê das oscilações ideológicas à direita ou à esquerda, subordinadas a ciclos que se reproduzem sempre, refletindo as influências políticas dos segmentos antagônicos por toda a sociedade e tornando-a refém dos interesses próprios de cada grupo organizado, sejam em partidos tradicionais ou não. A imaginária neutralidade de um “Estado Democrático de Direito” não existe na prática, pois somente serve para administrar o Capitalismo em situações de calmaria. Quando não, a opção usada é a da implantação de um regime de exceção, ditatorial, para combater uma possível ascensão revolucionária da parte dos segmentos explorados da população em geral. É o emprego providencial dos órgãos de segurança e das Forças Armadas a serviço da contrarrevolução e em defesa do Capitalismo, gerando uma eficaz reação preventiva imediata. Então, preciso é, que as esquerdas não abandonem a concepção da luta de classes como um motor da História, confundindo-a com a luta contra um inimigo externo. Mas, claro está, que ela se dá internamente, no dia a dia, em todo e qualquer país de economia capitalista.

Diante dos retrocessos proporcionados pelos partidos da ordem, urge a necessidade de se organizar de forma autônoma e independente o movimento de massas. Não se pode mais ficar “a reboque” das atuações partidárias, especificamente nos casos em que praticam um prejudicial e cínico “aparelhamento” dos órgãos associativos, em desfavor das forças populares, que continuam desorganizadas e despolitizadas. Isto só acontece para atender aos próprios interesses burocráticos que nada tem a ver com a luta pela transformação da sociedade capitalista, através da erradicação do sistema. 

A eventual obscuridade ocorre e sempre ocorrerá, independentemente, de que um governo seja ou não “progressista” diante da crise sistêmica e autodestrutiva do Capitalismo em todas as partes do mundo. Por isso, reafirma-se que a luta é de fato “essencialmente” anticapitalista e não somente “anti-imperialista” tendo-se em conta que os Imperialismos “como uma etapa superior do Capitalismo” não excluem a luta necessária por sua eliminação, país por país, baseada na fundamentação do internacionalismo proletário.

E não é nenhuma novidade que as forças conservadoras da burguesia sempre procuram tirar proveito das situações que se apresentam, tendo por objetivo assegurar ou retomar o “controle” e o “domínio” sobre as demais classes sociais. E o governo, que vai gerenciar o Capitalismo, tem importância porque define políticas de sustentabilidade do Estado, tal como se apresenta, afastando as ameaças que porventura venham a colocar “em xeque” a ordem vigente, o estado de coisas que as beneficiam sempre. Por conseguinte, fica até mais interessante para elas contar com a participação efetiva de forças que “se dizem” de esquerda, mas que não se dispõem a eliminar a economia capitalista e só querem exercer apenas o “poder administrativo”. Não querem sequer se colocar a serviço de um Estado organizado com base nos seus interesses de classe, tendo por objetivo “miná-lo” por dentro para “implodi-lo” quando necessário for, no tempo devido. 

Preferem manter a ilusão reformista quanto ao funcionamento de uma sociedade corrompida que só beneficia determinadas classes em detrimento de outras mais, que são de fato a maioria.

Portanto, não se trata de uma luta tenaz contra “o inimigo que vem de fora”...  Sabe-se, pois, que a luta de classes é o principal referencial das esquerdas para não se aliarem a grupos políticos da burguesia, mesmo que eles se mostrem aparentemente “progressistas” e “desenvolvimentistas”. O retrocesso em evidência já estava estabelecido antes, desde que grupos de esquerda não cumprem com seu papel de organizar o movimento de massas com independência e autonomia, explicando didaticamente o caráter de classe do Estado e o poder das classes dominantes. Isto é a principal condição para se avançar na luta ideológica contra o sistema capitalista. Neste processo, as eleições que se promovem ciclicamente, como se fossem um “exercício democrático” exclusivo e único, somente interessam a elas e não às esquerdas. Esta “democracia” tem sua importância crucial, numa situação na qual se luta por questões pontais de ampliação das liberdades democráticas em geral, tendo-se o direito de associação e expressão assegurado até onde é possível exercê-lo, mas não resolve o ainda pendente problema da necessidade de conscientização das massas e das possibilidades de se organizarem de forma plural para modificar a relação de forças a favor da transformação social e política.

Com efeito, pode-se concluir então que a restauração conservadora se dá justamente pela incapacidade das esquerdas para avançarem junto com as massas, num enfrentamento decisivo contra o Capitalismo em todos os níveis, evitando cair no engodo de que se pode reformá-lo ou até mesmo impedir as ações imperialistas condicionadas à sua própria existência.

Recife (PE), 22 de outubro de 2014.
Antônio De Campos
Militante socialista e ex-preso político.

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