21.9.14

MANIFESTO POR UMA FRENTE ARTÍSTICA ANTI-CAPITALISTA

Do Blog Comuna que Pariu!

Todo ser humano tem potencial para produzir arte, todos somos potenciais artistas.

Se uma criança recebe areia, ela esculpe um castelo. Se recebe tinta, ela pinta um dinossauro. Se estimulada com música, ela inventa sua própria dança. Mas adultos, a maioria de nós ou não produz mais arte ou não a produz como gostaria de fazer. Por que isso acontece?

Basta pensarmos no nosso dia a dia pra darmos de cara com dois motivos. De um lado, alguém que trabalha oito ou mais horas por dia, gastando umas boas horinhas a mais pra ir e voltar de seu local de trabalho, infelizmente não tem muito tempo para dedicar a outras atividades, ainda que goste muito delas. Nessa situação, apreciar e conhecer ou mesmo criar arte aparece como algo “supérfluo”, não passando de um “hobby” pra ser exercitado entre uma jornada e outra, e, se der, em algum espacinho de tempo no fim de semana...

Além disso, um monte de gente simplesmente não frequenta teatros, shows, exposições ou certos pagodes e estádios porque se tornam pesados demais no orçamento (na sociedade em que vivemos tudo, até as tradições mais populares, vai virando mercadoria).

O outro motivo está ligado ao que chamamos de indústria cultural. E aí tratamos da situação dos trabalhadores da cultura (como os “artistas” ou os “produtores culturais”).

Todo o fruto de sua criatividade acaba servindo pra alimentar esta indústria; e nisso há uma perda de sentido sobre o que fazem, pois cada vez mais se tornam meros executores levados a produzir algo que não é determinado por sua própria vontade, mas que se encaixe em um padrão vendável.

Uma canção precisa ser “hit”, para vender; um quadro precisa ter o estilo que abra as portas pra galerias importantes, para vender; uma peça de teatro deve repetir os "lugares comuns" e efeitos fáceis, para vender.

A cultura é reduzida a um negócio, cumprindo a função social de fornecimento de “matéria-prima criativa” para certas indústrias nas quais os bens produzidos têm valor ou não de acordo com as tais “leis do mercado”.

Até mesmo o sucesso de uma obra artística tende a ser medido pelo lucro que ela proporcionou! Isso está presente tanto nas listas que tratam por melhores filme do ano aqueles com maior bilheteria, quanto na indústria do jabá radiofônico, na qual as músicas primeiro são pagas para serem as mais tocadas nas rádios e depois se tornam "magicamente" presentes no assovio de qualquer ouvinte.

Quantas vezes já não vimos repetidas essas velhas práticas?

Tudo isso se dá porque vivemos em uma sociedade em que nós trabalhadores não controlamos os meios necessários para garantir as nossas próprias vidas.

Nas sociedades capitalistas, cada indivíduo depende de comprar no “mercado” todas as suas necessidades: sua comida, suas roupas, sua moradia, seu deslocamento, só podendo satisfazê-las se puder pagar.

A quantidade de fome que você tem simplesmente não é levada em conta pelo dono do supermercado, assim como a enorme "fome cultural” que você tem não comove nem um pouco o proprietário da casa de shows – ou mesmo que o comova, isso não o levará a distribuir bilhetes! Isso gera certas situações que seriam inaceitáveis se não estivéssemos tão acostumados com elas, e os exemplos são incontáveis – basta refletir meio segundo na porta de um supermercado qualquer, e verificar, na calçada, à porta de sua entrada, quantas vezes não estavam ali pessoas em situação de rua pedindo ajuda.

No mercado de arte, vão se formando campos autorizados a dizer o que é e o que não é bom ou válido. A arte, para ser reconhecida como arte, precisa do consentimento dos produtores, dos curadores, dos comissários de exposição, dos conservadores de arte, das gravadoras, das estações de rádio, dos grandes chefs de cozinha, das editoras etc.

Neste contexto, a arte dos pobres, dos negros e dos indígenas é diminuída pelos que detêm “o poder da palavra” ao status inferior de “artesanato”. Essa oposição entre artesanato e arte expressa todo o desprezo dos mandarins da cultura mercantilizada pelo trabalho manual e pela cultura popular.

A arte parece estar ao acesso de todos, mas o que está ao alcance é somente o seu consumo para quem puder pagar! E quanto à criação, essa fica só pros artistas “eleitos” pelo mercado em um de seus diversos nichos (inclusive o mercado acadêmico, considerando que a universidade se torna cada vez mais mercantilizada), deixando à margem inúmeros músicos, compositores, arranjadores, poetas, pintores, atores, diretores, num autêntico desperdício de capacidades criativas-sociais que este modelo simplesmente é incapaz de aproveitar.

É no contexto da competição entre os próprios artistas, uns contra os outros, por um lugar no rol daqueles “eleitos”, que surge a imagem falsa do “gênio”. Este seria o ser “melhor do que os outros”, que tem “mais talento” individual e por isso “merece aparecer”, sendo celebrado do mesmo modo na dança, na música, na culinária ou no futebol.

Ok, entendido, mas... o que seria de um bom ator se ele atuasse sempre sozinho?! Não é questão de negar as aptidões individuais. Sim, elas existem, mas são muito mal aproveitadas numa sociedade em que todos os criadores (o que é exatamente o mesmo que dizer todos os trabalhadores, quer manuais quer intelectuais) são postos em eterna competição uns contra os outros por um lugar no mercado.

Nesta sociedade, o egocentrismo radical vai ocupando o lugar da camaradagem, a pretensa autoria individual ocupa o lugar da criação coletiva, e com isso a imensa maioria da população, inclusive dos artistas, perde – enquanto alguns poucos grandes “produtores”, na verdade proprietários ou acionistas de grandes empresas culturais, extraem seus lucros milionários e mantêm o tal do mercado de arte azeitado e operando.

As jornadas de junho de 2013 trouxeram à tona certa insatisfação social, com milhares de pessoas indo às ruas reivindicar o atendimento de suas necessidades. Este novo contexto não deixou de influenciar o mundo da cultura e da arte.

O carnaval de 2014 foi marcado por blocos, marchinhas e sambas politizados e de protesto, as manifestações se tornaram tema de diversos filmes documentários, peças de teatro ou poesias e as fotografias dos manifestantes e da repressão policial rodaram o mundo.

Essa tomada de consciência pode ser um bom começo de um questionamento geral, mas, para impedir que essa saudável energia questionadora se disperse, vimos a necessidade de começar pra já a construir uma alternativa.

Uma alternativa ao poder político que nos apresenta um jogo de cartas marcadas e nos manda sair das ruas (com a “ajuda” da polícia) e votar em algum dos candidatos dos grandes partidos que representam sempre os mesmos interesses. Uma alternativa aos governos que nos pedem para aguardar passivamente que eles apresentem a “solução” para nossos problemas.

Uma alternativa, enfim, a toda uma forma de organização social capitalista que exige que os trabalhadores empreguem o melhor de suas energias vitais na produção de mercadorias para depois descansar consumindo passivamente sem protestar. Isso quando lhes é dado descansar...

Uma primeira alternativa seria lutar por uma mudança da política cultural do Estado que rompesse com os seus atuais marcos mercadológicos, cujos principais exemplos são a Lei Rouanet (dinheiro público de renúncia fiscal que é gerenciado por empresas privadas) e o estímulo ao empreendedorismo dos trabalhadores da arte (estimulando-os a fazer projetos para captar recursos no mercado), e investisse em um amplo aparato público e gratuito de formação, produção e distribuição de arte.

Mas pensamos que é necessário ir além e criar organizações culturais e artísticas próprias dos trabalhadores. Já existem diversas e o Bloco Comuna Que Pariu! é um bom exemplo de um grupo que produz uma arte anticapitalista por fora da indústria cultural.

Mas o trabalho de grupos isolados, por melhor que seja, tende a não ter muita repercussão em uma sociedade na qual a circulação de informações e da arte é dominada pelos grandes monopólios empresariais.

Por isso, propomos a formação de uma frente anticapitalista que afirme que a arte não deve ser mercadoria, mas expressar necessidades coletivas e apontar para a necessidade de criação de relações sociais que garantam a vida.

Como primeiro passo nesta direção estamos formando um Comitê de Cultura pelo Poder Popular para discutir e produzir arte e cultura por fora da lógica da mercadoria, buscando construir uma alternativa cultural própria dos trabalhadores que seja capaz de enfrentar a indústria cultural e caminhar no sentido da socialização da produção cultural e artística. Venha organizar conosco este Comitê!

Proposta inicial de eixos programáticos para a atuação do Comitê:

1º Participar das lutas gerais da classe trabalhadora, inclusive colocando nossa arte ao seu serviço;

2º Garantir e avançar os direitos dos trabalhadores da arte e da cultura;

3º Desmercantilizar a produção e o acesso à arte e a cultura;

4º Construir uma alternativa cultural dos trabalhadores que seja capaz de enfrentar a indústria cultural (o poder popular na cultura);

5º Articular uma frente artística anticapitalista que aponte para a necessidade de criação de relações sociais que garantam a vida;

6º Apoiar e aprender com outras experiências culturais e artísticas da classe trabalhadora, nacionais e internacionais;

7º Venha sugerir e debater conosco!

Nenhum comentário: