21.9.14

CONVERSANDO SOBRE FUTEBOL

Do Blog comuna que pariu

Por Victor Neves

(ao amigo e camarada Daniel Reis)

“Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”

 Carlos Drummond de Andrade

Há quem diga que certas coisas não se discutem. Gosto, futebol, religião e, pros mais ingênuos (será?), política.

Quem sustenta isso costuma se basear em dois argumentos, que muitas vezes vêm juntos: “há coisas muito pessoais, da conta apenas do indivíduo”; ou “há coisas que não se explicam, apenas se sentem ou se intuem”...

De outro lado, há quem queira discutir isso tudo não exatamente da maneira mais aberta. É alguém que tem tanta certeza de suas próprias posições, que sabe (ou às vezes acha que sabe...) que elas são tão superiores às outras, que encara o debate como um meio líquido e certo de convencer os outros. Nesse caso, o debate não é exatamente um debate: é uma “propaganda em diálogo”. Essa posição pode, em certas situações, ser a contraface da outra, de quem não quer conversar porque não quer se expor à dúvida.

Um exemplo de um assunto apaixonante e que muitas vezes é alvo da “proteção contra o debate” é o futebol. Esporte por excelência do mundo contemporâneo, essa atividade, que já foi de lazer e é cada vez mais de entretenimento, é um dos assuntos preferidos de pelo menos algum momento em 9 entre 10 conversas de mesa de bar, movimenta milhões de pessoas e trilhões de dólares pelo mundo, emociona mesmo quem não acompanha mas, de rabo de olho, vê um “drible da vaca” ou um “balão” e nunca mais esquece...

Entretanto, quando se propõe conversar a sério sobre o assunto, sair do nível do “quem é o time da favela ou o da burguesia pó de arroz” (pra não falar de apelidinhos motivados por concessões à homofobia etc.), no mais das vezes se viram as caras, se fecha o tempo e paira no ar aquele sentimento de “não me venha querer atrapalhar de comemorar o golaço do Neymar só porque ele ganha milhões enquanto a Fifa apóia e os governos empreendem remoções massivas no Brasil da Copa”.

Essa defensiva ao debate aparece até mesmo entre gente de esquerda, que quer mudar o mundo inteirinho mas quando vai falar sobre a Copa do Mundo se sente obrigado a começar sempre pelo protocolar “É claro que eu amo futebol, mas” etc.

Sinceramente: nesse papo sobre futebol, não me parece que o problema seja se a gente “ama” ou “não liga” pro esporte que dizem que é bretão... Me parece que o centro do debate está em outro ponto.

O ponto é, pegando emprestada a bela palavra ali do Drummond: gostar de futebol precisa ser sinônimo de ceder à mistificação? Dito de outro jeito: é necessário participar da simulação de alegria indissociável do futebol de negócios para gostar de futebol?

O problema é que não participar tem consequências, que não são necessariamente insignificantes.

Em escala crescente: você pode ser considerado “meio estranho” ou “muito pessimista” por sua família ou pelos seus amigos do bar ou daquela sua pelada de terça depois do expediente; pode também ser “mal compreendido” por seus eleitores potenciais, caso você seja candidato a algum cargo eletivo – e não são poucos os que eu já vi, mesmo na esquerda que se quer revolucionária, começando a falar da Copa pelo refrão sagrado “Amo futebol, e o povo também, mas...”, como se fosse necessário pedir licença para denunciar arbitrariedades só porque estão relacionadas ao futebol;  ou pode mesmo ter problemas sérios com patrocinadores, com a imprensa ou com clubes empregadores caso você seja um jogador – ou um técnico – de futebol.

Neste último caso, são notórias as histórias do técnico João Saldanha ou do meia Afonsinho, gente que buscou conciliar certos valores cidadãos a uma atuação profissional no futebol e que pagou o preço desta posição. Mas isso foi em outro tempo...

Hoje em dia, a situação é a seguinte: mesmo que você queira se posicionar e ser cidadão, faça-o desde que isso não envolva o futebol. São exemplares as posturas de alguns atletas profissionais: o jogador camaronês (que aliás fez a opção por ser camaronês num contexto em que essa opção é louvável e deve ser elogiada) Benoit Assou-Ekotto, considerado “brutalmente honesto” pela imprensa porque afirma recorrentemente que o futebol é um emprego como qualquer outro, e que por isso ele joga apenas pelo dinheiro, enquanto trabalha “contra a pobreza na África” junto à ONU etc.

O português Cristiano Ronaldo, que saiu em defesa do povo palestino e se recusou a trocar de camisa após o jogo contra Israel, alegando não trocar camisa com assassinos; os argentinos Messi, Mascherano e Lavezzi, que gravaram recentemente declarações em apoio às Avós da Praça de Maio argentinas.

Nos três casos, por mais louváveis que sejam as posições dos jogadores em termos de cidadania fora dos campos, no que se refere ao lado de dentro das quatro linhas não há e não pode haver debate. 

E, é claro, não só: a tudo que se refere ao espetáculo: patrocinadores, remoções, negociatas, desrespeitos aos direitos humanos, mal emprego do dinheiro público, repressão policial a movimentos sociais... Aceitar esse bloqueio significa aceitar que o futebol é naturalmente este futebol, que sempre foi assim e por isso assim continuará – ou pelo menos se resignar com isso. Significa mais: significa aceitar um pedacinho do pacote que diz que a sociedade em que vivemos é naturalmente deste jeito, que assim sempre foi e sempre será...

Já do lado de cá, me parece que querer transformar essa sociedade tem que ter implicações em como se aprecia o “velho esporte” (chinês?)... Não é possível ter uma alegria pura e inocente, mesmo ao se ver um gol bonito como aquele do Fernandinho contra o Camarões.

No futebol de negócios, infelizmente toda alegria carrega consigo um bom peso de sujeira e custa os sonhos de muita gente que não está ali no campo de chuteiras. E pra quem quer viver sem pensar nesse tipo de problema, é claro que isso sempre é possível – mas exige uma maciça dose de auto-enganação.

Mais interessante não seria enfrenta-lo de frente e trabalhar pra resgatar do horror nossas alegrias e nossa capacidade de se emocionar até com coisas banais, como a habilidade humana de trabalhar em grupo e dominar uma bola?

Pra finalizar, deixo uma historinha pra reflexão: na virada dos anos 80 pros 90, quando eu era criança e a ditadura tinha acabado havia poucos anos, eu tinha uma professora (de Estudos Sociais ou de Moral e Cívica...?) que contava que a prova de que o futebol estava acima das divergências é que ela sabia de histórias de “presos” (leia-se: militantes seviciados) e “servidores do Estado” (leia-se: torcionários) que, na cadeia, deixavam de lado os “problemas” (leia-se: ...) para assistir juntos aos jogos da Copa de 70 e torcer pela pátria de chuteiras.

Já me perguntei muitas vezes como aquela professora conseguia não sentir o horror profundo contido no que ela narrava...

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