9.6.14

ONZE FILMES DE ESQUERDA PARA SE ASSISTIR

1 Capitalismo, uma História de Amor (Capitalism, a Love Story)
País: Estados Unidos da América
Ano: 2009
Realizador: Michael Moore
Esta história de amor é o retrato da crise do capitalismo a partir do seu próprio berço. De Michael Moore, também poderíamos incluir Sicko ou Bowling for Columbine, mas Capitalismo corresponde ao zénite da evolução ideológica do realizador norte-americano, não acabasse o filme ao som da Internacional. Mas sobretudo, o documentário perfaz a lista pelos relatos dramáticos dos trabalhadores que pagam na pele o preço do amor dos EUA pelo capitalismo.



2 Machuca
País: Chile
Ano: 2004
Realizador: Andrés Wood
Chile, 1973. Dois rapazes são unidos pela amizade e separados pelas classes sociais. Este é um filme sobre a adolescência, com toda a esperança e violência que ela comporta e, por isso mesmo, a melhor lente sobre a História recente do Chile. Mas Machuca é muito mais do que uma rara janela para a experiência socialista de Allende e uma crítica à podridão da burguesia que engendrou Pinochet. É por direito, um dos melhores filmes chilenos alguma vez produzidos.

3 As Actas de Marusia (Actas de Marusia)
País: México
Ano: 1975
Realizador: Miguel Littín
Por muitos considerada melhor película mexicana de sempre, As Actas e Marusia contam a história verdadeira do massacre que ocorreu na cidade mineira que dá o nome do filme. O enredo pode parecer deprimentemente aborrecedor: em 1907 os mineiros do salitre de Marusia, no norte do chile, organizam uma greve e são confrontados com a mais violenta repressão. Na verdade, As Actas de Marusia é a mesma história contada com uma originalidade refrescante. Littín presta-se a liberdades artísticas que só muito mais tarde seriam consagradas como estilo. A poesia que perpassa o guião, os belíssimos planos distantes, a narração em voz-off e a banda sonora de Mikis Theodorakis impõem este grandioso filme na lista dos melhores filmes da esquerda.





4 The Black Power Mixtape 1967-1975
País: Suécia e EUA
Ano: 2011
Realizador: Göran Olsson
Entre 1967 e 1975 um grupo de jornalistas suecos percorreu os EUA para capturar a quase-revolução do movimento afro-americano. A qualidade e interesse histórico destas imagens e a profundidade das entrevistas com os membros mais destacados do Partido Pantera Negra fazem parecer impossível que as mais de 200 horas de imagens se tenham perdido numa cave da Televisão Sueca. Até agora. The Black Power Mixtape entrecorta o belíssimo filme de há quarenta anos com o comentário cortante de artistas, activistas e académicos da comunidade afro-americana contemporânea e muita música negra. Um documentário essencial para compreender as potencialidades e contradições do Poder Negro americano.




5 Cabra Cega
País: Brasil
Ano: 2005
Realizador: Toni Venturi
Cineastas brasileiros ofereceram mais à causa socialista do que qualquer outra nacionalidade sul-americana. Poderíamos falar dos grandes nomes do Cinema Novo, de Glauber Rocha a Cacá Diegues ou de filmes mais recentes, de Para a Frente Brasil a Eles não Usam Black Tie, que irradiam um brilho tão brasileiro como a moqueca e o feijão com arroz. Mas Cabra Cega, embora injustamente relegado ao ilustre desconhecimento, é um dos filmes mais interessantes e originais sobre a ditadura militar. O Che dizia que numa revolução ou se vence ou se morre, mas essa opção não tem Thiago, militante de uma organização armada, que é ferido e obrigado a se esconder numa casa clandestina. A sua prisão domiciliária é palco de diálogos enternecedores e para memórias tenebrosas que se desenrolam entre o pavor da prisão e da tortura e a paixão de Rosa, que confirma o axioma: a mulher que luta é mesmo a mais bonita. E já disse que a banda sonora tem Chico Buarque?



6 Os Edukadores (Die Fetten Jahre sind Vorbe)
País: Alemanha e Áustria
Ano: 2004
Realizador: Hans Weingartner
Uma estudante universitária tem um pequeno acidente de carro. Até aqui tudo bem. Acontece que não tinha seguro. Menos bem. E a isto acresce que o tipo do carro da frente, não é nem mais nem menos que um dos maiores bilionários do país e que os danos provocados valem dezenas de milhares de euros. Condenada em tribunal a pagá-los por inteiro, a jovem é forçada a deixar os estudos e a aceitar empregos precários por salários de miséria. Mas quando não se tem nada, também não se tem nada a perder. Os Edukadores correspondem o terror dos capitalistas na mesma medida. Como? A) Entrar furtivamente nas mansões dos ricos B) Criar pirâmides com toda a mobília e alterar toda a configuração da casa. C) Deixar uma nota: “Os vossos dias de abastança acabaram”.





7 As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath)
País: Estados Unidos da América
Ano: 1940
Realizador: John Ford
O clássico de Steinbeck encontra uma justa homenagem nesta adaptação de John Ford. As Vinhas da Iraconta a história de uma família de camponeses que, expulsa pelos latifundiários das terras onde viviam e trabalhavam, é forçada a uma longa viagem rumo à Califórnia em busca de trabalho. Pelo caminho, encontram a fome e a discriminação, mas também a solidariedade, a consciência de classe e a dignidade.


8 Os Companheiros (I Compagni)
País: Itália
Ano: 1963
Realizador: Mario Monicelli
Monicelli pintou em Os Companheiros um fresco sobre as lutas sociais na Itália do fim do século XIX. Numa fábrica de Turim, um acidente laboral com contornos criminosos é a última gota para os trabalhadores. Uma espiral de repressão e resistência leva os humaníssimos operários a subir a parada para um nível que surpreende tanto o patrão como o espectador. Mas o mais original é a fluidez do guião, o sentido de humor que Monicilli injecta em todas as cenas e a desentorpecida imperfeição como que todos os personagens (com destaque para Marcello Mastroianni) se movem por temas sérios.


9 O Pequeno Grande Homem (Little Big Man)
País: EUA
Ano: 1970
Realizador: Arthur Penn


Este um filme de cowboys anti-racista com um sentido apurado de justiça poética: a história ora divertida, ora trágica da guerra entre as várias identidades de um homem. Aos 121 anos, Jack Crabb descreve-nos a sua viagem pela História dos EUA como uma luta constante por se manter à tona de sucessivas marés de intolerância. Criado por nativos americanos, Jack parece não se conseguir adaptar ao mundo dos invasores brancos, onde apenas encontra ódio, medo e violência. Dustin Hoffman é brilhante: consegue arrancar a nossa simpatia por um personagem aparentemente volátil e superficial e torna impossível não chegar o fim do filme com um profundo desprezo pela homofobia, o racismo, o machismo e a guerra.



10 A Culpa é de Fidel (La Faute à Fidel)
País: França
Ano: 2006
Realizador: Julie Gavras


A Culpa é de Fidel, de Julie Gavras, a filha do mestre Costa-Gavras é a história ternurenta do ritual de passagem de Anna (Nina Kervel-Bey), uma menina parisina de 9 anos que, de repente, vê o seu estilo de vida pequeno-burguês devassado pela radical transformação ideológica dos pais. A pequena resiste à opção comunista dos pais com argumentos inteligentíssimos e, muito à semelhança de O ano em que os meus pais saíram de férias, constrói à sua volta um ambiente de sonho e inocência apenas quebrado pelos geniais e improváveis diálogos sobre política, sexo e família.



11 Sambizanga
País: Angola
Ano: 1973
Realizador: Sarah Maldoror
Sambizanga arruma com o mito do “brando colonialismo português” numa clara e inequívoca afirmação da estética e cultura africanas. Domingos, militante do MPLA, é sequestrado pela PIDE e torturado durante vários dias. Entretanto, a sua família procura-o desesperadamente entre o desespero do povo angolano. Filmado no Congo com guerrilheiros do MPLA e do PAIGC na maioria dos papéis e baseado na obra de José Luandino Vieira, Sambizanga é um dos mais poderosos filmes anti-coloniais de todo o continente africano.

Um comentário:

Anônimo disse...

Faltou "Eles Vivem"!!