11.5.14

PT, SONHOS, SAUDADES E DESFILIAÇÃO

Boa noite a todas e a todos,

Venho socializar uma séria e madura reflexão.

Há mais de 1 ano e meio tomei a decisão de abdicar a vida partidária, não pela derrota eleitoral, pois tenho a consciência de que na lógica da sociedade burguesa, a minha candidatura era mais um instrumento de denúncia da corrupção que impera no processo eleitoral, verdadeiro jogo de cartas marcadas.

Aos honrados votos que tive, reitero o meu sincero muito obrigado.

Parte considerável das pessoas entendeu nossos debates, principalmente acerca da Educação gratuita e do engodo que é a Facape, um ente PÚBLICO, escondido do povo de Petrolina, com (mau) caráter privado e que rouba nas mensalidades este direito à gratuidade, elitizando a esfera da única IES municipal do Vale do São Francisco.

Mantenho a consciência e a concepção de sociedade democrática, popular e socialista ilibada, não creio na Política como um instrumento que se reduza a um mandato, a Política é cotidiana e se faz em todos os ambientes e pelas causas que nos dedicamos.

Decidi tomar conta da minha vida e dedicá-la a minha Família, sempre presente e me apoiando. Firmes e fortes continuamos crendo no melhor do mundo e do ser humano.

Nestes quase dois anos passei por um longo processo de reflexão também acerca da vida partidária: vale a pena acreditar num PT que ficou nos sonhos e nas saudades?

Num partido que perdeu a essência socialista, que se envergonha dos movimentos sociais e das lutas cotidianas do povo por defender a privataria de Dilma Rousseff, que prefere os "aliados" de qualquer lado (PMDB, PP, PR, SARNEY, COLLOR, CALHEIROS, et caterva), à coerência de quem pretende construir uma forma de poder popular com o povo ao lado, ombro a ombro.

Viver é difícil, morrer é fácil e após algumas décadas a essência do maior partido de esquerda morreu. O PT tem um belo passado pela frente e seguirei vivendo.

Históricos militantes saíram e choraram, pela perda da identidade, da história despedaçada, pela virada conservadora social-liberal, pela traição a tudo que construímos e ao que a plutocracia partidária nega quando nascemos para "ser diferentes de tudo aquilo que aí está". Aos sérios e combativos camaradas que continuam a lutar pelo PT, digo até logo, pois é uma luta perdida pelo poder econômico (o mesmo que combatemos) e que esta plutocracia abraça nos seus banquetes, sem nenhum constrangimento, que o digam o novo código florestal celebrado pelo agronegócio pastoreiro e das motosserras, as privatizações dos hospitais universitários, os pedágios das BR's (sem reduzir ou acabar com a tributação das estradas), a privatização dos aeroportos, o desmantelamento da Petrobras e dos Correios, os lucros dos banqueiros, o superávit primário ao custo da alta inflacionária cinicamente camuflada, os juros elevados, a Fifa (nosso novo FMI), as tarifas públicas, o risco de um colapso energético, o desinteresse pela valorização de categorias profissionais como Professores (cujo piso/teto salarial é inferior a três salários mínimos). 

Não deixei o PT, o PT deixou de ser o que era, deixou de ser parte de mim e de milhões de pessoas, cujos dirigentes preferem ser negociantes das alianças eleitorais e consultores do grande capital a fazer a estratégia da revolução brasileira. Também não deixo o PT, apenas, pelos inúmeros constrangimentos provocados pela ação penal 470, pela perda da identidade do Modo Petista de Governar, pelo descaso que sua direção faz da corrupção (endemia típica do capitalismo), não deixei o PT... o PT complexamente deixou de ser o instrumento da luta socialista de seus fundadores - Intelectuais Progressistas, Estudantes militantes da UNE e da UBES, ex-guerrilheiros da ditadura civil-militar, Comunidades Eclesiais de Base/Teologia da Libertação, Comunistas de todas as vertentes e Sindicalistas da CUT e dos Movimentos Sem Terra e Sem Teto - que pugnaram em manifesto a necessidade de construirmos uma transformação social profunda ao lado de trabalhadores, das mulheres, homens, jovens, idosos ... Morre o sonho que teve duas culminâncias: a disputa Collor x Lula em 1989 (onde a Frente Brasil Popular perdeu, mas não perdeu a vergonha) e a Lula x Serra que se imortalizou como a última grande disputa ideológica séria da redemocratização com a Coligação Lula Presidente.

Passamos os anos 1990 definhando e os 2000 nos esfacelando, pouco a pouco o PT deixava de ser socialista e virava socialdemocrata, hoje, a coisa piorou: virou uma aberração meio social-liberal meio neoliberal mascarado. É só perceber as substâncias que marcam apoio ao governo Rousseff e seus atos. Na semântica petista não existe a palavra autocrítica, é mais conveniente camuflar a realidade e instigar sentimentos saudosistas, enaltecendo as personalidades de Lula e de Dilma como heróis. Outrora fosse o mesmo a negar o culto salvacionista e assegurar a razão da construção coletiva e militante.

O PT que acreditei tornou-se um cadáver insepulto e não é possível viver na lástima do que passou e não volta a ser. Seria negar Marx que é o eufemismo de negar a dialética. É ser arrogante em refutar a autocrítica. Não me arrependo dos anos que lutei no PT para disputar a hegemonia da sociedade, não me arrependo das lutas estudantis, greves sindicais, dos apoios às manifestações do MST, da CUT e da UNE que decorri durante os anos 1990 e 2000. É hora de acordar! Aquele Partido dos Trabalhadores deixa saudades.

Sigo em frente, num velho conhecido da história, crendo na viabilidade socialista e popular, ingresso no Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão (assim apelidado por ter sido o maior Partido Comunista do Ocidente), quase liquidado em 1992 pelos neoliberais e por setores liderados por Roberto Freire. O PCB é a fênix dos revolucionários. Reconstruiu sua identidade em 1995, saiu do governo Lula antes do mensalão em 2005 e após seu XV Congresso, realizado no último mês de abril, reafirma a luta socialista nas bases da sociedade, a luta de baixo para cima, a alternativa dos que acreditam que "nada é impossível de mudar".

Portanto, feliz com a nova casa e antigos amigos, humildemente, recomeço a jornada militante por um rumo a ser reconstruído.

Petrolina, 11 de maio de 2014.

Bráulio de Barros Wanderley

Um comentário:

Anônimo disse...

parabéns professor pela atitude! a sua decisao foi mto coerente.