19.5.14

O PT E O MOVIMENTO DOS SEM PARTIDOS

DA REVISTA FÓRUM
O PT e o movimento dos sem partidos
Há uma dificuldade de ordem interna do partido, de conseguir se arejar, o que significa os setores tradicionais abrirem (seu) espaço para os novos atores
Por Luis Nassif, no Jornal GGN
Nos anos 60, em plena ascensão do movimento trabalhista, deu muita repercussão uma crônica do escritor Fernando Jorge  em O Cruzeiro.
Contava a história de um motorista de táxi que abalroou um rabo-de-peixe em plena avenida Atlântica. O taxista saiu do carro, fez um discurso social inflamado e imediatamente tornou-se personalidade política.
Sua carreira política durou até o momento em que, transitando pelo mesmo local, foi abalroado por um furreca caindo aos pedaços, dirigida por um motorista que saiu do carro e fez um novo discurso político.
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De certo modo, a fábula  descrevia os processos de mudança no país, no qual o trabalhismo convencional começava a ser questionado por outras forças que emergiam da nova industrialização.
Dos anos 80 em diante o PT tornou-se o motorista do táxi, fincado em dois movimentos sólidos: o sindicalismo do ABC e a Igreja.
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Agora, chegou a hora em que o fusca velho abalroa o táxi.
Esse é o tema do livro “20 Centavos: a luta contra o aumento” de Pablo Ortellado, professor do Instituto de Filosofia da Universidade de São Paulo.
Ao contrário do terrorismo primário sobre chavismo, bolivarianismo, comunismo e outras bobagens, o PT – para usar um termo caro às esquerdas – “aburguesou-se” e institucionalizou os movimentos sociais. Garantiu um pacto político que, de um lado tranquilizou o cenário político brasileiro, mas de outro impermeabilizou-o aos novos movimentos que surgiam.
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Grosso modo, pode-se dividir o desenho social e político brasileiro entre os incluídos pré anos 70 (a classe média tradicional) – famílias tradicionais ou filhos da urbanização dos anos 50 e 60 -, os novos incluídos dos anos 80 e 90 – abrigados no PT – e a novíssima geração dos recém-chegados, movimentos de recicladores, rolesinhos, Movimento Passe LIvre, black blocs e outras manifestações que explodiram em junho passado.
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Nas manifestações de junho, a primeira reação do PT foi de quase pânico, como se intrusos ousassem questionar seu predomínio sobre as manifestações de rua. Depois, as principais lideranças entenderam o fenômeno. Mas entre entender e definir formas de abrigá-los há uma enorme distância.
Há uma dificuldade de ordem interna do partido, de conseguir se arejar, o que significa os setores tradicionais abrirem (seu) espaço para os novos atores. E outra de ordem institucional: o governo Dilma é impermeável até ao PT tradicional, mas ainda aos novos movimentos.
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Se o PT não consegue, menos ainda os demais grandes partidos do espectro político tradicional. Todos eles – do PSDB ao PMDB, passando pelo PSB e PV – estão a milhas de distância da periferia política.
Por enquanto, os candidatos a gurus dos novos movimentos ou são intelectuais de academia, praticando um radicalismo de salão; ou partidos de extrema esquerda que não aceitam o jogo da democracia social.
Não há mais a força aglutinadora do sindicalismo do ABC e da Igreja, que garantiram o PT. Então esses movimentos nascerão dispersos e, gradativamente, irão se incorporando a uma variedade maior de partidos, com sensibilidade para os novos tempos de nossa democracia social.
Levará um bom tempo até que os novos incluídos consigam alguma organicidade. Até lá, tome movimentos de rua.
Foto de capa: Mídia Ninja

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