25.5.14

CARTA À COPA

Por Keyla Lins Coelho

Recebi um convite há algum tempo para escrever no blog do meu marido. Debati-me com esta ideia, pois apesar do orgulho, senti-me pequena, diante da maestria, do dom e da magnífica capacidade dele de escrever (um dos grandes orgulhos e admiração que ele me proporciona). E hoje, recebi a cobrança de que ainda não havia escrito. Pois, vamos lá...

PREZADA SENHORA COPA,

Vi por vários dias pessoas reclamarem de ti. Gente foi à rua gritando por direitos iguais, pois deram o título de Cidadã apenas a você. Sequer mencionaram a saúde, o saneamento, as escolas... coisas que são utilizadas diariamente, não apenas de quatro em quatro anos.

Quando eu era criança, nas aulas de História, conheci o termo panis et circus*. Hoje, poucas pessoas conhecem, talvez por não serem estimuladas a pensar, talvez até porque os professores desistiram de mudar alguma coisa, devido seus salários mal pagos, sofridos. Isto me leva a te dar outros nomes... pois bem.

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No meu país, vira e mexe, tem gente morrendo nas filas dos hospitais, crianças “alugando” os corpos (para sustento), buracos nas ruas, desapropriação de terras (onde pessoas que não tem onde morar, nem para onde ir) e tantas outras mazelas que faremos dias de reflexões.

Sei que a senhora se vangloria de ser tão esperada nos países anfitriões, de possuir tão bem pagos filhos, de ser considerada um espetáculo. Contudo, no meu país, espetáculo é de fome, de miséria e de dor. E quanto a isto, eu sofro e tenho horror à senhora, dona Copa.

Hoje vejo muitos se rederem ao teu encanto. Eu continuo com um grito seco e preso na garganta. Não te aceito e conheço muitos que também não. Se eu pudesse, colocaria a vassoura atrás da porta do meu país, para que foste embora.

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Tem muita gente que ainda está de olhos abertos. Eu também quero mudar o que há de errado. Sou pouco, quase um grão de areia. Mas vou continuar a reclamar ao lado de muitos.

Talvez se a senhora tivesse vindo aqui antes, logo a senhora que é mãe de tantos jogadores, seleções e pátrias, teria se condoído com a história das filhas e dos filhos do meu país, com seus problemas empurrados para debaixo do tapete, com seus governos mercenários, com os desvios de dinheiro e operários mortos em anonimato nas construções das volumosas arenas. Provavelmente, ficaria também envergonhada. Talvez até falasse com os responsáveis, talvez chorasse ou talvez até risse de tamanho despautério.

Infelizmente, dona Copa, eu não posso ficar calada. #Copapraquem?

* Ou "panem et circenses" - (Latim: "Pão e circo") - expressão extraída de uma frase de desprezo que Juvenal aplica aos romanos em decadência, que só ediam trigo no fórum e espetáculos gratuitos no circo. É usado para designar pessoas e populações facilmente contentáveis, apenas com diversão e comida. 

Fonte: http://cae.freeservers.com/pesquisa-esco...

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