25.4.14

DOUTRINAÇÃO ABSOLUTA


DO PORTAL HISTÓRIA VIVA, Por Lionel Richard

"Nossos milhares de jovens são a garantia do futuro!” Eis o slogan martelado pelos dirigentes nazistas de 1933 a 1945. Faziam de tudo para engajar a sociedade alemã numa “transformação total” e, do seu ponto de vista, os  jovens deveriam ser seus principais agentes, sob a tutela da organização Juventude Hitlerista (Hitlerjugend). Esta deveria não somente englobá-los todos como também regular sua vida em grupo.

A dita Juventude Hitlerista é declarada autônoma em 17 de junho de 1933 e posta sob a autoridade exclusiva de um “chefe” de 26 anos, Baldur von Schirach (1907-1974). Durante  a República de Weimar, ele era responsável pela Associação dos Estudantes Nacional-Socialistas. Compunha poemas e canções nacionalistas. Era conhecido de Adolf Hitler: em março de 1932, casou-se com a filha de seu fotógrafo oficial, Heinrich Hoffmann. Menos de uma semana após sua nomeação, toma como modelo a dissolução dos sindicatos, em 2 de maio de 1933. Ele dissolve várias uniões de jovens e exige a integração de seus grupos na Juventude Hitlerista. Essa unificação, anuncia ele, é o prelúdio necessário a uma “educação comum da juventude alemã”.

Nos dois anos seguintes, o Füher obtém a submissão das organizações protestantes e católicas. A lei que obrigava todos os jovens entre 10 e 18 anos a fazer parte da Juventude Hitlerista foi promulgada em 1º de fevereiro de 1936. Em seu último parágrafo, ela indica: “Fora da casa dos pais e da escola, é na Juventude Hitlerista que se deve educar fi sica, intelectual e moralmente a juventude alemã, no espírito do nacional-socialismo, a fi m que ela se ponha a serviço do povo e da comunhão popular”.

Baldur von Schirach ordena num primeiro momento que não se exijam autoritariamente as adesões. Para conquistar a simpatia de todos, imprime nos desfiles e em outros eventos o espírito de camaradagem. No entanto, o número de livres decisões se mostra mais tímido do que o previsto. Então, ele resolve aplicar imperativamente a lei a partir de 1º de abril de 1937. Antes de 15 de março de cada ano, os pais devem comparecer às prefeituras e inscrever seus fi lhos de 10 anos. Prorrogar ou não atender a essa exigência pode ser considerado um ato de rebelião e valer represálias, até mesmo a prisão num campo de concentração. Em 20 de abril, dia do aniversário de Hitler, moças e rapazes juram solenemente fidelidade ao Führer e são incorporados em suas respectivas “tropas”. Até os 18 anos, eles vão passar por todas as etapas destinadas a torná-los “dignos da nação”.

A tropa n° 3, do Jungvolk, é a dos garotos; os Pimpfe acolhem os adolescentes. Eles são iniciados em seus primeiros jogos de guerra. Depois, em seu primeiro uniforme – quepe preto e calças curtas –, ei-los nas tropas n° 1 e 2 dos Juniors. Aos 14 anos, eles passam para as fileiras da Juventude Hitlerista propriamente dita por quatro anos. Segue-se um período de seis meses no Serviço do Trabalho, decretado obrigatório em junho de 1935, antes da conclusão do serviço militar, também obrigatório, e que foi restabelecido em 16 de março de 1935. Logo depois, os mais merecedores são integrados nos quadros militares ou civis do Estado Nacional-Socialista.

Mesmo percurso para as moças. No Partido Nacional-Socialista, quando foi adotado o projeto de uma organização para os jovens, em julho de 1926, só havia sido previsto o alistamento de rapazes, com a intenção de formar um viveiro de recrutas para as divisões de assalto, as SA. A criação de tropas especificamente femininas só chega à ordem do dia em junho-julho de 1930. Em 1931, meninas e adolescentes ainda são pouco numerosas – 1.711 –, assim como suas atividades continuam um tanto indefinidas. A União das Jovens Alemãs (Bund Deutscher Mädel), frequentemente chamada BDM, só ganhou linhas de orientação em 22 de outubro de 1931. E é somente em 15 de março de 1932 que é nomeada uma dirigente (Bundesführerin), Elisabeth Greiff -Walden.

Primeira fase, incorporação às Jungmädel, as tropas reservadas às meninas de 10 a 14 anos: dotadas também de um uniforme, elas praticam esportes e frequentam cursos ideológicos que já as preparam para se tornarem boas mães de família. De 14 a 18 anos, passam a integrar as tropas da União propriamente ditas. Depois, exceto para trabalhar ou cursar o ensino superior, têm duas possibilidades: fazer um curso profi ssionalizante de três anos em uma das comunidades de trabalho da associação Fé e Beleza, ou se preparar para os “deveres maternais”, inscrevendo-se, por três anos, nos cursos de prendas domésticas, culinária e higiene oferecidos pelo Serviço Nacional das Mães.

Por meio da divisão feminina da Juventude Hitlerista, o objetivo do partido é moldar o espírito das adolescentes e, fi sicamente, exibi-las, em seus uniformes, saudáveis e esportivas: saia azul-escuro, camisa branca, ausência de qualquer maquiagem. Mas muitos nazistas acham estranho que o trabalho de instrução, na União das Jovens Alemãs, seja consagrado, por dois terços do tempo, ao esporte. Isso obriga uma das dirigentes, Leni Hess, a explicar, em 1936, que “a educação física é uma necessidade”.

Por um lado, a educação física ajudava a estabelecer “disciplina e subordinação” nas massas. Por outro, ela era um trunfo para formar “mulheres e mães capazes de cumprir seus múltiplos e grandiosos deveres para com o povo e o Estado”. A politização por iniciativa da União das Jovens Alemãs, vivida frequentemente como abertura a uma emancipação feminina, é contrariada por um clichê que, propagado nas revistas, ganha a simpatia do público: o da mãe de família de olhos azuis, de tranças, rodeada de crianças loiras. Essa imagem conservadora da mulher não é recusada pelos dirigentes nazistas, muito pelo contrário. “A mais nobre missão da mulher é e continuará sendo a maternidade”, proclama, em 1934, Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda.

Na verdade, a política de encorajamento à natalidade, para que a Alemanha tivesse soldados em maior número, caminha lado a lado com essa arregimentação na União das Jovens Alemãs. Quando os alunos deixam a escola primária, ganham de presente um livrinho, Você e seu povo, com uma série de recomendações especiais para as jovens. A décima as estimula a pôr no mundo “muitos fi lhos”. O ideal, para ser mais preciso, seria ter no mínimo quatro.

As instâncias da Juventude Hitlerista têm alcance sobre todo o território alemão por um sistema de divisão em zonas, regiões e departamentos. As unidades de jovens são divididas militarmente. Elas vão da patrulha à tropa, ao grupo, à seção, à companhia, para terminar no batalhão e no regimento. Para todos os escalões, um chefe. E, para a propaganda, uma multidão de revistas, de programas de rádio, um serviço de cinema e até, nos primeiros meses da guerra, pequenos fi lmes sobre atualidades, sob o título de Jovem Europa.

As estatísticas, por mais ofi cialistas que sejam, permitem entrever o valor operacional da instituição. De um total de 7,529 milhões de jovens entre 10 e 8 anos, no final do ano de 1933, 2,3 milhões haviam aderido à organização nazista, entre os quais 593 mil eram moças. Mas, a partir de 1938, praticamente todos integraram suas fileiras. Num total de 8,87 milhões de  jovens alemães, no início de 1939, 8,7 milhões fazem parte da Juventude Hitlerista, dos quais 3,426 milhões são moças.

Nesse mesmo ano de 1939, 7 milhões participaram de competições esportivas. O número de jovens da organização passou de 12 mil em 1932 a aproximadamente 800 mil. O aumento dos efetivos foi extraordinário, sobretudo, para as moças, a despeito da reticência de muitas famílias. No final de 1932, 25 mil membros apenas, dos quais 5 mil somente de 14 a 18 anos. O final de 1935, elas são 1.046.134, e 1.610.316 no ano seguinte. Quando dos primeiros combates de 1940, seu número ultrapassará 3,5 milhões de membros.

Essa arregimentação tem a ver com uma nova política escolar cujo princípio é exposto em 9 de maio de 1933 pelo ministro do Interior, Wilhelm Frick...

Lionel Richard é professor universitário e escreveu diversos livros sobre a Alemanha, incluindo Goebbels, portrait d’un manipulateur

Leia esta matéria, que é parte do dossiê Alemanha Hipnotizada, na íntegra na História Viva 126, à venda nas bancas ou aqui.



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