10.2.14

AOS QUE ADORMECIDOS, UM DIA DESPERTEM

Por Bráulio Wanderley

Novos ares de antigos sonhos inspiram e endossam ideais mais do que os carbonos entreguistas de quem prefere abraçar banqueiros, latifundiários e empreiteiras, pois, pior que ficar idoso é chegar à velhice com apenas 34 anos e não assumi-la que a atingiu, na verdade, aos 24. Não se preocupem é um recado direto ao PT mesmo.

Aliás, ser idoso é uma virtude, pois, prova vitalidade, experiência, acúmulo de saberes, já a velhice denota atraso, cansaço.

Não muito outrora, a festa de aniversário do Partido dos Trabalhadores era nos sindicatos e nas ruas do Brasil, hoje é centralizada em salões nobres, pra gente nem sempre tão nobre (nos valores éticos) com fitinhas/bótons "vips", segurança privada pra convidados vestidos a caráter, embora nem sempre tenham tanto caráter, por assim dizer.

Não se trata de saudosismo e sim de coerência.

Endosso que em outros tempos, não muito, muito distantes, a mesa seria representada pelos partidos da esquerda brasileira: PSB, PDT, PCdoB, PCB, PCR, CUT, UNE, MST, etc. Quem são os convidados hoje? "Os combativos companheiros do..." PMDB, PP, PTB, PR, PRB, PRTB, PSD, CNI, FIESP, Agronegócio... o direitismo de coligação somou-se aos programas de políticas compensatórias (como fim em si mesmo) e as privatizações. 

O Brasil enfrenta de modo tardio a crise ideológica que as esquerdas europeias passaram nos anos 90. Parte aderiu ao centrismo keynesiano, outra virou neoliberal mesmo e outra ficou pra atualizar programas, reafirmar princípios e resistir. Aqui, devemos isso ao PT (hegemônico na esquerda entre os anos 1980 aos atuais) e que em dois momentos adiou essa crise: 1. na eleição de Lula em 1989; 2. na "carta aos brasileiros" de 2002. Pode parecer ortodoxia, bobagem de um xiita, mas governo sem poder pautado na obra do grande capital + o consumismo a crédito "subsidiado" à exorbitância de juros pras camadas populares - elevação política e cidadã do povo = sociedade fadada ao fracasso = caos = barbárie.

Cabe aos sociais-liberais do PT e às esquerdas omissas uma profunda e séria reflexão pela elevada dívida social das posturas entreguistas com relação ao pão e circo FIFA/Olimpíadas, privatizações de estradas, aeroportos, portos e petróleo que, chegando ao seu final, pode pôr as forças progressistas a um fracionamento ainda maior, beirando a autofagia. Por outro lado, o seu término vai desenvolver a necessidade de recompor a nossa coerência sem falsos profetas nem líderes messiânicos. Retomar o programa popular e avançar nas pautas dos movimentos sociais organizados.

Não ponho a culpa na direita simplesmente porque isso seria redundante, ela cumpre um papel marcante de cooptação de personagens do campo ideológico oposto para se manter sobre as relações de poder do Estado.

E aí vem Marx que permanece tão atual a ponto de nenhum economista contemporâneo saber explicar como se iniciou a atual crise do capitalismo (EEUU, Europa e Japão). Há de se advertir que Karl Henrich Marx não era vidente, partia de uma análise histórica do capital para alertar sobre a necessidade dos seus agentes econômicos em recomporem suas forças por meio dessas crises cíclicas que vinham do distante século XII.

O Brasil está melhor hoje que em 2012, isso é fato, mas não podemos tomar governos tucanos como referenciais de "melhor". Eis a semelhança entre o possível e o atingível e a diferença entre o povo organizado (nas manifestações do século 20) e uma massa dispersa com pauta difusa (como vem ocorrendo desde junho do ano passado).

Alguém duvida que pouco tempo atrás a militância do PT não seria a vanguarda de toda essa juventude e os novos protagonistas sociais? Mas como hegemonizar uma militância tão heterogênea e dispersa sem um corpo dirigente formado pela intelectualidade orgânica das mais variadas origens? (para lembrar outro idoso Antônio Gramsci). Pois é, do mesmo modo que a apropriação do trabalho criou os excluídos, o PT criou os black blocs por meio de sua omissão aos movimentos de massas.

A forma autoritária e nada democrático-popular de Dilma Rousseff e seu staff dispersou a esquerda e arregimentou a direita ao seu redor por meio de instituições sazonais/oportunistas. Só não vê quem não quer, não obstante quem viver, verá.

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