27.1.14

DILMA, DE DAVOS PARA A CUBA DE RAÚL

DO VALOR ECONÔMICO

SERGIO LEO*
Como o mentor Luiz Inácio Lula da Silva, que inaugurou seu primeiro mandato dividindo-se entre o Fórum Econômico Mundial, em Davos, e o Fórum Social em Porto Alegre, a presidente Dilma Rousseff, em ano de eleições presidenciais, dá uma no cravo e outra na ferradura.
Voltando da Suíça, onde defendeu o Brasil como destino atrativo para os investidores da elite econômica global, ela pousa nesta semana em Cuba. Não são pequenos os interesses do Brasil no país caribenho, e está nas alturas a ambição do regime de Raúl Castro na busca por legitimidade regional. Nessa viagem, a política brasileira para os Estados Unidos também está em jogo.
Começando pelos negócios, que buscam aproveitar-se do esforço do regime castrista para abrir-se de maneira controlada ao investimento estrangeiro. Dilma espera que a revisão das leis sobre investimento em Cuba, a ser concluída ainda neste ano, possa abrir ao investimento de estrangeiros o bem-sucedido setor farmacêutico, onde hoje é necessário aceitar sociedade e controle do governo local para investir no país.
A crescente cooperação entre Cuba e Brasil no setor farmacêutico e médico justifica a presença, na comitiva, do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e de seu iminente sucessor, Arthur Chioro. A estrela da viagem é o porto de Mariel, investimento de quase US$ 950 milhões, dos quais o BNDES financiou mais de US$ 680 milhões, para as obras a cargo da brasileira Odebrecht.
No contrato, a garantia de pagamento é a receita futura do porto e um dos temas quentes da visita é o pedido do governo cubano para mais financiamento brasileiro, desta vez destinado à Zona Especial de Desenvolvimento, o polo industrial a ser criado no entorno do porto, que ambiciona ser o maior do Caribe. Nessa zona, Cuba planeja investimentos em biotecnologia e medicamentos.
Há torcida, no governo, para que na viagem seja anunciada, finalmente, a instalação do fabricante brasileiro de vidros Finavid, divulgada há anos. A fabricante de cigarros Brascuba, associação entre a Souza Cruz e o governo cubano, há anos no país, também mira a zona especial, onde a Odebrecht deve anunciar uma fábrica de plásticos durante a visita. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) chegou a fazer, em novembro, um seminário para divulgar as oportunidades de investimento na economia cubana.
Os desembolsos totais do BNDES à ilha somam pouco mais de US$ 700 milhões, desde 1998, e incluem, além do porto de Mariel, obras na Autopista Nacional, a maior rodovia de Cuba, além do apoio a exportações brasileiras de máquinas para as culturas de arroz e cana-de-açúcar e para modernização da indústria farmacêutica. Desde 2003, o Proex, um dos principais instrumentos oficiais de apoio à exportação, desembolsou mais de US$ 1 bilhão para os negócios com a ilha, onde o porto de Mariel, a ser administrado pelo operador do porto de Cingapura, tornou-se grande cliente da indústria brasileira.
O Brasil não chega a ser destino relevante de exportação para os cubanos, que vendem quase metade de suas mercadorias à China e ao Canadá. O grande investimento em educação, em Cuba, ao contrário do Brasil, gerou uma mão de obra cuja qualificação impressiona empresas brasileiras na ilha. A burocracia e a restrições estatais não chegam a assustar os brasileiros, mas ainda são obstáculo ao investimento.
"A situação em Cuba faz lembrar a de países da antiga Cortina de Ferro, como a Polônia", comenta o diretor de relações internacionais da Fiesp, Thomás Zanotto. "Tem uma população educada, um bom sistema de saúde; com a liberalização da economia, tem condições de se tornar uma das economias mais importantes da região."
Com a criação da zona industrial, com regras de zona franca, no estilo chinês, voltada à alta tecnologia, há expectativa, inclusive do governo cubano, de aumento nos investimentos para produção voltada ao mercado latino-americano e canadense. A União Europeia discute a retirada de restrições ao comércio com Cuba, onde a China investe pesadamente.
A maior esperança é mesmo a abertura do mercado americano, hoje responsável por um embargo econômico difícil de justificar (não é coincidência o fato de que o vizinho Canada seja o segundo maior comprador de bens cubanos, a começar pelos charutos proibidos nos Estados Unidos).
A reunião da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), uma espécie de Organização dos Estados Americanos sem os Estados Unidos e os canadenses, será mais um evento a incluir, em sua declaração final, uma condenação ao embargo. A presença, na reunião, do próprio secretário-geral da OEA, José Miguel Inzulza, e do secretário-geral das Nações Unidas, Ban-Ki-moon, dá peso político aos cubanos e reforça o recado ao governo Barack Obama.
No processo de aproximação com Cuba, a Odebrecht sofreu ameaças, no Congresso americano, de parlamentares ligados à comunidade cubana exilada, que tentaram até vetar as obras bilionárias da empresa no porto de Miami. Isso torna os negócios com Cuba assunto delicado no Itamaraty. O governo americano atuou para evitar a retaliação, que não interessava a nenhum dos países envolvidos.
Dilma deve dosar seus discursos em Cuba para evitar maiores atritos com os EUA, cujas relações com o Brasil foram abaladas pelo escândalo da espionagem americana. Uma das prioridades da diplomacia dilmista é a recomposição dos laços afrouxados com os Estados Unidos, mercado importante em recuperação. Já haverá atritos por causa da disputa sobre subsídios ao algodão, mantidos irregularmente pelos EUA e sujeitos a retaliação, em breve, por parte do Brasil.
Em Brasília, ninguém quer que o amor com os cubanos seja mais um item da lista de ressentimentos que marcam as relações entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca.
*Sergio Leo é jornalista e especialista em relações internacionais pela UnB. Escreve às segundas-feiras.

Nenhum comentário: