5.10.13

GETÚLIO SOB TORMENTA


Há cinco anos, Lira Neto dedica 12h por dia à vida de Vargas. Para ele, o “pai dos pobres” acreditava na ditadura como melhor modelo para o país

CPDOC/FGV
por Flávia Ribeiro

Lira Neto é antes de tudo um repórter. Porém, conquistou o direito a se debruçar sobre um único tema – na verdade, um tema que abre as portas para vários outros, como comprova Getúlio (1930-1945): do governo provisório à ditadura do Estado Novo, que o jornalista cearense acaba de lançar pela Companhia das Letras. Da Revolução de 1930, passando pelo movimento constitucionalista, desaguando na Aliança Liberal por um lado e pelo integralismo no extremo oposto e chegando ao queremismo, tudo é investigado nas páginas do livro. O grande esforço autoral foi articular o imenso caudal de informações sobre um tempo decisivo da história brasileira à vida pessoal de Vargas, com seus problemas políticos e angústias pessoais, como a paixão por Aimée. O autor, que já biografou o Padre Cícero e Maysa, só lamenta ter criado um problema para si mesmo: e depois de Getúlio?

(...)

Getúlio se apoiou nos militares, flertou com integralistas, se autodenominou protetor da classe trabalhadora, namorou o fascismo, fechou com os Aliados e mudou de amigos e inimigos a todo momento. Em que ele acreditava?

Pelo que posso compreender depois de tanto tempo de convivência com o que ele escrevia, acho que estamos diante de um homem que se achava predestinado. Tinha a firme convicção de que estava fazendo o melhor. Era ditador, mas foi criado acreditando na ditadura como o melhor modelo. Em 1930, quando ele assumiu, os Estados Unidos estavam vivendo a Grande Depressão, e o que parecia mais moderno era o modelo com um líder forte. Getúlio é fruto de um momento histórico em que o modelo era o totalitarismo. Ele se ampara em dois chefes militares germanófi los: Eurico Gaspar Dutra e Góes Monteiro. E em mais uma contradição deliciosa, são os dois que derrubam Getúlio em 45 em nome da redemocratização do país – num contexto de época de derrota do nazifascismo. Ele até tenta articular uma abertura, mas é atropelado pelos dois.

O legado da era Vargas ainda está presente no Brasil de hoje, quase 60 anos após a sua morte? Em quê?

O legado ainda é evidente. Getúlio, à custa da democracia e das liberdades de expressão e de imprensa, modernizou o sistema de trabalho. Não por concessão aos trabalhadores, mas por demanda histórica. Ele teve a sensibilidade política de canalizar essas demandas a seu favor. Em 1943, ele moderniza as relações de trabalho em um país que mal saíra do escravismo. Hoje, 70 anos depois da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), pode-se discutir o quanto essas leis precisam ser mudadas. Até que ponto é necessário virar a página, como disse Fernando Henrique Cardoso. Mas não se pode discutir a importância que essas leis tiveram para o trabalhador naquele momento e nos anos seguintes.

Depois desses anos de pesquisa, quem foi Getúlio Vargas, para você?

Não diria que minha visão mudou; evoluiu. Minha compreensão do personagem, hoje, é mais refinada. É natural, quando você trabalha em uma biografia, chegar com uma série de preconceitos. No caso do Getúlio, comecei a compreender melhor suas motivações e contradições, tentando pensar nele de uma forma menos passional e dicotômica do que vemos em grande parte da bibliografia sobre ele. Normalmente, ele é retratado como santo, ou procura-se uma desconstrução. Procurei entendê-lo de forma equilibrada e, na medida do possível, isenta.

Foi essa forma dicotômica que o levou a querer escrever a biografia de um dos brasileiros mais biografados de todos os tempos?

Sim, porque, ao mesmo tempo em que ele é provavelmente o personagem sobre quem mais se escreveu no Brasil, não havia ainda uma biografia nesses termos, exaustiva e sem as tintas da passionalidade. Para louvá-lo ou desconstruí-lo, há um monte. Um bom termômetro são os dois textinhos da contracapa do livro, assinados pelos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Os dois dizendo que o livro é relevante, sendo que os dois têm opiniões absolutamente contrárias sobre Getúlio. Outros são a (socióloga) Maria Celina D’Araújo e o (historiador) Boris Fausto, duas referências quando o tema é Getúlio e a era Vargas, e que escreveram na orelha do livro. O que põe por terra aquela discussão bizantina sobre a tensão entre historiadores e jornalistas que escrevem sobre história, já que os livros foram referendados por dois grandes acadêmicos.

Leia a íntegra dessa entrevista na História Viva 119

Nenhum comentário: