25.6.13

BIOGRAFIA DE DIRCEU FOGE DO ROMANTISMO

Por Marcelo Coelho em 18/06/2013 na edição 751
 Dirceu – A biografia, de Otávio Cabral, 336 pp., Editora Record; R$ 39,90 e R$ 27 (versão digital) # reproduzido da Folha de S.Paulo, 15/6/2013

Otávio Cabral é um dos editores da revista “Veja”. Natural que não se espere imparcialidade de sua biografia do ex-ministro José Dirceu, recém-lançada pela editora Record. Seria o mesmo que pedir equilíbrio de uma biografia de Osama bin Laden feita por Condoleezza Rice.
Nisso está a maior surpresa de “Dirceu – A Biografia”. Trata-se de um relato limpo, nada opinativo, e quase sem traços de “vejês”.
Neutro sem ser apático, e pormenorizado sem perder o ritmo, “Dirceu” é um livro que se lê com prazer e interesse.
Não poderia ser mais instrutivo o contraste de suas páginas com o que diz a própria revista “Veja”, ao resenhar a publicação.
Num breve retrospecto da infância do biografado, Otávio Cabral conta que (a exemplo de muitos moleques do interior) José Dirceu se divertia amarrando bombinhas no rabo de gatos. Informação suficiente para que “Veja” qualifique o ex-ministro como “contumaz torturador” de animais domésticos.
Mais pesada é a acusação, que consta do livro, segundo a qual nos tempos do movimento estudantil José Dirceu sequestrou e maltratou um militante de direita, matriculado no Mackenzie. Para isso, Otávio Cabral cita, sem relativizar, o relatório de um delegado do Dops, escrito no auge da ditadura.
Do livro não emerge, entretanto, a figura de um esquerdista violento e radical. Da prisão no congresso estudantil de Ibiúna, em 1968, aos anos de treinamento para guerrilha em Cuba, e da clandestinidade no Paraná ao triunfo e derrocada no governo Lula, prevalece em José Dirceu um senso agudo da realidade política, com tudo o que traz de implacável na luta contra os que estão no seu caminho –incluindo, conforme o momento, Aldo Rebelo e Antonio Palocci.
Há, sem dúvida, o lado conquistador do personagem –que não justifica, entretanto, as acusações de que tenha tratado mal as mulheres a quem abandonou.
Afinal, uma das peças importantes nas acusações contra Dirceu no mensalão foi a ajuda que teria dado a Ângela Saragoça, sua ex-mulher, por intermédio dos bancos ligados ao esquema.
Mais tumultuado e interessante é o jogo de gato e rato entre Lula e José Dirceu. Cabe a este o papel de estrategista mais lúcido (quando defendeu, por exemplo, que o PMDB ganhasse ministérios no primeiro governo Lula) contra a astúcia tática do ex-presidente.
Crise do mensalão
Boa parte do livro se dedica a narrar a crise do mensalão e –sem acusações especialmente graves– a vida de lobista levada por Dirceu após ter saído do governo.
Ainda nessa fase, não faltaram atritos com Lula. O ex-presidente “quer me proibir de ganhar dinheiro”, teria reclamado Dirceu a um confidente, Mário Rosa.
Este comenta: “Lula tem razão. Imagina você com dinheiro como ia mandar mais do que ele no PT.”
Dirceu responde a sério, segundo Otávio Cabral: “E eu lá preciso de dinheiro para mandar mais do que o Lula no PT?”
Não é uma figura simpática. Mesmo assim, “Dirceu” não retrata um vilão especialmente monstruoso; é a trajetória de um político duro, sem nenhum romantismo –nem sequer nos seus tempos de galã estudantil– e sem maiores horizontes exceto o exercício do poder.
*Marcelo Coelho é colunista da Folha de S.Paulo

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