5.5.13

SUA BÊNÇÃO MINHA AVÓ

Por Bráulio de Barros Wanderley


Os netos de Dona Nazete

Semana que antecede o mês de maio sempre me foi de muita expectativa, afinal, além de ver se aproximar o dia das mães, vinha à tiracolo o aniversário de uma Mãe em dose dupla, minha Avó Nazate.

Como moro em Petrolina, eu me programava em antecipar, desmarcar e remarcar aulas, comprar passagens, negociar a data da festa com meu Pai e meus Tios. Era muita moral pra um neto. Mesmo a quase 800 km do Recife, mantinha contatos frequentes com ela.

Vovó nunca gostou do nome Ana e seus avós, pais de criação, a apelidaram de Nazete. Assim foi durante nove décadas e dois anos.

Dona Nazete era uma Souza Leão formidável: temperamento forte, teimosa, altiva, bom coração e ácida quando necessário na hora de aconselhar ou dar esporro. Dona de um carinho fora do normal, de uma memória pouco comparável e extremamente lúcida. Adorava fazer palavras cruzadas e ler, dons que herdei dela e do meu Pai (noves fora que Vovó desarrumava o jornal e Painho tinha que por a culpa em mim, além da coladinha esporádica que ela dava nas respostas do Caderno C do Jornal do Commercio rsrs). Deu ao mundo sete filhos, dos quais vieram 18 netos, um destes, aqui escreve.

Durante anos, o aniversário de minha Avó era mais celebrado que qualquer outra data comemorativa, estive no rol daqueles que 'fechavam o bar', com muito orgulho, saia feliz (e bêbado), nunca perdi um aniversário dela nestes anos que usufruí sua existência com prazer e amor inenarráveis. Paradoxalmente, Vovó nunca bebeu, este era um legado pros Wanderley adeptos da boemia.

Ano passado paguei um mico discreto, um primo se aproximou e perguntou a idade de minha Avó. ainda sóbrio, respondi 'na lata': "94!", ao que minha Tia corrigiu: "92." e veio a pérola: "Só!?".

Foi o último aniversário dela, que não queria buffet ou restaurante, portanto, celebramos diuturnamente, como de praxe, no edifício do meus Tios Múcio e Ana, em Olinda.

Ontem senti uma tristeza enorme. A sobriedade me veio após muitos anos, não houve boemia, festa, nem motivos. A lágrima cambiou o sorriso e a solidão só não foi maior porque minha Keyla não deixou e como Companheira me deu vários abraços em nome da saudade.

Final de outubro do ano passado, Vovó deu uma 'premunição' a Telma, minha Tia e Madrinha de coração, ao sair da UTI, uma semana antes de morrer, ao afirmar que eu seria pai e estaria me casando. Foi "a piada do dia", ganhei muitos sorrisos esperançosos, mas meu ceticismo teimava em discordar. Eis que no dia seguinte à partida de Vovó (05 de novembro), sua 'profecia' me deu Keyla e, quem sabe, serei pai de um(a) bisneto(a) que infelizmente ela não vai conhecer.

É a síndrome da imortalidade humana. Somos egoístas, não queremos a partida de quem amamos. Os religiosos desejam a vida eterna e o paraíso, mas todos nós preferiríamos sua presença física e cotidiana aqui no mundo real.

Enfim, este é o primeiro 04 de maio de muitos outros, se a vida permitir, que passarei sem minha Avó, a quem carinhosamente pedia a bênção e me orgulhava que com o que ela me dizia: "é o único neto que me pede a bênção". Levava uns esporros "para ter juízo" e umas palmadas indolores agradabilíssimas, além dos melhores conselhos que um Neto poderia ter.

Sua bênção Minha Avó.

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