30.4.13

"PARTIDO DEVE TER UMA POSTURA DIRIGENTE"


Para Ivan Alex, da direção nacional da tendência petista Esquerda Popular Socialista (EPS), o programa estratégico do PT não se confunde com os limites do governo
Nilton Viana
Ivan Alex, da direção nacional da tendência petista Esquerda Popular Socialista (EPS), acredita que o governo e o próprio PT precisam saber que há uma diferença entre o partido e o governo. Segundo ele, o partido deve ter uma postura dirigente, sempre estar à frente. “Nosso programa estratégico não se confunde com os limites dos governos”, afirma. 
O integrante da EPS também acredita que o PT é o principal legado da luta de classes e da mobilização política da classe trabalhadora. Nesta entrevista, Ivan Alex fala sobre a crise mundial e seus impactos para a América Latina, avalia os dez anos de governos Lula/Dilma e aponta os principais desafios de seu partido. 
Brasil de Fato – O atual processo de crise mundial tem abalado várias economias. Como você avalia esse cenário? 
Ivan Alex – O cenário mundial revela mais uma ponta da crise do capitalismo. É uma crise crônica que a cada alternativa produzida pela burguesia gera mais desigualdade, mais miséria, causa fome e guerra. A característica desta é que atingiu economias consolidadas e demonstra que mesmo os modelos que prosperaram por um grande período agora desmoronam. O que tem de mais comum entre elas, é que fica claro que não há saída para a humanidade dentro do capitalismo. 
Por outro lado, as organizações e movimentos socialistas ainda se encontram na defensiva e não conseguem se colocar como alternativa de projeto e não estão sendo capazes de mobilizar as massas populares o suficiente para alterar a correlação de forças e mudar os rumos do processo em curso. A esquerda tem a responsabilidade de mostrar que esse outro mundo é possível e ter a capacidade de se colocar como essa alternativa de poder. 
Para isso, em primeiro lugar, é superar a inércia das massas populares, elevar o nível de consciência das classes trabalhadoras, potencializar as diversas manifestações que eclodem por questões concretas imediatas interagindo com elas e articulando- as com o projeto político socialista e, principalmente, obter as conquistas táticas capazes de reaproximar a teoria socialista com uma nova realidade que tenha como foco os melhores valores da humanidade. 
A América Latina poderá enfrentar turbulências em decorrência desse cenário mundial? 
No caso da América Latina vai prevalecer o impacto das opções que os seus países fizerem. Se a meta for continuar sendo a periferia do capitalismo central, as consequências dessa crise para a América Latina terão proporções desastrosas. A história recente tem indicado outros caminhos. Governos progressistas e populares têm se consolidado em diversos países. Não é fácil superar séculos de subserviência e dependência, mas se esses governos forem capazes de se unir e construírem uma relação mais sólida, a unidade latino-americana com fortes alianças políticas e econômicas, no mínimo estaremos blindados contra a possibilidade dos países centrais desaguarem essa crise sobre a América Latina. Mas não nos iludamos. 
A crise, essa crise aí posta não é isolada, nem pontual. O seu fundamento está no sistema capitalista e não há saídas pontuais nem específicas para ela. Daí a necessidade permanente e estratégica de enfrentar os impactos atuais da crise e articular esta luta com aquela outra de superação global do sistema. 

   
   
O integrante da Esquerda Popular Socialista (EPS) Ivan Alex.
Foto: Reprodução
A Venezuela acaba de eleger Nicolás Maduro como presidente. Como você vê o atual cenário da Venezuela? 
Vejo com uma expectativa positiva que o presidente Maduro consiga fazer avançar a revolução bolivariana e superar as dificuldades existentes. Hugo Chávez exerceu um papel importante para, com a revolução bolivariana, contribuir no deslocamento profundo de forças em curso em todo o continente. Agora a nossa expectativa é que o modelo bolivariano possa se aprofundar, se aperfeiçoar e contribuir na duríssima batalha que temos para o próximo período em todo o continente. 
Este processo é fundamental para acumular forças para libertar a América Latina da influência do neoliberalismo e do governo estadunidense. O PT deve dar apoio integral ao novo presidente venezuelano. 
No Brasil, o PT completou 10 anos governando o país. Que balanço você faz destes dez anos de governo? 
A nossa avaliação do governo é bastante positiva. Tiramos mais de 23 milhões de brasileiros da miséria extrema, propiciamos um fenomenal deslocamento de ascensão social em curto período histórico que promoveu mais de 43 milhões de brasileiros à inclusão econômica, mesmo que em padrões ainda moderados, mas, bastante significativos. Fizemos justiça no acesso à educação superior com as cotas e o ProUni, reconhecemos a juventude como protagonista, geramos milhões de empregos, ampliamos os investimentos em educação e saúde, fizemos muito e ainda faremos muito mais, porque muito ainda há para ser realizado.
Os governos Lula e Dilma significaram um ponto fora da curva no histórico de exclusão política, social e econômica da classe trabalhadora. E o governo Dilma segue este modelo, aprofundando as conquistas sociais e caminhamos, celeremente, para eliminar da pobreza extrema no Brasil. Mas a avaliação do governo não pode ser uma lista de feitos, também há várias questões a solucionar, ainda pendentes. E a principal delas é a necessidade do governo reconstituir a capacidade de se abrir para ouvir, com sinceridade, as críticas e demandas que são feitas pelos partidos e pelos movimentos sociais. Infelizmente, alguns integrantes do governo estão com os ouvidos bloqueados para os reclamos dos movimentos socais e perderam a capacidade de ouvir.
Ao seu ver, quais são as questões fundamentais em que este governo precisa agir?
A primeira é a questão da terra. É preciso a destinação de recursos suficientes para fazer desapropriações para a reforma agrária, para a gestão ambientalmente adequada dos territórios indígenas e dos quilombos. O governo tem sido bom para o agronegócio, razoável para os já pequenos proprietários ou possuidores do campo, mas, simplesmente tem ignorado a necessidade fazer um programa massivo de desapropriação de terras.
O segundo é a incorporação de uma agenda ofensiva e ostensiva de direitos humanos e liberdades civis. Isso é, para além de retirar da miséria é reconhecer direitos e elevar o nível de cidadania das pessoas. É preciso que o governo assuma uma pauta libertária quanto aos direitos reprodutivos das mulheres, no tocante à diversidade sexual, dos direitos das crianças e adolescentes e todo um conjunto de demandas que se fundamentam em uma “agenda pública de humanidades”.
A terceira é a questão ambiental. Não só pelo revés que os setores populares sofreram na aprovação do Código Florestal, mas, porque a pauta ambiental está sufocada por uma ofensiva do grande capital sem precedentes no Brasil. A quarta é a batalha pela democratização sobre a qual falo especificamente mais abaixo e em conjunto com ela a defesa da reforma política. E a quinta é a questão dos direitos trabalhistas. A liberdade sindical, o fim do fator previdenciário, a incorporação das Convenções das OIT, o reconhecimento da baixa remuneração dos servidores públicos em especial das áreas que promovem a inclusão social, ambiental e cultural.
Qual a sua avaliação sobre a mídia brasileira?
A grande mídia é concentrada em poder de poucas famílias e totalmente desvinculada dos interesses do povo brasileiro. Ela sempre teve força e poder de definir os rumos econômicos e políticos do país, sempre em contradição com os reais interesses da população. A eleição dos governos petistas e a adoção de políticas públicas que confrontam com os interesses das elites, sempre refletidos no posicionamento da grande mídia, provoca uma tensão que se agrava a cada momento.
Neste particular, a mídia brasileira é a mais antidemocrática do mundo. Nos últimos anos, a grande mídia assumiu claramente um papel de partido político, utilizando-se da concessão pública para tentar fazer prevalecer seus interesses e posições, em larga media opondo-se publicamente aos interesses populares.
O PT divulgou nota pública intitulada “Democratização da mídia é urgente e inadiável”. O presidente da legenda Rui Falcão disse que o governo está em dívida com a sociedade. Como você vê essa questão e por que o governo não paga essa dívida?
Neste ponto está mesmo. Qualquer proposta que se faz nesse sentido, os donos do oligopólio da comunicação no Brasil dizem que é censura. Mas o que queremos é exatamente democratizar. Não cabe se perguntar por que o governo não paga esta dívida. O importante é reconhecer que o governo, neste ponto, está em débito e deve pagar. E o pagamento é feito com iniciativa política, propostas claras.
Já passou da hora da apresentação de uma proposta concreta de regulamentação da mídia, da adoção de uma política clara com incentivo e apoio inclusive financeiro, de modo ostensivo, à mídia alternativa e aos blogs progressistas e com uma profunda revisão dos critérios de distribuição dos recursos da publicidade institucional do governo. Mas isso também é uma questão de pressão da sociedade.
Como é possível avançar nas mudanças estruturais? O PT ainda tem potencial e vontade política para enfrentar essa luta?
O PT é o principal legado da luta de classes e da mobilização política da classe trabalhadora dos últimos 33 anos no Brasil. É necessário fazer a defesa do legado partidário e dos dez anos de governo Lula/Dilma. 
Ao mesmo tempo, os erros e limites do partido e dos próprios governos precisam ser identificados para poder avançar. O governo e próprio PT precisam saber que há uma diferença entre o partido e o governo. O partido deve ter uma postura dirigente, sempre estar à frente, pois nosso programa estratégico não se confunde com os limites dos governos. Cabe ao PT, em um governo que é de coalizão e que tem setores das classes dominantes em seu interior, trabalhar para reverter a correlação de forças desfavorável.
Exatamente por isso que o Partido pode e deve apresentar posições avançadas, estimulando a luta social pelas reformas estruturais, incidindo sobre a correlação de forças. Essa é uma forma de contribuir para os avanços dos governos e acumular no sentido das transformações profundas, da realização do projeto democrático-popular tendo como objetivo estratégico o socialismo. E isso deve ser feito adotando uma postura autônoma frente aos governos que dirige. 
Que perspectivas estão colocadas no próximo Processo de Eleições Diretas (PED) do PT? 
O partido precisa voltar a priorizar a luta social. O nosso debate é a centralidade das reformas estruturais (reforma agrária, reforma urbana, reforma política, democratização dos meios de comunicação), o enfrentamento do conservadorismo, a defesa da laicidade do Estado e a afirmação dos direitos humanos, das mulheres, dos negros/as e da população LGBT. Defender o PT é defender os seus melhores valores, que deram sentido a sua origem. O quadro político indica que sofremos por nossos inimigos sejam pelos partidários, sejam pelos agentes públicos e privados empenhados em nossa difamação. 
Estamos submetidos a um grau de tensão pelos próprios aliados congressuais e de governo. Por isso esse PED precisa demonstrar a unidade partidária dentro da nossa diversidade. Acho que a candidatura de Rui Falcão à presidência do partido, apoiado pela Esquerda Popular Socialista (EPS), por correntes regionais e lideranças que não integram o campo majoritário, é representativa de uma frente política mais ampla, capaz de consolidar a unidade petista em um momento em que sofremos fortes ataques. 
Rui conduziu, corretamente, o DN nos momentos mais agudos da conjuntura recente e conseguiu de maneira mediada demarcar posições partidárias importantes, ressaltando a autonomia do PT perante o governo federal. Ele ajudou a por, na pauta do PT, a luta pela democratização das comunicações e pela reforma política, temas que consideramos inegociáveis na atual conjuntura. 
Ele firmou o compromisso conosco de fortalecer os vínculos do PT com movimentos sociais representativos, como o MST, o movimento LGBT, a Consulta Popular e outros com os quais mantemos relações de forte parceria, inclusive para debater as eleições de 2014. 
Ao mesmo tempo, estamos construindo uma chapa própria que traduza essa reaproximação do PT com os movimentos. Vários companheiros de todos os estados que, de alguma maneira, querem participar do esforço coletivo da defesa dos melhores valores partidários e serem representados na direção com este sentimento.
(Foto da capa: Roberto Stuckert Filho_PR)

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