30.4.13

AS RELAÇÕES BRASIL-VENEZUELA NO PÓS-CHÁVEZ


O desaparecimento de Chávez ocorreu num momento histórico das relações bilateriais: nunca Brasil e Venezuela estiveram tão próximos. O que ocorrerá agora na era Nicolás Maduro? Para uns, não haverá mais disputa entre o projeto brasileiro de integração sul-americana e o projeto chavista. Para outros, essa disputa nunca foi substancial e os dois países tem tudo para ampliar sua integração. Um debate sobre essas questões foi promovido nesta terça-feira (30) pelo Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, no Rio de Janeiro.


Os que acreditam nessa tese se sustentam no elevado grau de institucionalização das relações bilaterais. O novo presidente Nicolás Maduro tem a sua disposição a Unasul e o Mercosul, projetos na área de energia, escritórios locais de Ipea, Embrapa e Caixa, além de um intercâmbio comercial que saltou de US$ 800 milhões para R$ 6 bilhões em uma década – 80%, é preciso reconhecer, em benefício do Brasil.

Mas para que as relações Brasil-Venezuela progridam ainda mais, é necessário compromisso nessa direção. Segundo Pedro Silva Barros, que comanda a missão do Ipea em Caracas, a presidente Dilma firmou pé, desde seu discurso de posse, em reforçar o projeto de integração sul-americana impulsionado por Lula. 

Nas discussões entre os dois países, relata Barros, está presente a questão da assimetria comercial. Uma das soluções negociadas é reforçar a indústria de fertilizantes venezuelana, ligada à do petróleo – um setor em que o Brasil é carente e teria interesse em ampliar importações.

O representante do Ipea foi um dos participantes do seminário ‘A Venezuela pós-Chavez’, promovido pelo Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento nesta terça-feira (30). O evento aconteceu no Rio de Janeiro, na sede do BNDES, que é parceiro do centro.

Em linha com Barros, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães defendeu leituras “não personalistas da história”. Ele brincou que Chávez não recebia apoio popular “por ser bonito”, mas, sim, “por representar e articular um grande grupo de interesse” presente na sociedade venezuelana. 

Guimarães, que esteve em Caracas acompanhando o último pleito presidencial, lembrou que o chavismo venceu no ano passado “23 governadorias”, e quase ganhou no Estado de Miranda, hoje sob comando do oposicionista Capriles.

O embaixador apontou, porém, que Maduro, agora presidente eleito, tem o desafio de manter as pontes com esse grupo de interesse chavista, o que significa reforçar os projetos populares lançados pelo mandatário falecido. “Maduro não pode ouvir o canto da sereia, não pode ir para o centro, porque aí se complica”, afirmou.

Há um outro aspecto das relações bilaterais que foi detalhada pelo cientista político Javier Vadell, da PUC-MG, ao longo do seminário. Estudioso do tema, ele disse que boa parte da literatura acadêmica sobre o chavismo no Brasil – e também a mídia brasileira – aponta o projeto de Chávez para a América do Sul como rival do projeto de Lula. Assim, com a morte do venezuelano, o caminho ficaria livre para o Brasil.

Entretanto, Vadell não se integra a essa corrente. Para ele, Chávez nunca foi empecilho para os desejos brasileiros, uma vez que o “Brasil tinha um projeto de integração pouco comprometido, focado no vetor econômico, o que é provado inclusive pelo superávit que tem com os países sul-americanos”. Assim, ao menos do ponto de vista regional, o desaparecimento de Chávez pouco afetaria o poderio brasileiro.


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