21.7.12

FREIXO E A GERAÇÃO 90



Breno Góes*

A campanha do Marcelo Freixo vem ganhando uma adesão imensa de gente jovem, basta dar uma circulada nas redes sociais pra saber. As comunidades de apoio a ele têm, às vezes, um número de cinco algarismos indicando a quantidade de usuários, embora a minha preferida seja a dos “Nerds com Freixo”, que reúne só 500 seguidores.

Enquanto muita gente milita on-line, outros tantos vão às ruas panfletar e discutir os pontos do programa com os “panfletados”. Enfim, não estou aqui falando nada novo quando digo que a juventude, em peso, cada dia mais fecha com Freixo. Eu, com certeza, sou um desses, já que tenho 21 anos e sou coautor do jingle da campanha, junto com Gus Levy e Caetano Veloso, o que é uma dupla honra. A partir disso tudo, andei pensando no porquê dessa adesão dos jovens. Daí saiu este texto.
Não seria a primeira vez que a juventude se mobilizaria para votar num mesmo candidato. Temos a onda verde de quatro anos atrás para provar e, de qualquer forma, é mais ou menos esperado que uma parte significativa dos jovens vote mesmo no candidato da esquerda. “Todo mundo é incendiário aos 20 e bombeiro aos 40, etc.”, alguém já disse. Agora, no caso do Freixo, eu acho que a coisa é um pouco diferente.
Ele não cativa só por ser, disparado, aquele com a fala mais “incendiária”, no bom sentido, ou por defender bandeiras caras à juventude, como a descriminalização do funk, os direitos dos estudantes e a educação em geral. Não. A trajetória do Freixo é cheia de temas pesados, não tem nada de “bonitinha”. Ele é o primeiro a recusar a pecha de herói da Zona Sul e não quer ser uma onda verde ou de qualquer outra cor. Então, a pergunta segue. Por que eu mobilizei meus amigos para fazermos seu jingle? Por que eles aceitaram? Por que a juventude fecha com Freixo?

Gus Levy, meu parceiro no jingle, tem 22 anos. Eu, 21, assim como o Ilan, que nos ajudou muito em todo o processo. A Julinha, cineasta que documentou toda a gravação, tem 20. Isso quer dizer que nós nascemos, respectivamente, nos anos de 90, 91 e 92. Crescemos e fomos crianças nos anos 90. Ora, se você assistir a cinco vídeos de falas do Freixo, em pelo menos um vai encontrar uma análise dos anos 90.
Diz ele que foi nessa década que o neoliberalismo se sedimentou como modelo econômico hegemônico no Brasil, o que acarretou, além das privatizações, uma profunda despolitização da sociedade. Assim como as instituições públicas foram sucateadas e depois privatizadas, a importância do bem-estar comum foi desacreditada em prol da valorização do bem-estar individual. Beleza, então.
Acontece que nossos pais viram isso acontecer como um processo histórico e podem pesar os ganhos e perdas que tiveram durante o caminho. Já eu , Gus, Julinha e Ilan perdemos o bonde, nascemos atrasados. Pra gente, o Rio e o mundo são isso aí. O modelo neoliberal é a única realidade que nos foi apresentada até hoje. Não sei até onde posso falar por eles, mas... Ditadura militar? Ditadura do Proletariado? Estado do Bem-Estar Social? São coisas que eu sei que existem, mas, pra mim, moram nos livros de História junto com as capitanias hereditárias e o Código de Hamurabi. Real mesmo é a bicicleta laranja que circula pela cidade com anúncio daquele banco.
Olhando em volta pra gente da minha idade, acho que crescer nesse contexto nos deixou com um grande vácuo. Quando perdemos as instituições públicas, perdemos também o sentimento de pertencimento à cidade, sem ganhar nada em troca, e daí ficou o vazio. Em algum grau, fomos encorajados a privatizar nossa própria vida — acho que dá pra dizer isso. 

Então, quando eu e Gus escrevemos o verso “Eu só quero é ser feliz, não me diz que pra isso eu tenho que ficar em casa com medo”, não foi apenas uma homenagem àquele funk que todo mundo gosta. Foi uma reclamação sincera à geração à qual pertencem desde o Paes até os nossos pais.

Paes, pais, vocês nunca nos ensinaram que o Rio de Janeiro era nosso! Fomos ensinados em casa e na escola a ter medo, tanto da polícia quanto do bandido, essa denominação vaga que identifica desde o “avião” do tráfico até o deputado corrupto. Ninguém disse que a polícia e o bandido tinham medo da gente também... E exatamente essa é a questão do Freixo. O discurso e a pessoa dele mexeram com o vazio que os anos 90 me deixaram e isso me motivou a compor uma música que pudesse ser cantada pelas pessoas à medida que elas se lembrem de que a rua pertence a nós.

Todas as ruas, de todos os bairros e de todas as áreas da cidade. A música ecoa nos espaços vazios e ecoou nos vazios dentro do Gus, da Julinha e do Ilan, que aderiram e, hoje, são peças fundamentais nessa história. Ecoou no Caetano, que parece ter descoberto a fonte da eterna juventude e, aparentemente, é dono de um vazio impossível de encher. Talvez esteja ecoando nos dez mil e sei-lá-quantos que já escutaram nosso refrão no Youtube.
Essa é a minha opinião sobre as razões de os jovens fecharem com Freixo.

Enquanto nós fomos educados para sentir medo, ele parece desconhecer o sentido dessa palavra. Pra encerrar, digo que concordo com Marcelo Yuka (candidato a vice-prefeito na chapa com Freixo), quando ele diz que o que estamos querendo aqui não é uma revolução comunista.

Quando dizemos que a rua é nossa, não tem nada a ver com comunismo. Estamos querendo o mínimo. Pelo menos por enquanto. Sei que vai ter gente mais velha lendo este texto e dizendo que é babaquice de moleque da elite, mas sei que vai ter gente de vários estratos econômicos concordando. Não é chute, eu sei que tem, basta você ter 20, 21 ou 22 anos, que você vai entender o que eu estou falando.
*Músico, coautor do jingle da campanha de Marcelo Freixo, com Caetano Veloso e Gus Levy

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