23.4.12

UNIVASF, CURRICULUM E ENEM, UM DEBATE NECESSÁRIO


Por Bráulio Wanderley*

O debate é grande e salutar, portanto, vou desmembrar este artigo em partes, sendo esta a primeira.

Na última quinta-feira (19) ocorreu em Petrolina-PE uma audiência pública convocada pelas Comissões de Educação e de Negócios Municipais da Assembleia Legislativa de Pernambuco (ALEPE), presididas pelos deputados Teresa Leitão, aqui representada por Isabel Cristina e Odacy Amorim (todos do PT). Discursos e depoimentos acalorados que envolvem sonhos e perspectivas que se estenderam às altas horas da noite.

Venho levantar algumas reflexões: o problema do Vale do São Francisco, e ele não se resume a Petrolina nem ao curso de medicina, não está na contextualidade da avaliação do Enem, nem numa possível segunda fase, nem nos nossos alunos, nem nas instituições de ensino ou nos educadores. A gravidade se encontra na sua raiz, na ausência de uma federalização curricular que envolva, também, os debates regionais.

A educação do Vale tem que se equivaler à de Porto Alegre-RS, à de São Paulo-SP e aos outros centros de referência construindo gradativamente uma política de isonomia nos entes federativos. 

Isso é possível com 32 bilhões de verbas públicas para a Copa do Mundo? Um debate que envolve a liberação de bebidas devido ao lobby da FIFA/Budweiser num país que luta pela lei seca e faz vista grossa sobre a educação? Faço esse comparativo, pois, tivemos um contingenciamento (corte orçamentário) na ordem de R$ 2 bi para o exercício de 2012. Mas alguém levantou essa problemática?

Escolas, centros/institutos técnicos e Universidades com estruturas públicas deficientes, salários que honram um fome zero, piso salarial onde alguns governadores não cumprem alegando falta de verbas, mas pagam até 18 salários anuais a deputados estaduais, desestímulo de estudantes sem perspectivas, apenas 15% da juventude se encontra nas Universidades, segundo o IBGE. É necessário um movimento mais amplo, mais coeso e que envolva diversos segmentos da sociedade desorganizada, pois no Brasil, organizada mesmo é a máfia que domina as relações de poder e as cachoeiras de dinheiro que roubam em nome de um status quo.

Sempre afirmo que "pensar é muito perigoso e subversivo", pois transforma a realidade na medida que as pessoas viram grandes "operários em construção" (Vinícius de Moraes), se mobilizam coletivamente e aprendem a dizer "não".

Muito se falou em adotar a Covest para uma eventual segunda fase, mas creio que falta combinar com Juazeiro, com Senhor do Bonfim-BA e com São Raimundo Nonato-PI. Vamos levantar a hipótese desses campi quererem implementar suas próprias experiências regionais (UFBA ou UFPI), resolveríamos o problema? Ao contrário, desmembraríamos o movimento em guetos regionais, cada qual exigindo suas conveniências e pleitos, anulando a integração da ÚNICA Universidade Pública, literalmente Regional.

Destaco que é inadmissível que as Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores dos Estados e Municípios citados não convoquem às sociedades para iniciativas do gênero. Portanto, fica a sugestão para que o movimento debata e se dirija aos outros campi também.

Gostaria e me orgulharia em saber que as aulas nos campi fossem paralizadas para que uma caravana tomasse uma barquinha a Juazeiro, pegasse as estradas rumo a Bonfim e a São Raimundo para tratar da falta de restaurantes universitários, da inexistência de casas de estudantes que acolham pessoas da NOSSA REGIÃO. 

Como cidadão radicalmente democrático, repudio, mesmo no âmago das emoções, as claques de vaias, porém, não afirmo aqui o falso consenso das palmas ou o silêncio espúrio da omissão. As visões distintas sobre os rumos da Univasf são partes do enredo da nossa diversidade e merecem respeito.

Endosso que o problema não está apenas na prova, estaremos elitizando o acesso com a cobrança de mais uma taxa como "blindagem" e ressuscitando os institutos que ganharam oceanos de dinheiro sem fazer uma prestação de contas à sociedade.

Qual o custeio de um vestibular? Elaboração, correção, fiscais, prédios, etc. É nosso dinheiro a fundo perdido e que nunca ninguém prestou contas. Lembro-me quando as escolas da Região organizavam seus calendários em função de vestibulares em Campina Grande, João Pessoa, Salvador, Feira de Santana, Recife, etc. O oceano de dinheiro que se gastava para pagar as centenas de reais de cada taxa, viagens, alimentação, hospedagem, etc. Alguém estaria disposto a lutar pela volta dessa elitização? Será que os estudantes, para onde íamos antes do Enem, se mobilizaram tanto para "blindar" nossos atuais médicos, engenheiros, advogados, mestres e doutores daqui do Vale do São Francisco ou modificaram suas provas?

Para citar um exemplo, a segunda fase da Covest em medicina não possui as ciências humanas. Seria esse o "X" da questão?

Como Educador, nunca medi meu estudante pelo bom ou mau desempenho numa avaliação, sempre sugeri tranquilidade, um pouco mais de estudo e paciência, pois ao final, um bom trabalho sempre é reconhecido pelo mérito, mérito do Estudante.

Quem "veio de fora", como eu que estou aqui há dez anos, não poderia exercer a profissão? Muito embora eu seja ex-aluno FFPP/UPE na pós de geografia também!

Peço licença para citar ilustres professores e professoras que, ou não são nativos de Petrolina/Juazeiro, mas por ela foram acolhidos, ou são daqui mas tiveram que estudar em outros locais, principalmente no Recife e em Salvador e alguns até mesmo se especializarem fora do Brasil para poder sobreviver à luz do seu trabalho e encantar gerações: Aparecida Barros, Maria Antônia, Leila, Ana Karla Lopes, Genivaldo Nascimento, Vera Cézar, Vera Medeiros, Nilson Barbosa, Jackson Djales, Crisógomo Britto, Luciano Lima Costa, Ronaldo dos Santos, Vlader Nobre, Simone Ramos, Neide Azevedo, Zé Roberto, Marco Túllio, Adimar, Richard, Carlos Cley, Tonny Santos, Diego Nogueira, Lourival Júnior, Everaldo Libório, Diedson Alves, Ruby Alves, Binga, Nonato, Pedrão, Marcos Freire, Denise, Pedro Mirandiba, Ruy Nogueira, etc. Tarefa de casa: vamos completar a lista.

A Univasf é um patrimônio do povo do Vale, do povo nordestino e do Brasil, assinada como protocolo de intenção pelo presidente em exercício Marco Maciel e criada pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, por meio do ministro da educação Tarso Genro. Uma Universidade jovem, a serviço do nosso povo.

Falo como ex-estudante de História e ex-presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Formação de Professores de Nazaré da Mata (FFPNM-UPE). Morava no Recife e trabalhava em escolas/cursinhos em Jaboatão, Camaragibe, Olinda... tanto quanto outros mais de 400 estudantes da Região Metropolitana e mais de 2500 de outros 46 municípios pernambucanos e 2 da Paraíba.

Eu e muitos companheiros correspondemos à FFPNM, à UPE e ao povo da Zona da Mata Norte com nosso trabalho em 3 gestões democráticas e participativas à frente do DA, com nossas atividades pedagógicas na disciplina de prática de ensino 1 e 2, nos assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), hoje nos orgulhamos de que além do reconhecimento da carga horária nas disciplinas citadas, há o incentivo do PRONERA e do PROJOVEM RURAL, lidamos com a seriedade dos pilares de ensino, pesquisa e extensão, levando a Universidade à sociedade e, reflexivamente, trazendo-a por meio de suas expressões e representações culturais como o centenário maracatu de baque solto, ciranda, côco, capoeira e outras representações de artistas plásticos, cordelistas e repentistas na Semana Acadêmica de Arte e Cultura Popular (hoje assumida pela UPE como Semana da Integração), sediando o maior encontro de área DO BRASIL em 1998, com o curso de Biologia, estando à frente da Federação Nacional do Movimento Estudantil de História (FEMEH) entre 1998-2000, atuando na Executiva Nacional do Curso de Letras 1999-2001, incentivando os debates nos demais cursos e na Associação Nacional de pós-graduandos a partir de 1997.

Nazaré da Mata foi reconhecida como vanguarda nacional nos seus cursos e até hoje se notabiliza no meio acadêmico. Esse é o destino reservado à Univasf pela sua diversidade e pluralidade regional.

Assim como na Univasf, a maioria do corpo docente "era de fora", saía do Recife num ônibus da Faculdade todas as noites (por sinal, o mesmo ônibus fora concedido à Faculdade de Formação de Professores de Petrolina/UPE para a mesma finalidade), rodando mais de 60 desgastantes quilômetros para desenvolver uma nova perspectiva na educação.

Não pensem que é fácil, pois como estudantes e muitos acumulando as funções de trabalhadores, trabalhadoras, pais, mães, donos e donas de casa, também enfrentávamos o mesmo cotidiano. Saíamos do trabalho correndo para pegar o ônibus às 18h00, chegar na FFPNM às 19hs, "engolir a comida" (subsidiada pela cantina que o DA concedia), entrar na sala de aula e regressar à estrada às 22h00.

Afirma o senso comum que há duas alegrias: a primeira é entrar na Universidade, a segunda é sair dela.

Aos meus (ex e atuais) estudantes, vamos ao bom debate, com humildade, calma e sem ódio. Não desejo o falso proselitismo, pois, torço e luto muito por cada um de vocês, mas não esperem que eu creia que alguém iria trocar uma carreira no Sara Kubitschek, em Salvador, ou no Santa Joana, no Recife, ou no Sírio Libanês, em São Paulo, para ficar aqui na Ride, num posto de saúde na zona rural de Juazeiro ou de Petrolina para retribuir "o amor à Univasf e ao Sertão" no âmbito de uma sociedade capitalista. Poupemos o nosso povo desse sofismo, já há muitos maus políticos para ensaiar esse discurso, honrem nossa a Terra com muito estudo, dedicação, ética e trabalho.

Vocês tem meu apoio para todas as lutas democráticas que as gerações que nos antecederam deram suas vidas como fiança.


Ao bom debate.



Bráulio de Barros Wanderley*
Educador formado em História, pós-graduado em Geografia e Sociologia, atualmente é mestrando em Educação.

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