8.9.11

CORRUPÇÃO NAS PRIORIDADES

Por Cristóvam Buarque

O caso de Brasília é talvez o mais grave. Nos últimos 10 anos, somando os torcedores de todos os jogos oficiais do Campeonato da 1ª Divisão, totalizamos cerca de 80 mil torcedores. Depois da Copa será praticamente impossível reunir 70 mil pessoas em uma única partida de futebol.

O Distrito Federal gastará mais de R$ 1.000.000.000,00 (R$ 1 bilhão) até que o nosso estádio de futebol fique pronto para a Copa do Mundo de 2014. É obrigação de cada brasileiro torcer com toda a força da sua alma para que o Brasil seja campeão, não importa a sede da Copa. Esta será aqui, mas quem assistirá aos jogos no estádio terá que pagar muito caro.

Na última Copa, na África do Sul, os preços dos ingressos variaram entreR$ 381,00 e R$ 2.148,00. Poucos brasileiros poderão pagar tais valores. Mais grave, porém, é o gasto que o Brasil vai ter para que a Copa seja realizada aqui, podendo chegar a um custo total de R$ 64 bilhões, R$ 16 bilhões a mais do que as três últimas Copas.

Com este valor, seria possível construir milhares de casas populares; escolas técnicas da melhor qualidade; excelentes hospitais; e dotar o Brasil com milhares de quilômetros de estradas decentes. Tudo isto traria grandes vantagens permanentes para o Brasil. Muito mais permanentes do que os resultados nos estádios.

Se Brasília usasse melhor esse dinheiro, poderia se tornar uma das cidades mais respeitadas no exterior, pela qualidade das escolas, pelo número de quadras para o esporte popular que todos os fins de semana mobilizam milhares de pessoas.

E com aquele valor, R$ 1 bilhão, nós poderíamos construir 18 estádios do tipo Bezerrão para os jogos de final de semana; 625 ginásios cobertos; cerca de 100 escolas Parque, equipadas com quadras de esportes, piscinas e laboratórios em cada uma delas; cerca de 16 mil casas, chegando a quase zerar o déficit habitacional do DF; construir escolas de qualidade, com infra-estrutura e tecnologia moderna; 250 escolas de ensino fundamental ou 125 de ensino médio; ou oito hospitais bem equipados.

Brasília é respeitada como patrimônio cultural da humanidade. É respeitada também por ter criado o Bolsa-Escola e a faixa de pedestre. Gestos simples, sem grandes gastos e voltados para o nosso povo, não para a FIFA, a CBF e os turistas estrangeiros.

*Cristovam Buarque é Professor da UnB e Senador pelo PDT-DF

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