21.8.11

SOBRE O PRAZER DE LER

Por José Fernandes

HÁ SOMENTE DOIS MOTIVOS que nos levam a praticar a leitura. Um deles é a utilidade, o outro é o prazer.

Para entendermos corretamente o que é o verdadeiro prazer de ler, basta-nos comparar o ato da leitura com o ato sexual. São também dois os motivos que nos levam a praticar sexo e são eles, inclusive, os mesmos dois motivos pelos quais lemos. Toda vez que fazemos sexo, ou será porque vai-nos ser útil (geração de filhos), ou será por puro prazer (nada de filhos, só diversão).

Há quem faça sexo exclusivamente para a reprodução de filhos. Do mesmo modo, há quem leia exclusivamente se a leitura tiver alguma utilidade. Quando a leitura ou o sexo são feitos nessas condições, isto é, nas condições de que exista, necessariamente, algum fim utilitário, o prazer poderá existir, ou não, pois está claro que não é ele o motivo da ação que se pratica. Fica rebaixado a um elemento de segundo plano.

Desse modo, mesmo que não haja prazer na leitura, o indivíduo que lê com o propósito de instruir-se, e sendo ele responsável com o que faz, persistirá lendo ou, no mínimo, esforçar-se-á por fazê-lo, já que o seu objetivo não é o prazer da leitura, mas o aprendizado que, por meio dela, se pretende extrair. Nesse caso, não será o prazer da leitura o que leva o indivíduo a ler, será, sim, o prazer que ele nutre pela natureza da instrução de que trata a obra.

Assim, engenheiros gostarão de livros de engenharia, médicos gostarão de livros de medicina, cozinheiros gostarão de livros de culinária, filósofos gostarão de livros de filosofia, religiosos gostarão de livros de religião e assim por diante. Conheço pessoas que declaram abertamente não gostar de ler, mas dizem que adoram ler a Bíblia e a leem sempre. Essas pessoas encontram um verdadeiro prazer em aprender aquilo que a Bíblia lhes ensina, mas, não, no ato de ler, como elas próprias confessam.

O verdadeiro prazer de ler é aquele que independe de qualquer efeito a posteriori. Não se relaciona com a leitura instrumental, aquela que serve para. O prazer não tem de servir para coisa alguma. Ele encerra-se em si mesmo e vale por si mesmo. É uma experiência subjetiva e fugaz. O prazer de ler é simplesmente a contemplação da beleza feita de palavras. Literatura é arte. Música é arte. Se você acaba de ouvir um recital de piano e fica tomado de emoção diante de tanta beleza, essa emoção não terá acontecido porque o recital lhe servirá para alguma coisa. Não! Essa terá sido uma experiência de puro prazer. Ontem mesmo ouvi Oswaldo Monte Negro recitar o poema Metade. Chorei. Apenas chorei. A beleza não requer explicações. Os prazeres da alma não podem ser expressos, apenas sentidos. É assim também com o prazer da leitura.

O verdadeiro prazer de ler vem da leitura literária, cujos livros são escritos para quem verdadeiramente gosta de ler, não para quem precisa aprender coisas ou buscar explicações sobre coisas. Shakespeare, Mário Quintana, Sidney Sheldon, Gabriel Garcia Marquez, Jorge Luiz Borges, Cecília Meireles e tantos outros não nos quiseram ensinar coisa alguma quando escreveram suas obras. São objetos para o nosso deleite. Lembro-me de um colega que me disse, certa vez, que não gostava de ler Sidney Sheldon porque as obras desse autor não possuiriam, segundo a opinião pessoal desse meu colega, um “engajamento filosófico”. Eu, quando leio Sidney Sheldon, ou qualquer outro autor literário, sequer penso que exista uma coisa chamada “engajamento filosófico”, nem me passa pela cabeça a ideia de qualquer outro tipo de engajamento. Quando leio literatura, não penso em nada, não quero saber de teorias literárias, pois não me permito profanar o altar dos prazeres.

Mas quem, na vida corrida e apertada de hoje em dia, terá tempo e paciência para gastar com o prazer? O homem da pós-modernidade cada vez mais desenvolve um modus operandi utilitarista. É um mecanismo de sobrevivência dentro do turbilhão da vida veloz e mutante, que exige do indivíduo estar sempre informado, sabendo de muitas coisas, coisas que daí a pouco tornam-se obsoletas e outras coisas mais atualizadas terão de ser aprendidas de novo e, assim, sucessivamente. Isso sem falar na literatura dita de "autoajuda", que, em resumo, é aquela que pretende ensinar às pessoas todos os "segredos" de como viver melhor, ser mais feliz, ganhar mais dinheiro, arranjar mais amigos, mais amores etc.

Nessa correria diária, a atitude de parar para ler um romance, um conto ou um poema parece, a muitos, ser uma bobagem, ou até mesmo uma falta de juízo, coisa de gente que não tem mais o que fazer, já que são leituras, como dizem, "só para passar o tempo", que não dão lucro algum nem ensinam nada. Servem só para dar prazer! Pessoas escravizadas a cada minuto, assoberbadas de tarefas, necessidades materiais e psicológicas de toda ordem, olham de minuto em minuto para o relógio e sentem que mal cabem dentro das 24 horas do dia. Mal conseguem levar consigo todas as suas ferramentas, como poderiam, ainda, levar brinquedos?

Sendo assim, não mais há espaço na agenda nem sossego no espírito que possam acolher com serenidade o verdadeiro prazer de ler. Se a vida e o mundo tornaram-se apressados e utilitaristas, muitas mentes assim vão-se moldando. Tudo o que não signifique algum tipo de ganho objetivo (material ou humano) tende a ser abandonado por esse homem que vive um dia após o outro sob a tensão de que não tem tempo a perder. Com relação à leitura, tentaram ainda uma última possibilidade de salvação, criando a famigerada técnica da leitura dinâmica, para, assim, se ler sem gastar tanto tempo.

Voltemos à metáfora do prazer do sexo, e veremos que ler mais rápido não tem nada a ver com prazer. É sim, bem o contrário. Assim como é no sexo, também o é na leitura: quanto mais se saboreia cada instante, sem pressa de acabar, mais saboroso fica. A leitura dinâmica não resolveu, pois, a questão do prazer. No fundo, foi mais uma ferramenta para atender à demanda neuroticamente utilitarista de se fazer mais em menos tempo.

Diz o bordão popular que a pressa é inimiga da perfeição. Eu, aqui, preciso dizer diferentemente: A pressa é inimiga do prazer. E o prazer da leitura, para ser verdadeiro, requer tempo, e esse tempo deve ser, necessariamente, um tempo “perdido”.

José Fernandes, publicado originalmente no site http://www.escritorjosefernandes.com, em 21 de agosto de 2011).

3 comentários:

José Fernandes disse...

Braulio. Obrigado por divulgar meu artigo aqui no seu blog. Um abraço.

BRAULIO WANDERLEY disse...

É com grande satisfação que compartilho esse belo artigo. O espaço está à disposição.

Um forte abraço.

Dora disse...

sou uma apaixonada pela leitura... vou publicar esse texto em meu blog também!!