23.7.11

SANTO DE CASA

A contemporaneidade pode ser cruel. E a proximidade com os contemporâneos, promíscua. Os malquerentes intelectuais e políticos (estes, sobretudo) de Gilberto Freyre diziam (por sarro) que ele era o segundo sociólogo de Apipucos, porque o primeiro era Bebinho Salgado. (Bebinho virara nome de uma associação que promovia festas populares e eventos folclóricos numa ex-olaria de sua propriedade em Apipucos.) Gilberto não passava recibo. Quer dizer, recibo explícito. Porque nas suas Crônicas do Cotidiano, publicadas no Diário de Pernambuco, não cansava de citar seus feitos, títulos, comendas e reconhecimentos internacionais. Nem precisava. Pois tinha a exata dimensão de sua grandeza, acentuada pela mediocridade da crítica provinciana. Mas, não resistia. Foi não foi, dava um chega pra lá na turma.

Lendo o artigo de Alfredo Cordiviola sobre o livro “Borges, uma vida”, de Edwin Williamson, publicado no último Suplemento Cultural da CEPE, foi-me inevitável comparar a vida de Jorge Luis Borges em Buenos Aires com a vida de Gilberto Freyre no Recife. A vida; não a obra. Óbvio.

Borges era seis meses mais velho que Gilberto. Um, de agosto de 1899; o outro, de fevereiro de 1900. Borges retornou da Espanha para Buenos Aires em 21. Gilberto, ao Recife em 24, depois de seis anos nos Estados Unidos e Europa. Jovens, gênios e promissores. Já nos anos 30, reconhecidos dentro e fora de suas paróquias.

Nos anos 40, foram politicamente corretos, dir-se-ia hoje. Gilberto, tachado de comunista, é preso pela ditadura de Vargas por denunciar atividades nazistas e racistas no Brasil. Borges, simpático ao comunismo na juventude e, depois, anarquista (“à moda de Spencer”, como se definia), perseguido pelo peronismo.

Ambos poderiam ter dado o fora. Viver onde quisessem. Era só escolher. Mas escolheram ficar. Borges lá e Gilberto cá. Poderiam escrever em outra língua, inglês ou francês (os dois, alfabetizados em inglês). Mas escreveram, sobretudo, nas suas próprias línguas, espanhol e português.

Além de conviver com as dificuldades políticas, Borges era tido pelos portenhos como hermético, barroco e “pouco argentino”, mais influenciado por suas leituras inglesas que pela realidade que o circundava, “e por suas posições políticas elitistas e conservadoras”, como observa Cordiviola. Aqui, como não se podia acusar Gilberto de “pouco brasileiro”, ao contrário, criticavam os seus excessos de brasilidade (e regionalismo, até). A fascinante (aí, o grande escritor) narrativa de Gilberto sobre a formação da sociedade patriarcal brasileira, agrária, escravocrata e híbrida em sua composição étnica e cultural, é distorcida nos méritos e desqualificada na forma. “Gilberto tenta justificar a escravidão e romantiza a dura realidade social”, diziam. Sua tese sobre miscigenação, que recusa a inferioridade racial do mestiço, estaria mais para estupro étnico do que para “democracia racial”. E o estilo inovador do escritor, incompatível com o rigor científico.

Com os golpes militares no Brasil e na Argentina, tanto Gilberto quanto Borges cortejaram os ditadores de plantão. Borges chegou a mudar-se para o Chile, talvez por preferir Pinochet a Videla. Prato cheio para os críticos locais. Enquanto cresciam como escritores no reconhecimento internacional, mais eram ignorados ou execrados pelos intelectuais conterrâneos.

Borges morreu em 86. Gilberto, em 87. Vidas incrivelmente paralelas. Dois grandes escritores. E como tal devem ser vistos e julgados; equívocos políticos à parte. Borges é, hoje, atração turística em Buenos Aires. Orgulho nacional. Os argentinos cultivam os seus mortos. Nós, não.

Crônica publicada originalmente no Jornal do Commercio em 23 de julho de 2011

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