10.3.11

CÍRCULO DE FOGO: O ANTI-COMUNISMO PÓS-GUERRA FRIA

POSTADO ORGINALMENTE NO SÍTIO DO PCB.


imagemCrédito: Blog do Dario

Por Sérgio Prieb

“O mundo sem guerras e sem armas é uma idéia utópica,
mas deve-se fazer de tudo para atingir esse ideal.
Será possível engendrar a paz sem armas? Duvido muito”.
(Mikhail Kalachnikov, inventor do fuzil AK-47)
“As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma
fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão
contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem”.
(Carlos Drummond de Andrade, Carta a Stalingrado)


A invasão da União Soviética pela Alemanha nazista

A invasão da Polônia no dia 1º de setembro de 1939 pelas tropas alemãs e a reação da Inglaterra e França em seu socorro deram início à Segunda Guerra Mundial. Mesmo com a declaração de guerra é importante lembrar que os EUA manteve neutralidade em relação ao conflito e mesmo com a declaração de guerra, Inglaterra e França não se empenharam em barrar o avanço das tropas alemãs no território polonês, o que se convencionou chamar de “guerra estranha”.

Na verdade, os países capitalistas, França, Inglaterra e EUA acreditavam que com a invasão quase sem resistência à Polônia, logo os nazistas chegariam à URSS2. No entanto, as coisas não ocorreram como o ocidente esperava, Hitler ao invés de partir para o confronto direto com o exército soviético, prefere atacar a França, Inglaterra, Dinamarca, Noruega, Bélgica e Holanda para só depois marchar contra a URSS, um inimigo bem mais poderoso3.

Seria somente em 22 de junho de 1941 que a Alemanha invadiria o território soviético descumprindo o “pacto de não agressão” assinado em 1939 entre os dois países4, estava deflagrada a “operação barbarossa” pelo exército nazista e os soviéticos entram definitivamente no que irão chamar de “Grande Guerra Pátria”. A vitória do Exército Vermelho em Moscou, quando os nazistas chegaram às portas da cidade mas foram barrados pelos soviéticos, deu mostras da intenção do povo da URSS em resistir até a morte à invasão nazista.

O avanço das tropas alemãs sobre a Europa ocidental e a posterior invasão da URSS, criou condições para que em 1942 fosse definitivamente construída a “coalizão anti-fascista” envolvendo a URSS, a Inglaterra e os EUA, que finalmente saia da neutralidade5.

De todas as ações de guerra, a considerada mais sangrenta foi a “Batalha de Stalingrado”, ocorrida entre julho de 1942 e fevereiro de 1943. A vitória soviética em Stalingrado, depois da cidade ter virado um amontoado de ruínas, representou a verdadeira virada dos aliados frente ao exército nazista. Foi somente a partir da vitória em Stalingrado que a Alemanha começou a perder a guerra e o mundo a livrar-se do domínio do nazi-fascismo.

A participação da União Soviética na Segunda Guerra Mundial vista no cinema

Mesmo com a decisiva participação da URSS na derrota do Eixo, não são muitos os filmes ocidentais que abordam a participação soviética na Segunda Guerra Mundial. Alguém desavisado, que acompanhasse a história apenas através dos filmes hollywoodianos certamente acreditaria que o maior conflito bélico do século XX teve como protagonistas tão somente os países do Eixo (Alemanha, Japão e Itália) contra os EUA e em menor medida, a Inglaterra. No entanto, a URSS foi o país que mais sofreu perdas tanto em termos materiais, com destruição total de cidades, aldeias e fábricas, bem como a mais atingida na quantidade de mutilados e de mortos. A última estimativa mostra que pelos menos 29 milhões de soviéticos morreram na Segunda Guerra Mundial.

Tem-se de recorrer aos próprios filmes soviéticos para encontrar referências cinematrográficas à participação da URSS no conflito, e nisto os cineastas soviéticos foram mestres como Grigori Chukrai (A balada do soldado, 1959, premiado com a Palma de Ouro em Cannes), Mikhail Kalatozov (Quando voam as cegonhas, 1957, premiado com a Palma de Ouro em Cannes), Sergei Bondarchuk (O destino de um homem, 1959), Andrei Tarkovski (A infância de Ivan, 1961, premiado com o Leão de Ouro em Veneza), Elem Klimov (Vá e veja, 1985, premiado com a Medalha de Ouro no Festival Internacional de Moscou), entre tantos outros.

Um aspecto que chama a atenção no cinema de guerra soviético é que, ao contrário da maioria dos filmes norte-americanos que tratam a guerra com ufanismo e heroísmo, em que seus soldados são verdadeiros exemplos de caráter e retidão e os horrores da guerra como fome, aldeias inteiras dizimadas, estupros etc. passam ao largo6, os filmes de guerra soviéticos buscam expor o lado mais sombrio da guerra. O motivo certamente se deve ao fato, além de ideológicos, que boa parte dos diretores soviéticos dos anos 50, 60, 70 e 80 vivenciaram a Segunda Guerra Mundial na própria pele, em seu próprio território, seja lutando ou sofrendo a experiência de inúmeras perdas materiais e afetivas que a guerra traz, coisa que nenhum diretor norte-americano viveu, pois desde a Guerra Civil Norte-Americana os EUA não presenciam uma guerra em seu próprio território.

Os filmes soviéticos em geral eram de difícil acesso a poucos anos atrás, somente com o fim da URSS é que são reeditados e mesmo assim, as locadoras de filmes não tem mostrado muito interesse em tê-los em seu acervo, exceção feita a um que outro filme de Eisenstein ou de Tarkovski, sendo que este somente depois de mudar-se para o ocidente teve uma melhor acolhida pela crítica mundial.

O anti-comunismo escancarado em “Círculo de fogo”

O filme “Círculo de fogo” (“Enemy at the gates”) de Jean-Jacques Annaud de 2001, uma produção conjunta entre Alemanha/EUA/Inglaterra, é dos poucos filmes ocidentais que tratam da participação da URSS na Segunda Guerra Mundal, mais especificamente da “Batalha de Stalingrado”. Logicamente, a história do filme busca personalizar o conflito entre a URSS e a Alemanha, centrando a atuação entre o duelo entre dois franco-atiradores, um soviético, Vassily Zaitsev (Jude Law) e um oficial nazista Erin König7 (Ed Harris). O resto do filme é um festival de pregação ideológica anti-comunista, anti-soviética e um romance folhetinesco8.

A maneira como os soldados do Exército Vermelho são retratados no filme é de grande inverdade histórica. Inicialmente os soldados soviéticos aparecem viajando de trem com destino à defesa de Stalingrado, certamente por sua enorme covardia tem de ser trancados nos vagões para não desertarem. Na verdade, é notório que tanto os oficias quanto os demais soldados dividiam os mesmos vagões e ninguém era trancafiado em trens.

Os soldados que na travessia do rio Volga jogam-se no rio para fugir da artilharia aérea alemã são executados pelos oficiais. No desembarque das tropas em Stalingrado, os oficiais gritam frases como: “em nome da União Soviética não dem um passo atrás ou atiraremos”, “os desertores serão mortos” ou “não há perdão para covardes”9.

Vendo o filme, é impossível concluir quem são mais cruéis e assassinos, os nazistas ou os próprios soviéticos. Os soldados do Exército Vermelho batem na população e ameaçam com a morte aqueles que tentarem sair de Stalingrado, quando na realidade o governo soviético praticamente esvaziou a cidade já em agosto de 1942. Se o tratamento dispensado pelos soldados soviéticos aos habitantes de Stalingrado tivessem sido verdadeiras, seria espantoso os civis não terem optado por se aliarem aos nazistas, o que como é sabido, não ocorreu.

Os soldados soviéticos aparecem como verdadeiros suicidas. Ao desembarcarem percebem que existe um rifle para cada dois soldados, os outros dois carregam apenas munição. Quando aquele que carrega o rifle morre, um deles recolhe a arma do morto e apenas aí passa a se defender e atacar, o que passa a idéia do total amadorismo e despreparo do exército soviético para enfrentar o bem armado exército nazista. A dúvida que fica é: como foi possível que os soviéticos derrotaram os nazistas não só em Stalingrado como vencerem a Segunda Guerra Mundial tendo meia arma para cada soldado10?

Quando Kruschev pergunta a um oficial (que em instantes terá de suicidar-se para evitar a burocracia de ser executado, como afirma Kruschev) sobre a derrota até aquele instante da resistência em barrar o avanço nazista o oficial argumenta: “os alemães tem artilharia, aviões, tanques, e o que eu tinha?”11.

Os oficiais soviéticos são personagens típicos de comédia: apalermados, com físico ou muito acima do peso, ou muito baixos em estatura, outros exageradamente magros. No entanto, todos tem uma coisa em comum: a covardia. Será que algum filme de guerra já retratou oficiais norte-americanos de maneira tão caricata como os oficiais soviéticos são apresentados?

O saco de maldades dos soviéticos não tem fim, Kruschev diante de seus oficiais enfileirados (um verdadeiro exército de Brancaleone) pergunta a um narigudo com cara de personagem de desenho animado se tinha alguma sugestão de como aumentar o moral da tropa que estava sendo aniquilada pelo exército alemão. Imediatamente o oficial do Exército Vermelho responde tremendo de medo: “atire em todos os outros generais que recuarem”, outro diz: “deportem as famílias dos traidores”. A reunião com os oficiais vira um verdadeiro festival de maldades, vencido por Kruschev que diz com a maior frieza e naturalidade: “não, isso tudo já foi feito”. O Comissário Danilov, um soldado que espantosamente não sabe atirar, é que tem a solução mágica: “dar esperança aos soldados”, “precisamos é de heróis”. Kruschev ficou em êxtase, finalmente encontrou a solução para vencer os nazistas.

Assim, a divulgação das façanhas de Zaitsev, alçado a condição de herói e exemplo por conta do serviço de “relações públicas” do Comissário Danilov foi a alternativa encontrada para que a resistência soviética começasse a combater efetivamente o inimigo. Parece que o exército soviético encontrou o seu “Rambo”, que sozinho é capaz de ganhar uma guerra. Simplificação grotesca e risível.

No momento em que Zaitsev é apresentado a Kruschev (ao som do Hino da URSS que ainda nem havia sido criado na época), todos pateticamente passam a olhar para um quadro de Stálin com uma expressão quase demoníaca. “Olhe para ele com orgulho, pois ele está olhando para você”, diz Kruschev para Zaitsev. É impossível não chorar de tanto rir.

Em outra cena, em que Zaitsev está respondendo às cartas de trabalhadores que as dezenas lhe escrevem, tem uma idéia de gênio: “não devemos dizer que não sou o único a lutar?”. O Comissário Danilov, alçado a condição de membro maior do exército, responsável pela propaganda dos feitos de Zaitsev, que tem a tarefa de pensar, já que como visto anteriormente nem atirar sabia, gostou da idéia, parece que até então ele não havia percebido que a guerra não girava apenas ao redor de seu herói.

Uma das cenas mais ideológicas ocorrem quando o soldado Koulikov, que usa dentadura metálica, conta sua história a Zaitsev. Teria sido mandado passar 16 meses na Alemanha para fazer um curso na escola de tiro dirigida por König/Thorvald, quando ainda estava em vigência o “pacto de não agressão”, ou como ele mesmo diz: “quando o nosso Josef e o Adolf deles andavam de mãos dadas”. Com a deflagração da guerra contra a Alemanha, já de volta à URSS é interrogado pela NKVD (a polícia política soviética) e torturado, queriam saber o que fazia na Alemanha. Parece inverossímel que para os agentes da NKVD o “pacto de não agressão” fosse novidade. A pregação anti-comunista chega ao auge quando Koulikov diz que, tendo sido acusado de suspeita de espionagem,teve todos os dentes quebrados por um martelo: “não foi uma foice, mas foi um martelo”. O saco de maldades dos comunistas soviéticos realmente parece não ter fim.

Os oficiais soviéticos parecem não ter nenhuma firmeza ideológica, muito pelo contrário, pouco antes de se deixar levar um tiro na cabeça pelo atirador alemão, Danilov despede-se da vida deixando a mensagem de que não adianta querer mudar a sociedade, ela sempre será desigual: “Eu fui tão idiota, Vassily. O homem sempre será homem. Não há um homem novo. Tentamos criar uma sociedade que fosse igual na qual não houvesse o que invejar do vizinho. Mas há sempre algo para dar inveja. Um sorriso, uma amizade, algo que você não tem e quer ter. Neste mundo, mesmo no soviético sempre haverá ricos e pobres, o rico em dons e o pobre em dons. O rico no amor, o pobre no amor”. Sua vida de comunista não teve sentido, resta a morte.

No término do filme, o diretor parece mostrar que nada funciona em uma sociedade socialista, a burocracia emperra as coisas mais elementares. Zaitsev chega no hospital e procura por Tânia, as senhoras, que representam a burocracia soviética, de muito má vontade dizem que não tem ninguém com aquele nome internada naquele hospital. É preciso que o próprio Zaitsev encontre a poucos metros de distância Tânia deitada na cama do hospital.

Não é por menos que vários veteranos de guerra criticaram o filme, a reação dos espectadores dos países da ex-URSS foi péssima, sendo que a própria família do verdadeiro Vassily Zaitsev conseguiu proibir por certo tempo a exibição do filme em cinemas da Rússia.

Esperamos que um dia a história da luta da Frente Oriental da Segunda Guerra Mundial, dos “Heróis de Stalingrado” e de todos os demais, soldados e civis que derramaram o seu generoso sangue para defender o mundo do nazi-fascismo ainda seja contada com a seriedade que merece.

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