21.11.10

ENTREVISTA DE VALTER POMAR À FISENGE

Valter Pomar - Foto de Cesar Ogata

Por Camila Marins, jornalista da Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge),

- Historicamente, qual a importância do Brasil eleger a primeira mulher presidente?

Históricamente, dependerá de como Dilma concluir o mandato, seja em termos de popularidade, seja em termos da eleição do sucessor, que eu espero que seja ela mesma, em 2014. Se ela terminar mal ou não conseguimos sua reeleição, o balanço histórico pode ser negativo, no sentido de reforçar preconceitos. Agora, politicamente é fantástico que tenhamos eleito uma mulher, em sequência a um peão. Espero que em 2018 consigamos inovar mais uma vez.


- Considerando o processo político de integração da América Latina, quais desdobramentos teremos com a eleição de Dilma?

Olhando em perspetiva: de 1998 até 2009, desde Chavez até Maurício Funes, a esquerda veio ampliando sua presença. A partir de 2009, há uma contraofensiva da direita: Panamá, Honduras, Chile, Colômbia. Mas esta contraofensiva não teve êxito no Uruguai, na Bolívia, no Equador, na Venezuela… e não teve êxito no Brasil. Trocando em miúdos, a correlação de forças latinoamericana se manteve, o que significa que se manteve favorável à centro-esquerda. O que permite acelerar o processo de integração.
- Como você avalia a cobertura “raivosa” da mídia nessas eleições?

Avalio que a grande mídia empresarial está cumprindo seu papel, qual seja, o de ser partido político de uma direita raivosa. O problema não está neles, está em nós, que somos muito lentos na contrução de uma mídia de massas contra-hegemônica. Além de tímidos no trato com os monopólios. Por exemplo: nosso ministro e nossa presidente não gostam do termo “controle social”. Buenas, o problema é que hoje temos um controle anti-social, empresarial, monopólico. Isto pode?

- Quais as expectativas para esse mandato? Como avançar ainda mais na relação com os países da América Latina e que postura o Brasil deverá adotar?

Neste mandato vai prosseguir a disputa com o neoliberalismo, que tem em Henrique Meirelles sua principal expressão. Aliás, é divertido vê-lo falando das medidas adotadas pelo governo para deter a enxurrada de dólares, esquecendo de falar que bastaria baixar a taxa de juros para melhorar a situação. Além da disputa com o neoliberalismo, vai se acentuar a disputa entre duas vias de desenvolvimento para o país: a sem distribuição de renda, riqueza e poder; e a com distribuição de tudo isto. Por fim, vai se agravar muito o cenário internacional, motivo pelo qual temos que acelerar o processo de integração, pois ele é nossa proteção contra o caos que vem de fora.

- Esta foi uma eleição histórica, haja vista a aprovação do projeto Ficha Limpa. No entanto, o país ainda enfrenta dificuldades em seu processo político. Como avançar rumo a uma verdadeira reforma política?

Só pondo o povo na rua para pressionar o Congresso. A maioria do Congresso não quer reforma política, pois se elegeu com estas regras do jogo. E enquanto houver financiamento privado de campanhas eleitorais, haverá compra de votos, corrupção, nepotismo e predomínio de endinheirados nos parlamentos. Deste ponto de vista, o Ficha Limpa não resolve nada, pelo contrário. Vai me dizer que este Congresso é 100% Ficha Limpa?

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