3.11.10

DESCER DO PALANQUE E DO PEDESTAL

Por Bráulio Wanderley

Acompanhando os noticiários a respeito da vitória da coligação liderada pelo Partido dos Trabalhadores, percebi um certo consolo de parte da mídia tradicional em relação à coligação derrotada, em especial, ao ex-candidato José Serra (PSDB).

Só faltou dar-lhe um cafuné, embora seja careca, seria um simbolismo de afeto, como quem diz: " Fica assim não Zé, um dia chega sua vez".

Uma emissora de canal pago, estava num clima de luto enquanto se fazia a apuração dos votos. Pasmem, buscava explicações para a derrota tucana frente à popularidade recorde de um presidente, a aprovação popular de um governo, a força de um Partido e a postura de continuidade representada pela candidatura Dilma.

Um papel até certo ponto ridículo, mas a imprensa é livre e assim deve continuar a ser. Seu papel fiscalizador, contudo, deve se pautar pela tomada explícita de um lado da política com a qual se identifique, e nesse requisito, palmas para o Estadão que declarou apoio a Serra em editorial.

Do mesmo modo, o Estadão deu um tiro no pé ao demitir uma colunista que criticou o ex-governador paulista. Quem perseguiu a imprensa e demitiu Heródoto Barbeiro da TV Cultura foi o mesmo governo tucano defendido por um consórcio de 4 famílias apoiador da candidatura Serra. Ou seja, Censura!

Essa, também, foi uma eleição pautada pelo preconceito de toda natureza: gênero, orientações sexuais e religiosas, além da essência autoritária do conservadorismo em querer invalidar a esquerda e sua plataforma popular.

Quem dividiu o país não foi a candidatura Dilma. Não foi a postura do PT e sua coligação induzir as pessoas ao voto por suas crenças ou preconceitos mascarados. O perfil laico do Estado foi tão desacatado que até o papa se intrometeu na eleição enquanto poderia cuidar dos vários problemas que a igreja enfrenta, alguns destes na vara criminal.

Mas enfim, gostei do discurso de conciliação da presidenta eleita. Aos vitoriosos não cabe a soberba, postura esta que paradoxalmente foi tomada pela oposição que sem humildade em reconhecer os louros da democracia, desdenharam em discursos raivosos, rancorosos e com teores golpistas a vitória de Dilma pelo voto popular.

Como questionar uma maioria congressual? Como questionar 17 governadores eleitos pela base governista? Como afirmar que 56% dos votos conquistados significa "uma vitória apertada"? Não se deve brincar com a verdade. A população demonstrou nas urnas que já passou o tempo de enganá-la com edições pseudo-jornalísticas, enquanto na verdade, se trata de ditaduras editoriais.

A oposição, óbvio, onde ganhou tem seus méritos. É preciso reconhecer que o debate democrático não se faz com base no falso consenso ou no proselitismo da "alternância de poder". Já escrevi em outras ocasiões sobre isso, enfatizando os governos paulista (PSDB) e acreano (PT) que vigorarão seus 20 anos em 2014 por aprovação popular.

O fato é que a vaidade de FHC, em lhe conceder a reeleição, rifou na oportunidade o próprio Serra, Mário Covas, o vice Marco Maciel e outras lideranças. A direita foi perdendo seus quadros, não soube fazer uma oposição, pois quando lhe coube este papel, ela implementou golpes e noutras ocasiões teve suas tentativas frustradas.

No que sobrou da direita, parte considerável foi adesista, na ausência de uma postura oposicionista outorgada nas urnas, através do vício do governismo iniciado na conversão do PSDB ao campo conservador e mantido, em parte significativa e equivocada, pelo PT em nome da "governabilidade institucional". Infelizmente, um trauma não solucionado na nossa República pela ausência de uma ampla reforma política que, ao meu ver, deveria ter uma relação constituinte.

No mais, os partidos devem descer dos palanques, reorganizar suas forças após séria e profunda análise de uma eleição onde os marqueteiros equivocados são responsáveis pelas desastrosas posturas de seus candidatos, onde imperou o caráter plebiscitário PT x PSDB em detrimento de um debate mais didático sobre o Brasil.

O presidente Lula, ou quem estivesse no cargo supremo da República, tem todo o direito de externar sua preferência, bem como, o campo conservador escondeu sua referência de governo para tal "plebiscito" e deve refletir se valeu a pena ocultar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e colocá-lo na vala da história, seria o troco sobre a já citada vaidade do Príncipe dos Sociólogos? Valeu a pena o PSDB se comportar como "continuidade experiente" de Lula?

Essa é uma reflexão que a oposição pode fazer. Ter cara própria, apresentar projetos durante os 4 anos que virão e não se limitar a demarcar um campo em poucos meses de campanha. Esse método se mostrou equivocado e nem a tentativa de criar um Serra paz e amor na capa da Veja suavizou e popularizou o candidato derrotado.

Com toda dificuldade de se comunicar ao eleitor comum, Dilma aos poucos foi pegando o prumo e dirigindo sua campanha. Atrapalhou-se com temas polêmicos como o aborto e sua crença religiosa, foi atrapalhada pela sucessora Erenice Guerra, mas construiu uma identidade mais própria no 2º turno, tendo maior desenvoltura e conduzindo a pauta desta parte do escrutínio, se sem se deixar abalar, publicamente, com uma queda inicial nas pesquisas de opinião.

A democracia brasileira segue andando. Do sociólogo pro operário e agora para uma mulher e ex-guerrilheira.

Parabéns Presidente Dilma! Uma vitória histórica que prova cotidianamente sua competência e que vai desenvolver maiores avanços socioeconômicos para o povo brasileiro.

Um comentário:

leom disse...

a noticia do momento é falar da xenofobia, o q vc achou do caso da estagiaria, q escreveu no micro blog palavras q prefiro nem escrever falando do nordeste.