18.1.17

BANCADA PROGRESSISTA DO PARLASUL MANIFESTA REPÚDIO À PRISÃO DE GUILHERME BOULOS EM SÃO PAULO


imagemLíder do MTST foi preso durante reintegração de posse realizada pela Polícia Militar de São Paulo; prisão de Boulos ‘viola claramente o direito à livre manifestação garantido na Carta Magna brasileira’, dizem parlamentares


Deputados do Parlasul (Parlamento do Mercosul) manifestaram nesta terça-feira (17/01) seu repúdio à prisão do ativista Guilherme Boulos, líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), durante uma operação de reintegração de posse realizada pela Polícia Militar de São Paulo nesta manhã.
“A prisão de Boulos, por suposta desobediência civil, é um sintoma do momento político e social que o Brasil e a região vivem com governos de direita que buscam criminalizar os movimentos sociais, e eliminar as liberdades e direitos sociais conquistados com muito esforço pelo povo nos últimos quinze anos”, escreveram parlamentares de Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela em declaração divulgada nesta tarde.

Boulos foi detido pela Polícia Militar durante ação de reintegração da Ocupação Colonial, na região de São Mateus, zona leste de São Paulo. A PM alegou desobediência para justificar a prisão e também citou a participação de Boulos em atos contra o governo Temer.
“Temos horas de filmagens suas de outras manifestações e ocupações e sabemos que você é liderança, você está detido por desacato, obstrução da via, obstrução da justiça e incitação de violência”, disse um integrante da Tropa de Choque, em fala colhida pelo coletivo Jornalistas Livres.

“Boulos lutava pelo direito à moradia digna e uma solução pacífica para a disputa que ainda estava em mãos do Poder Judiciário”, afirmaram os parlamentares. “A Polícia Militar de Geraldo Alckmin (PSDB) viola claramente o direito à livre manifestação garantido na Carta Magna brasileira.”

A bancada progressista do Parlasul destaca também que, “no Brasil, o golpe cometido contra a Presidenta legitimamente eleita vem implantando um Estado de Exceção que agride direitos civis e políticos, e intenta neutralizar, com violência e autoritarismo, a oposição ao retrocesso neoliberal.”

“Desde a Bancada Progressista no Parlasul, nos solidarizamos com a luta popular do MTST e de todos aqueles movimentos sociais do Mercosul que buscam evitar retrocessos nessa nova onda de governos neoliberais na região”, concluem.

Segundo o site Rede Brasil Atual, as cerca de 700 famílias da Ocupação Colonial queriam o adiamento da reintegração para que pudessem ser inscritas em programas de habitação da prefeitura. Uma ação do Ministério Público que também pedia o adiamento foi ignorada pela PM, antes mesmo de ser apreciada pela Justiça. O líder do MTST foi levado à 49ª DP para prestar depoimento.

Leia a seguir a íntegra da declaração dos parlamentares progressistas do Parlasul:

DECLARAÇÃO DO GRUPO PROGRESISTA DO PARLASUL CONTRA A PRISÃO DE GUILHERME BOULOS, LÍDER DO MTST

Montevidéu, 17 de janeiro de 2017
Os Parlamentares da Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela, integrantes do Grupo Progressista no Parlamento do MERCOSUL, repudiam a prisão arbitrária do companheiro Guilherme Boulos, membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) do Brasil.
Guilherme Boulos foi preso hoje (17/01/17) pela Polícia Militar de São Paulo, quando intermediava o diálogo e acompanhava a reintegração de posse da ocupação Colonial, buscando um resultado favorável às mais de 3 mil pessoas que ocupavam dois terrenos particulares e um terreno da Prefeitura de São Paulo. Boulos lutava pelo direito à moradia digna e uma solução pacífica para a disputa que ainda estava em mãos do Poder Judiciário.

A prisão de Boulos, por suposta desobediência civil, é um sintoma do momento político e social que o Brasil e a região vivem com governos de direita que buscam criminalizar os movimentos sociais, e eliminar as liberdades e direitos sociais conquistados com muito esforço pelo povo nos últimos quinze anos. A Polícia Militar de Geraldo Alckmin (PSDB) viola claramente o direito à livre manifestação garantida na Carta Magna brasileira.

No Brasil, o golpe cometido contra a Presidenta legitimamente eleita vem implantando um Estado de Exceção que agride direitos civis e políticos, e intenta neutralizar, com violência e autoritarismo, a oposição ao retrocesso neoliberal.

Desde a Bancada Progressista no Parlasul, nos solidarizamos com a luta popular do MTST e de todos aqueles movimentos sociais do MERCOSUL que buscam evitar retrocessos nessa nova onda de governos neoliberais na região.
#FORATEMER
Assinam: Parlamentares integrantes do Grupo Progressista do Parlamento do MERCOSUL (PARLASUL)

O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO SOVIÉTICO VERSUS O OCIDENTAL, POR NOAM CHOMSKY

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Noam Chomsky é reconhecidamente um anarquista, crítico tanto do capitalismo (e principalmente do imperialismo dos EUA) como dos modelos socialistas implementados a partir do século XX em diversas partes do mundo. No entanto, o intelectual estadunidense reconhece os grandes benefícios que o socialismo real levou aos povos do Leste Europeu e principalmente da União Soviética.


Em lembrança das conquistas da URSS, que desapareceu em 25 de dezembro de 1991, há exatos 25 anos, reproduzimos a resposta a uma pergunta sobre o suposto fracasso da experiência socialista soviética, em uma palestra realizada nos anos 90 nos EUA.

[…] O que você acha do sistema econômico soviético, ele funcionou ou fracassou? Bem, em uma cultura com traços profundamente totalitários, como a nossa, sempre se faz uma pergunta totalmente idiota a esse respeito: pergunta-se, como é a Rússia economicamente comparada com a Europa Ocidental ou com os Estados Unidos? E a resposta é que ela saiu-se muito mal. Mas uma criança de oito anos entenderia qual é o problema com essa pergunta: essas economias não têm nada semelhante há seiscentos anos – seria preciso retornar ao período pré-colombiano, pois só depois disso é que a Europa Oriental e a Ocidental tiveram alguma coisa mais ou menos semelhante economicamente. A Europa Oriental começou a virar uma espécie de área de serviço tipo Terceiro Mundo para a Europa Ocidental, antes mesmo do tempo de Colombo, fornecendo recursos e matérias-primas para as emergentes indústrias têxtil e metalúrgica do Ocidente. E a Rússia continuou um país de Terceiro Mundo muito pobre, durante séculos [4]. Isto é, havia uns poucos bolsões de desenvolvimento aqui e ali, e também um opulento setor de elites, escritores e assim por diante – mas isso é como em qualquer país do Terceiro Mundo: a literatura latino-americana é uma das mais férteis do mundo, por exemplo, mesmo com seus povos estando entre os mais pobres do mundo. E, se vocês olharem só o desenvolvimento econômico da União Soviética no século XX, ele é extremamente revelador. Por exemplo, a proporção entre os salários da Europa Oriental e os da Ocidental declinou até por volta de 1913, e então começou a subir muito rápido até em torno de 1950, quando mais ou menos se equilibraram. Então, em meados dos anos 1960, conforme a economia soviética foi começando a se estagnar, essa proporção iniciou um pequeno declínio, e então caiu um pouco mais até o final dos anos 1980. Depois de 1989, quando o Império Soviético finalmente foi para o espaço, ela entrou em queda livre – agora está de novo aproximadamente o que era em 1913 [5]. Tudo bem, isso lhes diz algo sobre se o modelo econômico soviético teve sucesso ou não.
Ora, suponham que fizéssemos uma pergunta racional, em vez de perguntar uma insanidade do tipo “como saiu-se a União Soviética, em comparação com a Europa Ocidental?”. Se quisermos avaliar modos alternativos de desenvolvimento econômico – gostem deles ou não –, o que devíamos perguntar é como se saíram sociedades que eram como a União Soviética em 1910, comparadas com ela em 1990? Bem, a História não fornece analogias precisas, mas existem boas escolhas. Então poderíamos comparar a Rússia e o Brasil, digamos, ou Bulgária e Guatemala – essas são comparações razoáveis. O Brasil, por exemplo, devia ser um país super-rico: tem recursos naturais inacreditáveis, não tem inimigos, não foi praticamente destruído por invasões só neste século [i.e., a União Soviética sofreu perdas imensas nas duas Guerras Mundiais e na intervenção ocidental de 1918 em sua Guerra Civil]. De fato, o Brasil está muito mais bem equipado para se desenvolver do que a União Soviética jamais esteve. Tudo bem, comparem só, o Brasil e a Rússia – essa é uma comparação razoável.

Bem, há um bom motivo pelo qual ninguém o faz, e só fazemos comparações idiotas – porque, se compararmos o Brasil e a Rússia ou a Guatemala e a Hungria, chegaríamos a respostas indesejáveis. O Brasil, por exemplo, para talvez 5% ou 10% de sua população, é mesmo como a Europa Ocidental – e para em torno de 80% de sua população é meio como a África Central. De fato, para provavelmente 80% da população brasileira, a Rússia soviética teria parecido um céu. Se um camponês guatemalteco de repente fosse parar na Bulgária, ele provavelmente acharia que tinha ido para o paraíso ou algo do gênero. Então, não façamos essas comparações, só fazemos comparações malucas, que qualquer um que pensasse por um segundo veria que são absurdas. E todo mundo aqui as faz, mesmo: todos os acadêmicos as fazem, os comentaristas do desenvolvimento as fazem, os comentaristas dos jornais as fazem. Mas pensem só por um segundo: se quiserem saber quanto sucesso teve o sistema econômico soviético, comparem a Rússia de 1990 com algum lugar que fosse como ela em 1910. Precisa ser brilhante para perceber?

De fato, o Banco Mundial forneceu sua própria análise do sucesso do modelo de desenvolvimento soviético. O Banco Mundial não é uma organização radical, como vocês com certeza têm consciência, mas em 1990 ele descreveu a Rússia e a China como “sociedades de relativo sucesso, que se desenvolveram libertando-se do mercado internacional”, embora tenham finalmente entrado em apuros e sendo obrigadas a voltar ao rebanho [6]. Mas “de relativo sucesso” – e, se comparadas com os países a que se assemelhavam antes de suas revoluções, de muito sucesso.

Na verdade, era exatamente isso que os EUA temiam na Guerra Fria, para início de conversa, caso queiram saber a verdade – que o desenvolvimento econômico soviético simplesmente parecesse bom demais para os países pobres do Terceiro Mundo, sendo assim um modelo que quisessem seguir. […] Então, se vocês lerem os arquivos do governo, agora liberados – dos quais há hoje muitos disponíveis –, verão que a principal preocupação dos maiores estrategistas ocidentais, já em plenos anos 1960, era que o exemplo do desenvolvimento soviético estava ameaçando desmontar todo o sistema mundial americano, porque a Rússia estava de fato indo tão bem. Por exemplo, sujeitos como John Foster Dulles [secretário de Estado norte-americano] e Harold Macmillan [primeiro-ministro britânico] estavam se borrando de medo com o sucesso desenvolvimentista da Rússia – e era um sucesso [8]. Isto é, notem que hoje em dia ninguém se refere à Rússia como um país “do Terceiro Mundo”, é chamada de país “de desenvolvimento deficiente” ou algo desse gênero – em outras palavras, ela realmente se desenvolveu, embora, em última análise, não tenha dado certo, e agora podemos ir em frente e começar a reintegrá-la de volta ao Terceiro Mundo tradicional.

[…] As chamadas “reformas econômicas” que andamos instituindo nos países do antigo bloco soviético foram uma absoluta catástrofe para a maior parte de suas populações – mas investidores ocidentais e uma elite clássica de super-ricos do Terceiro Mundo estão fazendo fortunas imensas, em parte pilhando boa parte da “ajuda” que é mandada para lá, de vários modos [9]. De fato, o UNICEF [Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância] divulgou um pequeno estudo, pouco tempo atrás, avaliando só o simples custo humano, como mortes, do que eles chamam de “reformas capitalistas” na Rússia, na Polônia e nos demais (e, aliás, eles aprovaram as reformas) – e, para a Rússia, calcularam que houve cerca de meio milhão de mortes extras em um ano, só como resultado dessas reformas. A Polônia é um país menor, portanto o número foi menor, mas os resultados foram proporcionais por toda a região. Na República Tcheca, a porcentagem da população vivendo na pobreza passou de 5,7% em 1989 para 18,2% em 1992; na Polônia, os números são algo como de 20% para 40%. Então, se vocês caminharem agora pelas ruas de Varsóvia, é claro, vão encontrar um monte de coisas muito legais nas vitrines das lojas – mas é o mesmo em qualquer país do Terceiro Mundo: um monte de riqueza, muito exiguamente concentrada; e pobreza, fome, morte e imensa desigualdade para a vasta maioria [10].

[…]
Então, o fato de que a Rússia safou-se da tradicional área de serviço ocidental terceiro-mundista e estava se desenvolvendo em um rumo independente era realmente uma das principais motivações por trás da Guerra Fria. Isto é, a conversa típica que sempre se escuta a respeito disso é de que estávamos nos apondo ao terror de Stalin – mas isso é uma total conversa fiada. Em primeiro lugar, não deveríamos poder sequer repetir essa conversa, sem um senso de auto-ironia, dados os nossos antecedentes. Nós nos opomos ao terror de mais alguém? Opomo-nos ao terror da Indonésia em Timor Leste? Opomo-nos ao terror na Guatemala e em El Salvador? Opomo-nos ao que fizemos no Vitnã do Sul? Não, nós apoiamos o terror o tempo todo – na verdade, nós o pomos no poder.

*Extraído do Capítulo 5 (“Dominando o Mundo”) do livro Para entender o poder – o melhor de Noam Chomsky, editado por Peter R. Mitchell e John Schoeffel (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005, pp. 194-198).

**As notas de rodapé sinalizadas no texto referem-se às notas originais do livro, que podem ser acessadas em: http://understandingpower.com/files/AllChaps.pdf entre as páginas 163 e 168 do arquivo em PDF.

16.1.17

O CAMINHO DA ESQUERDA

Por Marcelo Freixo
Marcelo Freixo | O caminho da esquerda
Crédito da foto: Fábio Motta/Estadão Conteúdo
*Artigo publicado originalmente na Carta Capital
Para pensarmos o significado de 2016 e o futuro da esquerda, sugiro começarmos pela reflexão sobre a relação sempre tensa no Brasil entre legalidade e legitimidade.
Recorramos ao golpe que levou ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff como primeiro exemplo. A todo tempo buscou-se dar um ar de legalidade a uma ação claramente ilegítima. Houve um rito, previsto pela legislação, que envolveu o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.
O cuidado com a forma foi o argumento para sustentar um golpe que, apesar da roupagem, peca em sua essência: não houve crime de responsabilidade cometido por Dilma.
A tensão entre legalidade e legitimidade não se restringiu à esfera política em 2016. O aprofundamento da crise de segurança no Rio de Janeiro, não desvinculada do colapso ético, político e econômico estadual e nacional, serve para compreender essa relação.
A grande e lamentável quantidade de policiais mortos constantemente legitima as ações ilegais, como execuções praticadas pelo Estado em áreas pobres na capital fluminense e em todas as grandes cidades brasileiras.
A ilegalidade da barbárie legitima-se sob os desejos de vingança que não se resumem ao policial que aperta o gatilho, mas dizem respeito a toda a sociedade. Nesse sentido, é pedagógico ver como os meios de comunicação sempre buscam confirmar repetidamente os antecedentes criminais de vítimas de execuções sumárias.
Foi o que ocorreu após a queda de um helicóptero da Polícia Militar na Avenida Ayrton Senna, em Jacarepaguá, zona oeste, durante uma operação das forças de segurança na Cidade de Deus. A morte lamentável de quatro policiais foi utilizada para justificar, ou ao menos tornar menos grave, o assassinato de sete cidadãos numa área de mata na comunidade.
Esse episódio impõe à esquerda, que se identifica e é identificada com a luta em defesa dos Direitos Humanos, uma série de reflexões.
Uma delas: como inverter a lógica que transforma uma ação ilegal e violenta em algo legítimo, inclusive para quem potencialmente pode ser vítima das mesmas violações? Esse é um debate de hegemonia.
Uma das conclusões, principalmente após as derrotas sofridas neste ano, é sobre a necessidade de se retomar e revalorizar o papel do trabalho de base em todas as esferas da militância política, partidária ou não.
Não podemos deixar para nos preocupar com isso em 2018. Não seria nem inteligente do ponto de vista da disputa política nem justo com aqueles que sofrem cotidianamente tantas injustiças na pele.
A esquerda, em consequência de sua história, aprendeu muito bem a resistir a cenários adversos. Esse esforço foi fundamental para a sua sobrevivência, mas deixou de ser suficiente.
O desafio não é somente resistir a um governo golpista e sua agenda de eliminação de direitos que provocará graves prejuízos aos trabalhadores. Precisamos saber reexistir, reinventar a nossa existência e dar um novo sentido ao nosso papel e às nossas práticas, principalmente em relação àqueles que pensam diferente de nós. Eis a importância do trabalho de base.
Um dos grandes equívocos de uma parte do PT foi, em meio à crise sobre a qual tem responsabilidade, não ter feito a autocrítica necessária. Em vez de reconhecer os erros e buscar o diálogo com a população de forma aberta e generosa, preferiu tratar seus críticos como uma coisa só, como se todos, sem exceção, não passassem de antipetistas raivosos e integrantes da elite recalcada.
O mesmo equívoco é repetido quando partidos, movimentos sociais e cidadãos identificados com a defesa dos Direitos Humanos abrem mão do diálogo, de ouvir os desconfiados e de ter disposição para explicar, de forma pedagógica, a importância de lutar pela dignidade humana.
A negação desse exercício é fundamental para entendermos o motivo de tantas vítimas de violações legitimarem ações e princípios que as oprimem, como ocorreu na Cidade de Deus.
Quando afirmo a centralidade do trabalho de base para uma nova política de esquerda, incluo a necessidade de reflexão sobre o que foi feito desde a eleição de Lula, em 2002.
Apesar de avanços na política de valorização do salário mínimo, na expansão e democratização do ensino superior e na retirada de milhões de brasileiros da extrema pobreza, a era petista foi marcada por um tripé de governabilidade que incluiu empreiteiras, partidos conservadores e fisiológicos e meios de comunicação.
Alguns podem estranhar o terceiro pilar, devido à campanha em favor do impeachment feita pelos principais veículos do País. Explico: o grande pacto bancado pelo governo com amplos setores econômicos, políticos e sociais impunha limites no projeto de transformação que o PT alimentou ao longo de sua história.
Um desses limites é revelado pela omissão do governo em nem sequer margear o debate sobre as ilegalidades do sistema de comunicação, com o objetivo de não desagradar aos grandes grupos de mídia.
Quando se fala em reforma dos meios de comunicação, não se trata de cercear a liberdade de expressão de quem discorda de qualquer governo, mas simplesmente de cumprir o que prevê a Constituição e contrariar interesses políticos e empresariais.
A situação da comunicação reflete como os consensos foram construídos no andar de cima. A forma como a governabilidade foi garantida pelos acordões provocou consequências nas relações com o andar de baixo. A lógica não foi de diálogo e de construção de consensos por meio do debate de ideias, mas de cooptação para um projeto definido.
Essa maneira de se relacionar com os movimentos sociais é central para entendermos o esvaziamento do trabalho de base, a despolitização moralizante e o avanço da direita nas pautas cujos sentidos a esquerda abriu mão de disputar. O esforço de ouvir mais do que falar, de reconhecer a importância de dialogar de forma generosa com quem pensa diferente, de tentar convencer sem colonizar, foi relegado.
Diante disso, a esquerda que resistiu e agora precisa reexistir (não me refiro somente aos partidos) precisa equilibrar novamente essa correlação de forças, ir além dos convertidos e reconhecer a urgência de ampliar o debate sobre Direitos Humanos.
Sim, Direitos Humanos. Não só na esfera tradicional da segurança pública, mas em suas relações com questões religiosas, de moradia, de acesso à saúde e educação públicas de qualidade, ao direito de ser ouvido e participar das decisões de interesse público.
As eleições municipais no Rio são um bom exemplo para pensarmos sobre os desafios presentes e futuros. A maioria esmagadora dos evangélicos, para além de quem frequenta a Igreja Universal, votou em Marcelo Crivella.
Em vez de criticar esses eleitores, como parte da esquerda costuma fazer, é necessário analisar por que não conseguimos dialogar com esse segmento, formado majoritariamente por uma população pobre, excluída e vítima de graves violações de Direitos Humanos.
A resposta não é fácil, mas comecemos por admitir que os erros são nossos, sejam eles fruto do preconceito, da arrogância ou da omissão. Se não fizermos essa autocrítica, teremos de aceitar que evangélicos votem sempre em candidatos de direita.
A esquerda precisa questionar-se sobre como construir consensos numa diversidade tão grande de movimentos fragmentados – movimento negro, de mulheres, de favela, LGBT. Como se aproximar e se unificar numa luta comum sem perder a identidade?
O caminho para responder a essa pergunta, creio, é encarar a agenda dos Direitos Humanos como o novo paradigma da luta de classes, compreendida na relação capital e trabalho, mas para além da porta da fábrica.
O que une todos esses movimentos citados anteriormente é que eles precisam incorporar algo que lhes é comum: uma concepção de classe social. Os brasileiros têm seus direitos ameaçados e violados enquanto mulheres, negros, homossexuais, mas também enquanto trabalhadores pobres.
O reconhecimento desse vínculo é etapa crucial para o desenvolvimento de uma agenda de transformação que dialogue e faça sentido para a realidade vivida pelos trabalhadores que, não necessariamente, estão engajados nos espaços de militância política e muitas vezes se identificam ideologicamente com a direita conservadora.
Só assim conseguiremos convencê-los de que as bandeiras dos Direitos Humanos não os ameaçam e de que podemos ajudá-los a melhorar suas vidas.
Nas eleições para prefeitura do Rio, fizemos um grande esforço para construir uma nova forma de fazer política, baseada no diálogo e no pertencimento. Nosso programa contou com a participação de mais de 5 mil colaboradores de todas as regiões da cidade. A campanha foi coletiva e financiada por mais de 14 mil doadores. Batemos recorde nacional ao arrecadar 1,8 milhão de reais pela internet.
Mesmo sem estrutura, conseguimos derrotar o PMDB e chegar ao segundo turno. Isso mostra a existência de caminhos para reexistir e transformar as práticas políticas no nosso País. Precisamos de mais.
Marcelo Freixo é Professor e deputado estadual (PSOL-RJ)

O DONO DA BOLA

imagemMário Lago
O dono da bola
Quando o Juca concordava,
a garotada tomava
conta da rua e armava
o campo de futebol.
Juca era o dono da bola,
Juca era o dono do jogo.
Fazia o que bem entendia
e quando alguém discutia
o Juca guardava a bola.
Ninguém brigava com o Juca,
Juca era o dono da bola.
Na hora de escolher o time,
era o Juca quem primeiro dizia
os meninos que queria
pro time dele.
Se o capitão do outro time discordava,
o jogo nem começava,
o Juca guardava a bola.
Ninguém brigava com o Juca,
Juca era o dono da bola.
A garotada corriade um lado para o outro.
Dribla daqui, chuta pra lá,
passa para ali, cabeceia prá cá…
Juca ficava sentadoo tempo todo. Mas, na hora
de fazer gol, se mexia.
Corria e gritava: “Passa que quem faz gol sou eu”.
E se o outro não passava
ou se chutava e marcavao gol que o Juca esperava,
o Juca guardava a bola.
Ninguém brigava com o Juca,
Juca era o dono da bola.
Todo gol que o outro time
fazia era anulado.
Ou tinha sido com a mão ou impedido. Anulado.
O Juca dava rasteira,
canelada, cabeçada,
aleijava a garotada
e o juiz não marcava nada.
O tranco mais delicado
dado no Juca era pênalti
E quando alguém discordava…
o Juca guardava a bola.
Ninguém brigava com o Juca,
Juca era o dono da bola.
Um dia, o Alfredinho achou
que aquilo era desaforo.
Driblou o primeiro, driblou o segundo,
driblou o terceiro, o quarto…
O Juca xingou a mãe dele.
Ele meteu a mão no Juca
(a garotada ficou espantada).
O Juca avançou pra ele,
ele tornou a dar no Juca
(a garotada ficou animada)
O Juca avançou outra vez.
ele então jogou o Juca no chão
(a garotada foi toda em cima do Juca)
Quando Alfredinho voltou pra casa
o pai estava se queixando
que o dinheiro que ganhava
não chegava
pra alugar outra casa
ao menos com mais um quarto
pra botar seus nove filhos;
para comprar mais comida,
feijão pra seus nove filhos;
para comprar umas roupas
pra vestir seus nove filhos;
– Papai, por que o dinheiroque você ganha não chega?
– É pouco.
– Por que é pouco?
– Porque o patrão paga pouco.
– Papai, por que vocês não pedem mais ao patrão?
– o patrão despede a gente,a gente fica sem pão.
– Por que o patrão despede?
– Porque ele é o dono das fábricas,porque ele é dono das máquinas.
– Papai, por que vocês não fazem com ele o mesmo que nós fizemos com o Juca?
– Quem é o Juca?
– Juca era o dono da bola.
– Que foi que vocês fizeram?
– Tomamos a bola dele
O Dono da Bola
Mário Lago


Zodja Pereira, filha de Hiram de Lima Pereira, declama um conto de Mário Lago e conta que era um dos preferidos de Hiram.
“O dono da bola”, do livro “O povo escreve a História nas paredes”, de Mário Lago.
http://www.hirampereira.com/o-dono-da-bola

UMA SAUDAÇÃO AOS BRAVOS QUE OUSARAM LUTAR: 46 ANOS DO VOO DA LIBERDADE

imagemAluizio Ferreira Palmar
Ao completar 46 anos do Voo da Liberdade, faço minha homenagem aos companheiros que arriscaram suas vidas para nos libertar dos centros de tortura da ditadura militar.
Minha eterna gratidão aos companheiros, Carlos Lamarca, Inês Etiienne, Ivan Motta Lima e Herbert Daniel (in memorian). Alex Polari, Tereza Ângelo, Zenaide Machado, Gerson Teodoro, Adair Gonçalves, José Carlos Mendes, Alfredo Sirkis e tantos outros heróis anônimos que deram cobertura à ação libertadora.
LEGENDA DA FOTO: Grupo dos setenta presos políticos resgatados dos centros de tortura. Na fileira dos agachados eu sou o sexto da esquerda para a direita (a menina que está me olhando é uma das filhas de Bruno e Geni Piolla.
Por ocasião dos 40 anos do Voo da Liberdade, meu velho amigo Umberto Trigueiros Lima escreveu esse texto antológico.
“Fazia um calor insuportável no Rio, naqueles dias de janeiro de 1971, 40º à sombra. Lembro que no dia 13, fomos levados para a Base Aérea do Galeão, espremidos em 2 ou 3 camburões pequenos, desde o quartel do Batalhão de Guardas, no bairro de São Cristóvão, onde estávamos recolhidos aguardando o desenlace das negociações do sequestro. Éramos: eu (Umberto), Antonio Rogério, Aluízio Palmar, Pedro Alves, Marcão, Ubiratan Vatutin, Irani Costa, Afonso, Afonso Celso Lana, Bretas, Julinho, Mara, Carmela, Dora e Conceição. Fazia sol a pino e os caras pararam os camburões em algum pátio descampado da Base e deixaram a gente lá torrando dentro daqueles verdadeiros fornos e de puro sadismo e sacanagem riam e gritavam uns para os outros, ‘…olha aí cara, os rapazes estão com calor, você esqueceu de ligar o ar, eles vão ficar suadinhos…’. Um outro dizia, ‘…deixa esses filhos da puta esturricarem aí dentro, pode ser que algum deles vá logo para o inferno…’. A viagem ao inferno não era possível, pois já estávamos nele, ou seja nos cárceres da ditadura, há algum tempo. A temperatura dentro dos carros era altíssima, mal conseguíamos respirar pelas poucas frestas de ventilação, os miolos pareciam que iam estourar. Foi um
horror!
Ficamos na Base durante todo o dia 13, onde já estavam muitos outros companheiros vindos de outras prisões e de outros estados e lá nos mantiveram o tempo todo algemados em duplas. Nos deram comida podre, tiraram mais impressões digitais, nos obrigaram a tirar fotos nus em diferentes posições. Alguns deles diziam que era para o futuro reconhecimento dos cadáveres… Perto da meia noite nos levaram para o embarque, nos agruparam do lado do avião, frente a um batalhão de fotógrafos postados há uns 50 metros de distância, atrás de uma corda. Éramos 70, mais as filhas do Bruno e da Geny Piola, as menininhas Tatiana, Kátia e Bruna. Os flashes espocavam e muitos de nós levantamos os punhos, outros fizeram o V da vitória, enquanto os caras da aeronáutica por trás davam socos nas costas de alguns companheiros. Nosso voo da liberdade para o Chile decolou aos 2 minutos de 14 de janeiro. Durante o voo, íamos algemados e os policiais da escolta nos provocavam. ‘…Olha aí malandro, se voltar vai virar presunto, nome de rua….’. A tripulação da Varig, mesmo discreta, foi simpática e afável conosco e quando chegamos a Santiago um comissário de bordo veio correndo me contar que havia uma faixa na sacada do aeroporto que dizia ‘Marighella Presente’.
Foram 2 longos dias, cheios de tensão, de expectativa, de esperança, todos os sentidos em atenção. Talvez, alguns dos mais longos dias das nossas vidas. Tenho a certeza de que nenhum de nós jamais se esquecerá daqueles momentos. Nas últimas horas da madrugada do dia 14 chegamos ao Chile. Depois de 38 dias de negociações muito difíceis, de risco extremo, mas com muita firmeza e equilíbrio por parte do Comandante Carlos Lamarca e dos companheiros da VPR que realizaram a operação de captura do embaixador suíço, aquela que seria a última grande ação armada da guerrilha urbana brasileira terminava vitoriosa. Começava um novo tempo nas nossas vidas.
Fomos descendo do avião, já sem algemas (os policiais brasileiros da escolta foram impedidos de desembarcar), nos abraçando emocionados, rindo, chorando, cantando a Internacional, acenando para os companheiros brasileiros e chilenos que faziam uma carinhosa manifestação para nos recepcionar.
Um general de Carabineros nos reuniu no saguão do aeroporto e fez uma preleção sobre tudo que estávamos proibidos de fazer no país. Logo em seguida, funcionários do governo da UP e companheiros dos vários partidos da coalizão nos disseram ali mesmo para não levar a sério nada do discurso do tal general. Era o Chile de Salvador Allende que íamos viver e conhecer tão intensamente.
Amanhecia o dia 14 de janeiro de 1971 quando saímos do aeroporto de Pudahuel em ônibus, escoltados por Carabineros. Amanhecia também aquele novo tempo das nossas vidas e amanhecia o Chile da Unidade Popular, da imensa liberdade, das grandes mobilizações populares, da luta de classes ao vivo e a cores saltando diante dos nossos olhos todos os dias. Pelas ruas de Santiago, a caminho do Parque Cousiño onde ficaríamos alojados, os operários que trabalhavam nas obras do Metrô acenavam para a gente, outros aplaudiam, alguns levantavam os punhos cerrados. Imagens que ficariam para sempre na memória, fotografias de um tempo.
Aquele dia parecia infindo, ninguém conseguia pregar um olho, foi um dia enorme, cheio de encontros, de descobertas, de luz. Estávamos bêbados de liberdade e ao mesmo tempo ainda marcados pela sombra da prisão, pelas tristes notícias de mais companheiros covardemente assassinados pelos cães da ditadura. Na nossa primeira refeição no Hogar Pedro Aguirre Cerda a maioria deixou os garfos e facas sobre a mesa e comeu de colher, como fazíamos na prisão. Quando íamos para os quartos de alojamento, alguns cometiam o ato falho de dizer ‘…vou para a cela…’. Na nossa primeira saída, um grupo se perdeu na cidade e voltou para o Hogar de carona num camburão dos Carabineros, motivo de gozação geral. Lembro da imensa solidariedade e carinho com que fomos recebidos pelos companheiros chilenos e também por estudantes, intelectuais, artistas, operários, pessoas do povo enfim que iam nos visitar, que fizeram coletas para nos arranjar algum dinheiro e roupas, que nos queriam levar para suas casas.
Nas semanas e meses seguintes, pouco a pouco fomos nos dispersando, construindo nossas opções de militância, de vida.
Viveríamos intensamente aquele processo chileno e também nossos vínculos com a luta no Brasil. Nos encharcaríamos com o aprendizado daquela magistral aula de história e de política ‘em carne viva’. Paixões, alegrias, nostalgias, saudade, amores, amizade, solidariedade, companheirismo, tudo junto, ao mesmo tempo.
Muitos de nós estivemos no Chile até o fim, vivendo e testemunhando os horrores do golpe de 11 de setembro de 1973. Em muitos casos, mais uma vez, escapando por pouco, por muito pouco.
Outros companheiros, por diferentes razões de militância e pessoais foram viver em outros países. Alguns trataram de organizar suas voltas clandestinas ao Brasil, na esperança de continuar a luta armada. Uns poucos conseguiram manter-se, mas infelizmente, nessa empreitada de luta, vários companheiros foram assassinados. Honro as suas memórias e me orgulho de termos compartido aqueles momentos tão significativos das nossas vidas.
Foi o tempo que nos tocou viver. Era um tempo de guerra, mas também de uma enorme esperança..
Na passagem dos 40 anos da nossa libertação, acho que deveríamos dedicar a memória desse encontro fraterno, em primeiro lugar aos companheiros do nosso grupo chacinados pelas ditaduras brasileira e chilena, como também aqueles que marcados por sequelas e feridas psicológicas insuportáveis não conseguiram continuar suas vidas: Daniel José de Carvalho, Edmur Péricles Camargo, João Batista Rita, Joel José de Carvalho, Wânio José de Matos, Tito de Alencar Lima, Maria Auxiliadora Lara Barcelos, Gustavo Buarque Schiller. Em segundo lugar, com saudade, a todos os companheiros daquela viagem para a liberdade de 14 de janeiro de 1971, que já nos deixaram. Com eterna gratidão e reconhecimento ao Comandante Carlos Lamarca e aos combatentes da VPR que realizaram aquela ação revolucionária audaz e vitoriosa. E também a todos os brasileiros da nossa geração (e aqui não falo em idade, que pode ter ido dos 12 aos 80) que não se acovardaram, que foram capazes de enfrentar aqueles duros e difíceis tempos, quando dizer não poderia significar a morte, ‘…quando falar em árvores era quase um crime…’.
Enfim, a todos os que OUSARAM LUTAR…!

21.12.16

UNIR A CLASSE TRABALHADORA CONTRA OS ATAQUES DO CAPITAL


As prioridades da Unidade Classista para 2017

O ano de 2016 tem sido difícil para a classe trabalhadora. O chamado “ajuste fiscal” iniciado por Dilma foi acelerado com a ascensão ilegítima de Temer à Presidência da República. Desde o início do processo de impeachment alertávamos que este era o verdadeiro objetivo da coalizão golpista que reuniu desde partidos até então integrantes da base aliada do PT até os tucanos.

Se alguém ainda acreditava que tal movimentação política visava à moralização do país, os escândalos de corrupção que estouram dia após dia, envolvendo membros do Governo Federal e o próprio Presidente, deixam claro o tamanho da ilusão. Enquanto isso, foi aprovada a PEC 55, determinando, como exigia a burguesia, o congelamento dos gastos públicos pelos próximos vinte anos. Ou seja, o pagamento de juros da “dívida pública” foi blindando, enquanto a garantia de direitos sociais previstos na Constituição, como saúde e educação, foi ainda mais ameaçada. Ao mesmo tempo, começou a ser discutida na Câmara a Contrarreforma da Previdência.

E o que tem feito as direções das maiores centrais sindicais do país frente a todos esses ataques do empresariado e seus representantes? Infelizmente, como esperávamos, a realidade tem mostrado que não podemos contar com elas. Isso não significa que, caso resolvam realizar lutas por nenhum direito a menos, não devamos marchar juntos, em unidade de ação. Significa que não podemos depender das direções da CUT, UGT, CTB, Força Sindical etc e devemos buscar contato direto com as bases.

Sem sombra de dúvida, o ano de 2017 será marcado por grandes desafios ao campo sindical classista e combativo. O empresariado está empenhado em impor um retrocesso que destrua nossas conquistas históricas e imponha à nossa classe a volta a patamares de direitos do início do século passado. Portanto, teremos muitas lutas pela frente e não devemos poupar esforços na defesa dos interesses dos trabalhadores!

Mas não basta disposição. Sem organização e firmeza na linha política não chegaremos longe. Cada militante da Unidade Classista precisa estar plenamente consciente de nossas tarefas diante da atual situação política, econômica e social do Brasil. Crescem as condições objetivas para que cada vez mais trabalhadores rejeitem a conciliação de classes, os pelegos e os burocratas no movimento sindical e popular.

Porém nada garante a adesão automática da classe a uma perspectiva revolucionária. A direita está ativa em campo, se apresentando como alternativa às massas. Logo, a responsabilidade dos militantes classistas nesta disputa torna-se ainda maior.

Precisamos compreender bem nossas prioridades:

Intensificar as ações de agitação e propaganda junto às categorias estratégicas e bairros operários (utilizando o jornal O Poder Popular, os textos nacionais da Unidade Classista, panfletos locais). Não adianta apenas distribuir materiais: é fundamental dialogar com os trabalhadores, ouvindo-os e explicando nossas avaliações e propostas, como a greve geral contra a Reforma da Previdência, por e

20.12.16

EMBAIXADOR RUSSO É ASSASSINADO NA TURQUIA

As lentes da BJC registraram, ao vivo, os disparos de um suposto policial turcocontra o embaixador Andrei Karlov, durante a exposição de fotos:
"A Rússia vista pelos turcos".

Segundo informações do Kremlin, Karlov morreu no hospital, o segurança infiltrado foi morto após ter disparado contra o embaixador.

O Presidente Vladimir Putin convocou reunião de emergência após ter sido informado sobre o fato.


https://youtu.be/oeXXWN5sWbc

MORREU MAX ALTMAN, COMBATENTE INTERNACIONALISTA

Morreu na noite da última segunda-feira (19), aos 79 anos, o jornalista Max Altman. Seu filho, Breno Altman, também jornalista, militante do Partido dos Trabahadores (PT) e diretor editorial do site Opera Mundi, publicou nota nas redes sociais, em que destaca:

"Faleceu um militante internacionalista de toda a vida. Um homem que dedicou sua existência à luta pelo socialismo, à revolução proletária e à solidariedade anti-imperialista.
Aos onze anos, filho de um revolucionário polonês de origem judaica, integrou-se ao Partido Comunista, com o qual romperia em 1984, para se juntar ao Partido dos Trabalhadores.
Advogado, editor e jornalista, forjou sua biografia com destemor. De rara cultura e hábitos simples, teve um só lado desde muito jovem: o do movimento de libertação dos trabalhadores.
Era um filho da revolução de outubro. Da resistência contra a ditadura à defesa dos governos petistas, sempre esteve nas primeiras fileiras de combate.
Não hesitou jamais na oposição aberta ao sionismo, na solidariedade incondicional com a revolução cubana e no apoio incansável aos governos progressistas da América Latina, particularmente à revolução venezuelana.
Nunca esqueceremos os valores que sempre nos ensinou e a todos que nos cercavam: a valentia, a lealdade, a coerência, a honestidade, a abnegação, o compromisso com o conhecimento e o trabalho, a dedicação ilimitada à luta dos povos.
Há um mês foi diagnosticado com tumor cerebral, do tipo mais agressivo, dez anos depois de ter se curado de uma leucemia.
Suas cinzas, conforme seu desejo expresso, serão jogadas sobre a mureta do Malecón, em Havana, capital da Cuba socialista”.
O editor de Resistência, José Reinaldo Carvalho, secretário de Política e Relações Internacionais do PCdoB, que compartilhou com Marx Altman muitas ações internacionalistas, afirmou que “o camarada Max foi um intelectual e militante comunista, um homem sóbrio, de rigorosa disciplina, fraterno e amigo”. José Reinaldo destaca o internacionalismo e o anti-imperialismo de Max Altman: “Ele atuou durante muitos anos nos movimentos de solidariedade aos povos, destacadamente como amigo da Revolução Cubana e da Revolução Bolivariana da Venezuela. Foi o coordenador do Comitê pela Libertação dos Cinco Heróis cubanos presos em 1998. Jornalista de talento, Max escreveu artigos sobre a conjuntura internacional, em que denunciava com vigor as forças oligárquicas e reacionárias. Sua palavra sempre foi uma inspiração e um alento a todos os que lutam pela emancipação nacional e social dos trabalhadores e dos povos”.
O dirigente comunista, sensibilizado com a morte do camarada e amigo, expressou suas condolências aos companheiros da Secretaria de Relações Internacionais do PT, de que Max era membro, e à família, enviando também um abraço solidário e de combate ao camarada Breno Altman, seu filho. “O Partido Comunista do Brasil inclina as suas bandeiras em homenagem ao querido Max”, finaliza José Reinaldo Carvalho.
Da redação de Resistência

O NOVO MAPA DA DESIGUALDADE BRASILEIRA

Os mais ricos pagam proporcionalmente menos impostos do que os mais pobres. (Agência Brasil)
Os mais ricos pagam proporcionalmente menos impostos do que os mais pobres. (Agência Brasil)
Sozinhas, 700 mil pessoas – 0,36% da população – têm patrimônio igual a 45% do PIB. E pagam, quase sempre, impostos mais baixos que os dos assalariados.

O Brasil tem um dos mais injustos sistemas tributários do mundo e uma das mais altas desigualdades socioeconômicas entre todos os países. Além disso, os mais ricos pagam proporcionalmente menos impostos do que os mais pobres, criando uma das maiores concentrações de renda e patrimônio do planeta. Essa relação direta entre tributação injusta e desigualdade e concentração de renda e patrimônio é investigada no estudo Perfil da Desigualdade e da Injustiça Tributária, produzido pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) com apoio da Oxfam Brasil, Christian Aid e Pão Para o Mundo. Tive o privilégio de conduzir a pesquisa e redigir sua versão final.
Foram considerados os quesitos de sexo, rendimentos em salário mínimo e unidades da Federação. O texto busca identificar o efeito concentrador de renda e riqueza, a partir das informações sobre os rendimentos e de bens e direitos informados à Receita Federal pelos declarantes de Imposto de Renda no período de 2008 a 2014.
Os dados da Receita Federal analisados para o estudo revelam uma casta de privilegiados no país, com elevados rendimentos e riquezas que não são tributados adequadamente e, muitas vezes, sequer sofrem qualquer incidência de Imposto de Renda (IR).
Por exemplo: do total de R$ 5,8 trilhões de patrimônio informados ao Fisco em 2013 (não se considera aqui a sonegação), 41,56% pertenciam a apenas 726.725 pessoas, com rendimentos acima de 40 salários mínimos. Isto é, 0,36% da população brasileira detém um patrimônio equivalente a 45,54% do total. Considera-se, ainda, que essa concentração de renda e patrimônio está praticamente em cinco estados da federação: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná, agravando ainda mais as desigualdades regionais do país.
Um sistema tributário injusto amplia — ao invés de amenizar — esta desigualdade. Um dos fatos mais graves é que a tributação sobre a renda no Brasil não alcança todos os rendimentos tributáveis de pessoas físicas. A legislação atual não submete à tabela progressiva do IR os rendimentos de capital e de outras rendas da economia. Elas são tributadas com alíquotas inferiores à do Imposto de Renda incidente sobre a renda do trabalho. Não existe Imposto de Renda Retido na Fonte sobre os lucros e dividendos.
Um dispositivo legal (mas excêntrico) — o dos “juros sobre capital próprio” — permite uma redução da base tributária do IR e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Esses rendimentos são tributados a 15% de forma exclusiva, não necessitando o beneficiário fazer qualquer ajuste na Declaração Anual do IR. A consequência chega a ser bizarra: os 71.440 declarantes hiper-ricos, que tinham renda acima de 160 salários-mínimos em 2013, praticamente não possuíam rendimentos tributáveis, pois 65,80% de sua renda tinha origem em rendimentos isentos e não tributáveis.
O estudo aponta ainda que os contribuintes com rendas acima de 40 salários mínimos representam apenas 2,74% dos declarantes de IR, mas se apropriaram de 30,37% do montante dos rendimentos informados à Receita Federal em 2013. Além disso, dos R$ 623,17 bilhões de rendimentos isentos de Imposto de Renda em 2013, R$ 287,29 bilhões eram de lucros e dividendos recebidos pelos acionistas. Se submetidos à alíquota máxima da atual tabela progressiva do Imposto de Renda (27,5%), esses recursos gerariam uma arrecadação tributária extra de R$ 79 bilhões ao Brasil.
As informações tornadas públicas pela Receita Federal, a partir da disponibilização da base de dados “Grandes Números das Declarações do Imposto de Renda das Pessoas Físicas”, contribuem para uma maior transparência sobre a questão tributária no país, que há tempo ocupa lugar na agenda pública das propostas de reformas. Os dados ampliaram um novo olhar sobre a desigualdade social no Brasil e reforçam ainda mais a injustiça tributária no país. Até mesmo o Imposto de Renda, que deveria ser o fiador de um sistema tributário mais justo, acaba contribuindo para maior concentração de renda e riqueza em nosso país.
Com isso, as propostas para a reforma tributária que diversas organizações da sociedade civil — inclusive o Inesc — já apresentaram na agenda pública brasileira estão na ordem do dia. É necessário revogar algumas das alterações realizadas na legislação tributária infraconstitucional após 1996, que sepultaram a isonomia tributária no Brasil, com o favorecimento da renda do capital em detrimento da renda do trabalho. Dentre essas mudanças destacam-se: 1) o fim da possibilidade de remunerar com juros o capital próprio das empresas, reduzindo-lhes o Imposto de Renda e a CSLL; e 2) o fim da isenção de IR à distribuição dos lucros e dividendos na remessa de lucros e dividendos ao exterior e nas aplicações financeiras de investidores estrangeiros no Brasil.
Outra medida fundamental seria a implementação do Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), previsto na Constituição e não regulamentado até hoje. É uma oportunidade para a prática da justiça tributária, por aplicar corretamente o princípio constitucional da capacidade contributiva, onerando o patrimônio dos mais ricos no país. Igualmente necessária é a introdução da progressividade no Imposto sobre a Transmissão Causa Mortis e Doação de quaisquer Bens ou Direitos (IT-CDM). Outras medidas importantes são a tributação maior para bens supérfluos e menor para produtos essenciais para a população.
Uma proposta de reforma tributária no Brasil deveria ser pautada pela retomada dos princípios de equidade, de progressividade e da capacidade contributiva no caminho da justiça fiscal e social, priorizando a redistribuição de renda. As tributações de renda e do patrimônio nunca ocuparam lugar de destaque na agenda nacional e nos projetos de reforma tributária após a Constituição de 1988. Assim, é mais do que oportuna a recuperação dos princípios constitucionais basilares da justiça fiscal (equidade, capacidade contributiva e progressividade). A tributação é um dos melhores instrumentos de erradicação da pobreza e da redução das desigualdades sociais, que constituem objetivos essenciais da República esculpidos na Constituição Federal de 1988. (Outras Palavras/Dom Total).
Por Evilásio Salvador