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27.11.16

GRACIAS, FIDEL!

Na ofensiva global contra o capitalismo, que busca se impor em todo o mundo como sistema único e final, no sombrio continente americano, surgiu Fidel, como a personalidade mais lúcida de nossa época no enfrentamento aos que tentam nos neocolonizar. 

Por Maria Leite* 

 

Uma fortaleza nas lutas, dotado de um otimismo e uma fé na humanidade incomparáveis, forte de caráter, um gladiador invicto, era impressionante vê-lo tão comovido diante das dores humanas, assim nas explosões semelhantes a um vulcão, com sua voz enérgica, na denúncia dos crimes do imperialismo. 

Nos dias difíceis de 1958, em Sierra Maestra Fidel prognosticou o que seria a sua vida, em carta escrita, a Celia Sánchez, sua abnegada companheira de lutas, num mínimo pedaço de papel. - “Ao ver los foguetes que atiraram en casa de Mario, jurei, a mim mesmo que os americanos irão pagar bem caro pelo que estão fazendo. Quando esta guerra acabar, começará para mim, uma guerra muito mais longa! A guerra que voy a echar contra eles. Me dou conta que esse será meu verdadeiro destino”. 

Fidel foi alguém capaz de desprender-se de tudo, transitória ou definitivamente; alguém a quem nenhum bem material interessou, alguém que renegou a covardia, que não suportou a indisciplina e a grosseria. Um Homem, como todos que cometeu erros, mas é um mestre na percepção da realidade concreta no sentido de reconhecer os erros e corrigi-los prontamente.

Sabia ademais colocar-se acima dos problemas e fazer valer o princípio de unidade entre os cubanos. 

Enfim, que ideias defendeu Fidel, o que o distingue de outras figuras de sua época? A lealdade aos princípios, a visão estratégica, a compreensão profunda dos males que assolam a humanidade: o sistema de opressão, de exploração e guerra aos povos com o fim de saqueá-los. 

Fidel desenvolveu ao longo dos anos a rebeldia. Com pulso firme, segurou a bandeira, manteve Cuba no caminho do socialismo e comandou a continuidade da Revolução, fundindo o pensamento marxista-leninista e o legado de Martí. 

Homem de cultura, professor e pedagogo por vocação, capaz de compreender cabalmente que sem educação não há possibilidade alguma de se lograr um sistema social justo e sustentável. 

No início dos anos 1990, a contrarrevolução alastrava-se pelo mundo. Quando foram arriadas as bandeiras da União Soviética, colocando um ponto à história do chamado Campo Socialista, surgiu a “teoria” das circunstâncias. Segundo esta, a diligência soviética havia atuado como num tabuleiro; tocou-se a primeira peça e, em cadeia, todas as demais iriam caindo. Dentro dessa lógica, Cuba também deveria cair. 

Em meio ao alarido, Fidel advertiu: “Não se esqueçam de que essa ficha, da qual vocês falam, está demasiado distante no geográfico e no histórico”. 

Os discursos de Fidel Castro inauguraram em Cuba um modo original de relação de um líder com seu povo. Sua palavra, comprometida de forma indissolúvel com a ação, desprovida de retórica banal, ensinou aos cubanos a crer e levantar suas ideias, massacradas por décadas de politicagem durante república mediatizada. 

Nas palavras proferidas em Cienfuegos na festa de 26 de julho de 1999: “Não há país com mais moral, nem mais capaz de defender suas verdades. Não há país mais transparente na sua conduta para enfrentar todas as tramoias e prepotências. Nada das propostas mencionadas contra Cuba nos mete medo, nem o mínimo. Não temos receio nem da notícia de que um meteoro vem direto à Terra. Há muito tempo o nosso povo aprendeu a não ter medo de nada e de ninguém. Aos sem pátria, nada lhes importa, a eles e aos que os apoiam. Subestimaram o nosso país quando julgaram que ao derrubar o campo socialista e desintegrar a URSS, derrubar-se-ia a Revolução Cubana. Mas aqui está um povo tenaz e valente”. 

Esse impulso contagiou a todos os cubanos e resgatou a dignidade dilacerada. Fidel sempre considerou que o internacionalismo anti-imperialista era um dever e uma necessidade, num mundo onde o egoísmo se instala em qualquer parte.

Praticou todo tipo de ajuda e estendeu a mão generosa de um povo, através de seus médicos, professores e milhares de profissionais ao mundo. O triunfo da Revolução Cubana em 1° de janeiro de 1959 veio com importantes transformações sociais na história, não apenas da América Latina, mas também de todas as forças progressistas no mundo. 

Ao derrotar as estruturas estabelecidas, Fidel Castro colocou em cheque não somente o poder da oligarquia de Batista, mas situou os seres humanos no foco de um novo projeto de sociedade onde a solidariedade e o internacionalismo são protagônicos. 

Quando Mandela estava preso, visto e tratado pelas nações “livres” do mundo como um “arruaceiro”, Cuba foi o único país do mundo que jamais negou a ele solidariedade e defesa incondicional. Tanto foi assim, que o primeiro país que Mandela visitou ao ser colocado em liberdade foi Cuba. Mandela falando aos cubanos, em Matanzas no dia 26/07/1991: "Na África estamos acostumados a sermos vítimas de outros países, que querem explorar o nosso território ou subverter a nossa soberania. Na história de África não existe outro caso de um povo que tenha se levantado em defesa de um de nós" 

Quem melhor do que Fidel vem prognosticando o futuro da humanidade? Disse ele em 2010: “Oponho-me ao cinismo e às mentiras com que agora querem a ocupação da Líbia. Pode-se ou não concordar com Khadafi. Mas será preciso esperar o tempo necessário para conhecermos com rigor, o quanto há de verdade ou mentira. Uma mistura de fatos de todo tipo que, em meio do caos, se produzem na Líbia. O que para mim se torna evidente é que ao governo dos Estados Unidos não lhe preocupa minimamente a paz na Líbia e não vacilará em ordenar à Otan invadir esse rico país, talvez em breves dias. Da minha parte, não imagino o líder líbio abandonando o país, fugindo às responsabilidades que lhe imputam. Qualquer pessoa honesta sempre reagirá contra uma injustiça que seja cometida contra qualquer povo do mundo, e o pior disso, neste instante, seria guardar silêncio diante do crime que a Otan se prepara para cometer contra o povo líbio. A chefia dessa organização bélica quer fazê-lo com urgência. É preciso denunciar isso."

Em discurso pronunciado por ocasião do 60° aniversário de seu ingresso no curso de Direito, no dia 17 de novembro de 2005, Fidel Castro resumiu, melhor do que ninguém, a sua existência. Rodrigo Díaz de Vivar, mais conhecido como El Cid Campeador, amarrado a seu cavalo, colocou em fuga os apavorados inimigos, mesmo depois de morto. Nesse homem, o líder da revolução cubana buscou a imagem perfeita para definir a sua própria trajetória de lutas, seu exemplo de resistência, determinação e garra, típicos dos vencedores. 

A todos chega seu dia, mas Fidel irá guerrear e vencer batalhas até depois de morto. O papel de Fidel na orientação do movimento revolucionário é definitivo, porque nenhum líder correu tantos riscos pessoais e nem se entregou, de forma tão concreta, à luta. 

Num transcurso de 40 anos se planejaram mais de 600 complôs homicidas contra Fidel Castro. Em outras cifras, durante 40 anos, a cada 82 dias se intentou assassinar o líder cubano. Se não é recorde mundial é um bom resultado, digno de medalha olímpica. 

A todos nós, a quem a vida proporcionou condições para entender o legado de Fidel, apenas resta um sonho: que façamos por merecer tantas lições! Fidel, gracias por tuas ideias, por tua ação tão coerente, e acima de tudo gracias por teu fuzil! Com Fidel, até a vitória, sempre!  

*Pedagoga, membro da Associação José Marti de Santos (SP) e militante do PCdoB em Santos (SP).

** Publicado originalmente no Portal Vermelho.

PARA FREI BETTO, FIDEL ERA O ÚLTIMO GRANDE LÍDER POLÍTICO DO SÉCULO XX

RIO  -  Amigo pessoal de Fidel Castro, o escritor Frei Betto recebeu com surpresa a notícia da morte do ex-presidente cubano na madrugada deste sábado. Betto esteve com Fidel em Havana nas comemorações de seu aniversário de 90 anos, em 13 de agosto. Foi a última vez que encontrou Fidel, a quem considera o último grande líder político do século XX.

“É um momento de perda de um amigo íntimo e ao mesmo tempo de uma figura que representava o último grande líder político do século XX, que logrou resgatar a dignidade da nação cubana. Seja contra ou a favor a revolução, o fato é que a pequena ilha do Caribe nunca mais passou despercebida da opinião pública mundial. E Fidel soube comandar esse processo com tamanha habilidade política”, afirmou Frei Betto ao “Globo”.

“Cuba sobreviveu a queda do muro de Berlim, ao desaparecimento da União Soviética e hoje, junto com o Brasil, é o único país que recebeu recentemente quatro visitas papais”, lembrou.

O escritor recordou o bom estado de Fidel no seu aniversário de 90 anos. “Ele estava inteiramente lúcido, embora com o corpo debilitado. Mas não tão debilitado que o impedisse de caminhar sem apoio da entrada do teatro Karl Marx até a cadeira na primeira fila, onde foi apresentado um espetáculo em sua homenagem, um espetáculo protagonizado por crianças”, relembrou o religioso.

Betto diz que não esperava que Fidel fosse partir já neste ano. Durante sua visita à casa do ex-presidente, o escritor contou que Fidel não tirava os olhos da TV para acompanhar a Olimpíada. “Achava que ele ainda teria anos de vida pela frente. Fidel continuava estudando, lendo e inteiramento ligado ao noticiário. Naquele período de agosto, não tirava os olhos da TV interessado nos Jogos Olímpicos. Fidel era esportista: praticou natação, pesca submarina e basquete”, contou.

Para Betto, a morte de Fidel significa a “perda de um líder mundial num mundo carente de liderança, onde a única figura de expressão internacional respeitável é o Papa Francisco”. “É a perda de uma referência de um homem que teve profunda coerência na vida com suas ideais e convicções. E nesse mundo onde vários dirigentes progressistas se deixam levar pela corrupção, é hora de lembrar a frase de Fidel: ‘Um revolucionário pode perder tudo, até a vida, menos a ética’”, ponderou.

O escritor acredita que a morte de Fidel não deve afetar no processo de abertura e de reaproximação com os Estados Unidos. E mandou um recado para o presidente eleito Donald Trump: ” Esperamos que Trump não cometa a besteira de provocar um retrocesso. A repercussão da morte dele talvez leve os novos governantes dos EUA a entenderem a importância desse processo de reaproximação entre os povos.”

Agência O Globo

21.11.16

PEC 241 (55), A DESTRUIÇÃO DO SUS E DA ESCOLA PÚBLICA

imagemA PEC (Proposta de Emenda à Constituição) nº 241, aprovada pelo Congresso, estabelece um novo regime fiscal no país e define o valor máximo que o governo pode gastar com despesas primárias, que incluem a saúde e a educação, nos próximos 20 anos. Se a PEC entrar em vigor em 2017, o orçamento disponível para gastos será o mesmo de 2016, acrescido apenas da inflação anual. Nos anos seguintes, a regra segue sendo esta: repasse dos valores gastos no ano anterior acrescidos da inflação, sem nenhum valor a mais.
A mudança, na prática, desobrigará o governo a repassar os percentuais mínimos determinados pela Constituição para as áreas da saúde e educação, respectivamente, 15% e 18% das receitas federais. Nem o Plano Nacional de Educação, que já possui um caráter elitista e privatizante, será cumprido plenamente, pois, para que metas previstas de universalização da educação básica e de erradicação do analfabetismo, por exemplo, fossem alcançadas, seria necessário expandir os investimentos em educação e não congelá-los.
O mesmo vale para a área da saúde, onde as verbas já são insuficientes para o atendimento pleno aos trabalhadores e às camadas populares. A PEC não leva em conta o crescimento da população e o consequente aumento de demanda pelos serviços de saúde, como se nenhuma nova necessidade fosse surgir nos próximos 20 anos. Diversos fatores, como o envelhecimento da população brasileira, o investimento em novos equipamentos e tecnologias, medicamentos com patentes, etc, indicam haver a necessidade de ampliação dos gastos com a saúde pública e não o oposto. O corte de investimentos públicos, portanto, atingirá diretamente o bem-estar da imensa maioria da população e beneficiará apenas os detentores da maior parte da riqueza do país, já que o dinheiro economizado com a PEC servirá, acima de tudo, para pagar os juros escorchantes da dívida pública, garantindo o lucro dos banqueiros e dos grandes empresários a eles associados.
A rápida aprovação da PEC no Congresso pode muito bem ser explicada pela própria composição atual do parlamento brasileiro. Estudo feito pelos pesquisadores Ligia Bahia e Mario Scheffer, professores do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IESC/UFRJ) e do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (DMP-FM/USP), respectivamente, aponta para o crescimento do número de deputados e senadores eleitos com doações de empresas de planos privados de saúde.
A PEC 241, associada a outras medidas já anunciadas pelo governo federal, como as parcerias público-privadas em diversas áreas e a aposta em planos de saúde “populares”, como divulgado pelo Ministro da Saúde, favorece ainda mais o caminho para a ampla e irrestrita privatização dos serviços públicos. A precarização ainda maior da saúde e da educação públicas, imposta pelo congelamento dos recursos federais, é uma estratégia claramente dirigida a obrigar a população a buscar os serviços oferecidos por empresas privadas e não mais pelo Estado. Saúde e Educação, desta forma, deixam de ser direitos sociais e passam a ser meras mercadorias.
Em nenhum momento foi aventada a possibilidade de, ao invés de jogar uma vez mais a conta da crise nas constas da classe trabalhadora e dos setores populares, reduzir os enormes lucros obtidos pelos bancos com as operações financeiras e as altas taxas de juros, tampouco implementar uma reforma fiscal que atingisse as grandes fortunas e obrigasse os capitalistas a pagar mais impostos. Mas o governo Temer explicita, assim, exatamente a que veio: servir de capacho à burguesia monopolista e ao grande capital nacional e internacional, pondo o pé no acelerador para atender aos seus desígnios e necessidades.

CORRENTE UNIDADE CLASSISTA LANÇA NOVA PÁGINA

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A corrente sindical Unidade Classista (UC) lança nova página, que será acessada neste endereço <unidadeclassista.org.br>
O conteúdo da página antiga será disponibilizado na página nova, porém a página antiga continuará no ar.
Além do novo “domínio” <unidadeclassista.org.br>, mais intuitivo, a nova página contará com nova diagramação e novos recursos.
Unidade Classista – UC

EX-MINISTRO QUE DEFENDEU "ESTANCAR LAVA-JATO" VIRA LÍDER DO GOVERNO NO SENADO


Seis meses após deixar o comando do Ministério do Planejamento por suspeita de obstrução à Operação Lava Jato, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) assumiu a liderança do governo de Michel Temer no Senado.
A indicação foi oficializada na edição desta quinta-feira (17) do Diário Oficial. O senador, contudo, tem trabalhado na articulação em favor do Palácio do Planalto desde que deixou o Executivo.
Presidente do PMDB e defensor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, Jucá saiu do ministério com apenas 12 dias no cargo, após o vazamento de uma conversa entre ele e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.
"Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. Tem que ser política. Advogado não encontra solução pra isso não. Se a solução é política, como é política? Tem que resolver essa ***. Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria”, diz o senador na gravação.
Em junho, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu a prisão do peemedebista por tentativa de obstrução às investigações. O pedido foi negado pelo relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Teori Zavascki.
Nesta quinta-feira, Jucá afirmou que não obteve resposta do Ministério Público ou do Supremo sobre "algum tipo de irregularidade, de obstaculação (sic) da Lava Jato da minha parte". Ele repetiu que deixou o cargo em maio para não atrapalhar o governo.
"Se ele [Temer] entende que eu posso ajudar o governo e o País na liderança do governo, eu aceitei e vou trabalhar no sentido de aprovar todas as medidas que possam reestabelecer o fortalecimento da economia, a segurança jurídica e a melhorai em si das condições de vida do Brasil."
Em entrevista ao Roda Viva exibida nesta segunda-feira (14), Temer afirmou que não há incoerência na nomeação. Para o presidente, acusações na Lava Jato não podem decretar a "morte civil" ou a "morte política".
Na vida pública desde a década de 1980, o peemedebista já ocupou o mesmo cargo, de líder do governo, nas gestões de Fernando Henrique CardosoLuiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.
Investigações
Na Lava Jato, o senador é investigado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Em delação, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa afirmou que negociou com Jucá e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), apoio à sua permanência no cargo em troca de propina.
O peemedebista também é investigado por suposto pagamento de propina na construção da usina Belo Monte.
No âmbito da Operação Zelotes, também da PF, a suspeita é de que um grupo de lobistas pagouR$ 15 milhões em propina a Jucá, em troca de favorecimento na tramitação de medidas provisórias de interesse do setor automotivo.
Repatriação
Relator da proposta que revê regras de regularização de recursos mantidos no exterior não declarados, Jucá admitiu a intenção de incluir parentes de políticos no programa. Essa foi a principal polêmica, vetada no texto aprovado pela Câmara em novembro.
"A discussão de [incluir] parentes [de políticos] nós estamos verificando que fórmulas podem evitar injustiças e, portanto, ficar efetivamente definido que um parente com atividades econômicas separadas do política não há porque penalizar esse parente", afirmou em entrevista a jornalistas nesta quinta-feira (17).
De autoria de Renan Calheiros, o texto será votado na próxima terça-feira (22) no plenário do Senado. A tramitação foi agilizada após acordo de líderes da Casa.
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Fonte: Huffpost Brasil 

CANTINHO DA MAFALDA

Conheço muita gente como Susanita.

31.10.16

BREVE REFLEXÃO PARA UM DEBATE NECESSÁRIO À ESQUERDA SOCIALISTA

Por Bráulio de Barros Wanderley

A pequena participação da esquerda no 2° turno nos leva à tarefa de uma análise sobre os marcos do capital e sua apelidada democracia burguesa. Eis alguns tópicos para reflexão:

1. Não há eleição sem correlação concreta com a luta de classes;

2. Não há transformações profundas sem participação popular e consciência proletária, o jogo da burguesia é desnivelar todos os campos pelo debate efêmero de que todos possuem o mesmo nível de corrupção;

3. O debate da ética, por si só, foi algo vendido e depois comercializado a luz de uma famigerada "governabilidade" que por fim culminou em golpe por ex-aliados dos governos petistas;

4. Partidos como o PCB e o PSOL, que refutaram as "alianças amplas" foram tirados de cena, salvo no Rio e em Belém, pela mini-reforma eleitoral aprovada por Eduardo Cunha e sancionada na íntegra pela então presidente Dilma Rousseff;

5. Vivenciamos o maior período de autoritarismo desde o golpe de 1964, com o congresso Nacional mais reacionário da história republicana, portanto, não se deve ter ilusões institucionais como um fim em si mesmo;

6. Articular o movimento sindical com a convocação de um ENCLAT, a fim de superar a lógica simplista do economicismo anual nas diversas categorias profissionais. O movimento operário se estatizou, saiu da esfera privada que mais sofre a mais valia, é urgente essa reorganização;

7. Agregar do ponto de vista classista os segmentos historicamente mais explorados pelo capital monopolista: juventude, mulheres, negros, povos indígenas, sem terras e sem tetos. Sem articulação e coesão de projeto não teremos êxitos na estratégia socialista. O que vivenciamos há algumas décadas são lutas em demandas específicas, não agregadas à construção do poder popular e do socialismo.

8. Percebemos silenciosamente o crescimento do fundamentalismo teocrático e reacionário em amplas camadas da sociedade, sobretudo, o movimento neopentecostal. A forma de abordagem nas camadas médias e no proletariado reduziu e anulou nossa presença, bem como a identidade e a inserção dos trabalhadores a nossa causa. A promessa do Éden ganhou mais corpo que a consciência de classe e a luta socialista. Temos que retomar esses espaços nos contrapondo abertamente a esse projeto que passa pelo combate ao Escola sem partido, à criminalização do aborto, à redução da maioridade penal, à  supressão de conquistas sociais, trabalhistas e previdenciárias. Ao seu lado estão, como sócios, o atual governo golpista, siglas como PP, PR, PRB, entre outras e o próprio PSDB, especificamente o mineiro. Esse campo cresceu, sobretudo, na despolitização dos governos Lula e Dilma.

9. As milhares de ocupações nas escolas e universidades são vitórias pontuais que temos frente à oposição à PEC 241, agora renomeada no senado como PEC 55, entretanto, sabemos das dificuldades e limitações entre companheiros do nosso próprio campo quanto à tática do movimento e sua real dimensão. A burguesia e sua porta-voz midiática já está se encarregando de inverter os lados e, mais uma vez, criminalizar a luta da juventude. Não será surpresa se, sob pretexto do Enem, houver:

9.1- O adiamento do mesmo com forte clamor midiático;
9.2 - Reintegração judicial e violenta das escolas e universidades;
9.3 - Articulação reacionária de desocupação, fato que já está em andamento mas que deve ganhar maior incentivo e apoio.

A Esquerda e em maior proporção, os Comunistas Brasileiros, tem portanto, a tarefa de avaliar profundamente estes e outros pontos a fim de agir com a clareza das ideias e princípios de Marx, Engels e Lênin, frente ao que há de mais retrógrado em vigor no país como reflexo dessa onda reacionária que perpassa o mundo.

12.10.16

Nota Política da UJC sobre a greve dos estudantes na UNIVASF

A União da Juventude Comunista saúda e está presente na ocupação da reitoria e greve estudantil da Universidade Federal do Vale do São Francisco. 
Vivenciamos hoje um governo ilegítimo que levou ao poder um punhado de corruptos e remanescentes das mais atrasadas oligarquias através de uma manobra midiática, parlamentar e judiciária que culminou no impedimento da presidenta Dilma Rousseff. 

As primeiras ações desse governo ilegítimo evidenciam seu caráter de serviçal da burguesia brasileira e do imperialismo, que pretendem que a crise do capitalismo seja jogada nas costas dos trabalhadores retirando suas conquistas e direitos sociais. Isso pode ser evidenciado na PEC 241, que irá congelar os investimentos públicos, a entrega da Petrobras ao capital estrangeiro, a reforma da previdência e a PL 257/16 que irá congelar os concursos públicos. 


No âmbito da educação, esses ataques reacionários contra a classe trabalhadora podem ser evidenciados na MP do Ensino Médio e no projeto de lei discutido entre Alexandre Frota e o ministro ilegítimo da educação, Mendonça  Filho, que é o projeto de lei da Escola com Mordaça.

A UNIVASF está inserida nessa conjuntura de ataques constantes aos direitos dos trabalhadores e dos estudantes. Foram anunciados uma série de cortes que afetam diretamente o dia-a-dia dos estudantes. Os cortes anunciados foram no auxílio permanência, nas residências estudantis, no transporte universitário e no aumento do valor do Restaurante Universitário. 


Diante dessas medidas que ameaçam de maneira séria a permanência na universidade e o caráter universal da educação pública, os estudantes se mobilizaram para ocupar a reitoria e deflagrar greve estudantil por tempo indeterminado com a finalidade de barrar esse retrocesso e a precarização da UNIVASF. 

A UJC compreende que essa série de ataques contra os estudantes da UNIVASF só será revertido através da atuação de um movimento estudantil forte, decidido e com independência de classe. 

Acreditamos que o movimento estudantil deve pressionar para que ocorra a abertura total do orçamento da universidade por parte da reitoria, para que se debata de maneira democrática a destinação dos recursos da universidade e para que os estudantes não sejam a categoria mais prejudicada nesse processo. 

Nós compomos e impulsionamos essa greve estudantil e ocupação da reitoria por acreditar que a luta contra os cortes na assistência estudantil e pela permanência dos filhos da classe trabalhadora na universidade está diretamente ligada à luta por Universidade Popular. Entendemos que essa luta será cada vez mais vitoriosa na medida que tivermos o apoio dos docentes na UNIVASF, em especial do SINDUNIVASF-Seção do ANDES-SN, avançando para a construção da Greve Geral, pois esses cortes afetam diretamente o caráter público, gratuito e universal da educação.


Não a PEC 241! Nenhum direito a menos!
Os estudantes e trabalhadores não podem pagar pela crise!
Rumo a Greve Geral!


UJC VALE DO SÃO FRANCISCO

29.9.16

NOTA DE REPÚDIO DA FRENTE DE ESQUERDA DE PETROLINA À TV GRANDE RIO

A história de Rede Globo de Televisão, por si só, já se confunde à mais atrasada e autoritária forma de poder expressa no Brasil.

Surgida nos festejos de um ano da ditadura militar, a Globo sempre foi o apêndice da burguesia e do imperialismo estadunidense, sempre se manifestou contrária às pautas populares e democráticas, corriqueiramente, usando o artifício da mentira para manipular as massas, a exemplo do ato das "Diretas Já!" em São Paulo (1984), quando anunciou a ida ao "povo às ruas para celebrar o aniversário da cidade".

Diversos são os estelionatos e atentados da Globo contra a recente e quase inexistente democracia brasileira.

Não poderia ser diferente com a sua afiliada em Petrolina, a TV Grande Rio, sob o vago argumento de que não é obrigada a convidar todas as candidaturas ao seu debate, vetou a participação da companheira Perpétua (PSOL-PCB) do último encontro antes do pleito do domingo (02/10) que se aproxima, não por acaso, a única do campo de esquerda na nossa Cidade. A mesma prática desta retransmissora é reproduzida no Brasil inteiro com as candidaturas deste campo da esquerda socialista, devido à cartilha eleitoral golpista vigente.

Quatro dos cinco candidatos acusam a TV Grande Rio de privilegiar o seu herdeiro na veiculação das inserções eleitorais, cometendo mais um crime na sua vasta ficha corrida e impune aos olhos de todos.

Assim como elegeu seu funcionário Fernando Collor de Mello em 1989 (cuja família também retransmite a Globo em Alagoas), a TV Grande Rio quer ser a parceria menor, repetindo nefasto delito, para impor à Petrolina o nome de Miguel Coelho, outro preposto.

Mente e sonega o direito do povo de Petrolina de conhecer e de saber todas as candidaturas prefeituráveis disponíveis ao Palácio Guararapes para o mandato que se inicia em 01 de janeiro de 2017.

Especialista em golpes midiáticos e institucionais, a família Coelho, por intermédio de uma seção de uma empresa do seu amplo cartel da mídia no sertão pernambucano, censura a companheira Perpétua e com isso veda a possibilidade de minimizar seu histórico de delitos e atentados à liberdade e ao direito de expressão.

Assim sendo, nós que compomos a Frente de Esquerda de Petrolina, repudiamos tal golpe por meio desta nota e reafirmamos o nosso compromisso com os trabalhadores, com a juventude, com as mulheres, com as etnias, com os excluídos e com todas e todos que defendem o direito ao conhecimento, sem censuras ou exclusões. Atos como estes deveriam tornar nula a eleição deste domingo, pelas razões acima expostas.

Frente de Esquerda de Petrolina 
Partido Socialismo e Liberdade (PSOL)
Partido Comunista Brasileiro (PCB)

25.9.16

ESPAÇO CHICO BUARQUE- CONSTRUÇÃO (Poesia)

PRA ENCERRAR O SÁBADO, CONSTRUÇÃO, de Chico Buarque de Holanda (1971), cuja mensagem chamou a atenção do saudoso escritor comunista e pernambucano João Cabral de Melo Neto. Seus versos são concluídos em proparoxítonas e em cada narrativa, uma fatalidade diferente é atribuída sobre a vida e a morte do operário em questão, mais um Severino.

A poesia foi transformada em música com arranjos do saudoso maestro Francis Hime.

Segue vídeo com declamações de Chico e da nossa diva Maria Bethânia.

 #ChicoBuarque  #chicólatra #construção #MariaBethânia #JoãoCabraldeMeloNeto


24.9.16

TEMER ASSUME GOLPE EM NOVA IORQUE

video
Temer admite golpe numa entrevista em Nova Iorque que não foi divulgada pela "grande mídia" brasileira. Trecho sem cortes. #foratemer

GOLPE SOBRE A EDUCAÇÃO E EM FORMA DE MEDIDA PROVISÓRIA

Por Bráulio Wanderley

O golpista quebrou todas as perspectivas mais sombrias com a sua reforma tecnicista no currículo do ensino médio.

Pra que Educação Física? Deixa morrer de obesidade.
Pra que Filosofia? Deixa viver na ignorância.
Pra que Artes? Deixa rolar bumbum Granada e outros lixos.
Pra que Sociologia? Deixa as coisas acontecerem sem que você precise analisar e desenvolver qualquer lógica crítica.

O esquema é fordista, produzir em séries, sem série, sem seriedade.

Aprenda a ser médico sem saber explicar a doença.
Seja arquiteto sem conhecer Niemeyer.
Torne-se o próximo Chaplin dos tempos modernos na vida real.
Prefira a pena de morte e a prisão perpétua ao invés de estudar a origem dos males da sociedade atual.

Qual é o grande país do mundo civilizado cuja Educação é alienada até mesmo de Professores? Esses são os verdadeiros Notáveis do Conhecimento.

Triste desse país que tem a elite herdeira dos ciclos primários, hoje produtora de Commodities. Elite ignorante, odiosa, hipócrita, analfabeta funcional, mesquinha consumista de Miami, de seus patetas  ratos andantes.

Depois disso, você ainda vai defender o atual governo e dizer que não houve golpe, beleza! Veremos se as gerações futuras, se conseguirem, pensarão assim.

Como disse, se conseguirem. Quer que eu desenhe?

17.9.16

BREVE DEBATE SOBRE O CARÁTER DA COLONIZAÇÃO BRASILEIRA

Ronilson Barboza de Sousa
Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB)



O caráter da colonização brasileira foi (e continua sendo) motivo de importantes debates. Alguns autores, por exemplo, avaliaram a concentração da terra, no Brasil, como resultado da constituição de um modo de produção feudal, nesse período. Essa interpretação teve forte reflexo na trajetória da esquerda brasileira, especialmente no Partido Comunista Brasileiro (PCB), contribuindo na formulação de uma estratégia de revolução chamada Democrático-Nacional (também conhecida como Democrático-Burguesa), que hegemonizou a classe trabalhadora e exerceu forte influência na dinâmica da luta de classes, principalmente entre as décadas de 1950 e 1960. Nesse sentido, torna-se indispensável a compreensão do caráter da colonização no Brasil.
    
Alberto Passos Guimarães, intelectual militante do PCB, foi um dos defensores da interpretação do caráter feudal. Considerava o autor que as metrópoles exportaram para as colônias, processos econômicos e instituições políticas que asseguraram a perpetuação do seu domínio (GUIMARÃES, 2011). Segundo Guimarães (2011), sempre que a empresa colonial precisava utilizar processos econômicos mais adiantados, ela recorria, como contrapartida obrigatória, a instituições políticas e jurídicas mais atrasadas e opressivas.

O exemplo brasileiro ilustra e confirma esse imperativo histórico. A despeito do importante papel desempenhado pelo capital comercial na colonização do país, ele não pôde desfrutar aqui a mesma posição influente, ou mesmo dominante, que havia assumido na metrópole; não conseguiu impor à sociedade colonial as características fundamentais da economia mercantil e teve de submeter-se e amoldar-se à estrutura tipicamente nobiliárquica e ao poder feudal instituído na América portuguesa (GUIMARÃES, 2011, p. 36-37).

Ricardo da Silva e Wasserman (2013) explicam que, para Alberto Passos Guimarães, esse processo ocorreu no momento da transição na Europa do modo de produção feudal para um modo de produção capitalista. Para assegurar seu domínio sobre o Brasil, Portugal exportou, para este país, relações econômicas e instituições políticas pretéritas, isto é, a estrutura nobiliárquica e o poder feudal (SILVA; WASSERMAN, 2013).

Nessa perspectiva, de acordo com Guimarães (2011), o regime econômico instaurado no Brasil, no período da colonização, significou um recuo de centenas de anos em relação ao seu ponto de partida na Metrópole.

Quando a Metrópole decidiu lançar-se na empresa colonial, não lhe restava outra alternativa política senão a de transplantar para a América Portuguesa o modo de produção dominante no além-mar. E o fez cônscia de que a garantia do estabelecimento da ordem feudal deveria repousar no monopólio da terra. Uma vez assegurado o domínio absoluto de imensos latifúndios nas mãos dos “homens de calidades” de confiança de el-rei, todos os demais elementos da produção seriam a ele subordinados. (GUIMARÃES, 2011, p. 43).

Para Guimarães (2011), a propriedade da terra assumiu um caráter de monopólio feudal e colonial. “O monopólio feudal da terra impôs soluções especificas para os problemas que teve de vencer, sem contudo perder as características essenciais da formação social que tomara por modelo” (GUIMARÃES, 2011, p. 43).

Na impossibilidade de contar com o servo da gleba, o feudalismo colonial teve de regredir ao escravismo, compensando a resultante perda do nível de produtividade, em parte, com a extraordinária fertilidade das terras virgens do Novo Mundo e, em parte, com o desumano rigor aplicado no tratamento de sua mão de obra. Teve, ainda, de dar outros passos atrás, em relação ao estágio mercantil que correspondia ao seu modelo, restabelecendo muitos dos aspectos da economia natural. Mas, em compensação, pôde desenvolver o caráter comercial de sua produção, não para o mercado interno, que não existia, mas para o mercado mundial. E com o açúcar, vinculou-se profundamente à manufatura (GUIMARÃES, 2011, p. 44).

Segundo Guimarães (2011), nenhuma dessas alterações, a que o latifúndio colonial precisou amoldar-se, foi suficiente para diluir o seu caráter feudal. Com frequência, as formas escravistas entrelaçavam-se com as formas servis de produção: o escravo provia o seu sustento dedicando certa parte do tempo à pesca ou à lavoura em pequenos tratos da terra que lhe eram reservados. Assim, o regime escravista de exploração da força de trabalho se misturava com o regime medieval da renda-trabalho e renda-produto, além de outras variantes da prestação pessoal de trabalho.

Nesse autor, a instituição do latifúndio acabou se constituindo em um ônus sócioeconômico para o país, o qual conseguiu se perpetuar até o século XX devido à ação de uma elite que soube manter seu domínio sobre a população rural mediante a posse de grandes extensões de terra (SILVA; WASSERMAN, 2013).

De acordo com Guimarães (2011), o monopólio feudal da terra resistiu às transformações democráticas e capitalistas ao longo do tempo.

A análise de Nelson Werneck Sodré (1967), também militante do PCB, aproxima-se da interpretação de Alberto Passos Guimarães; porém, para o autor, o colonizador, originário de uma área onde domina o modo de produção feudal, regrediu ao modo escravista, por imposição da finalidade da produção colonial. Portanto, o caráter da colonização não é feudal, como em Alberto Passos Guimarães.

Sodré (1967) avalia que houve uma diferença entre o planejamento e a execução da colonização. As Cartas de Doação de terras possuem traços feudais, a exemplo da primeira, feita por Duarte Coelho, que serve de modelo às demais, que desta divergem apenas em detalhes. Em linhas gerais, consta-se na Carta o seguinte:

- doação da Capitania (60 léguas de costa);
- doação de uma propriedade (10 léguas de costa);
- regula a transmissão da Capitania;
- concede o privilégio de montar engenho;
- proíbe a alienação da Capitania;
- proíbe que o donatário tome mais terra;
- regula o caso de retomada da Capitania pela Coroa;
- transfere poderes judiciários;
- transfere poderes civis (cartórios);
- transfere poderes administrativos (alcaidarias);
- concede a redízima das rendas;
- concede o direito de vender 24 índios;
- concede isenção das taxas não mencionadas;
- veda entrada de corregedor ou alçada;
- compromete a Coroa a cumprir a doação (SODRÉ, 1967, p.78).

As conclusões a que o autor chega, ao analisar tal documento, é de que o donatário é um rei, na Capitania; tem do rei quase todos os poderes; a doção é transmissível por herança; a doação é inalienável, no todo ou em parte; distingue-se a doação da propriedade. Desse modo, isso evidencia na legislação traços feudais; peculiares da sociedade feudalizada, a portuguesa (SODRÉ, 1967). 

Para Sodré (1967), o problema fundamental é o do trabalho. O colonizador encontra, no Brasil, o regime de comunidade primitiva, onde não havia mercadorias, nem excedente de produção; a produção era consumida pela própria comunidade; nada era objeto de troca.

O colonizador não se transfere ao Brasil para produzir apenas o necessário à sua subsistência. Poderia fazer isto em melhores condições, sob muitos pontos de vista, em sua área de origem. Poderia fazer aqui, com o seu próprio esforço, com o esforço de seus braços. Mas não é para isso que se transfere à Colônia; transfere-se para enriquecer. Enriquecer, no caso, significa produzir, não para a própria subsistência, ou a da comunidade, mas para alcançar um excedente que se destina ao mercado, produzir mercadorias. A produção desse excedente está na própria finalidade da colonização. Ora, essa produção não poderia surgir do emprego apenas dos braços do colonizador, mas do emprego de outros braços, e de muitos outros. Daí o trabalho escravo, e trabalho escravo do africano, isto é, do elemento já afeito ao modo escravista de produção (SODRÉ, 1967, 69-70).

Nesse sentido, o autor considera três aspectos importantes do trabalho colonial: 1) a exigência de um investimento inicial, que exclui da colonização os elementos produtores mais avançados da época em Portugal, isto é, os artesãos e camponeses independentes; 2) a necessidade de produzir para o mercado externo destrói a comunidade primitiva indígena, impedindo que evolua para a forma social superior; 3) essa mesma necessidade gera o modo escravista de produção à base do africano (SODRÉ, 1967).

A criação de um sistema produtor importa, no caso brasileiro, na transplantação dos elementos humanos.

- o colonizador, senhor de escravos, que regride do modo de produção feudal ao escravista;
- o trabalho, escravo, que permanece no estado em que se encontrava ou evolui da servidão para a escravidão;
- o indígena, fugitivo, que é expulso da área de produção, mantendo o regime de comunidade natural pela fuga, ou sendo submetido em determinadas zonas ou determinadas fases (SODRÉ, 1967, p. 70-71).

A exploração colonial e o trabalho escravo são sinônimos, são peças inseparáveis do mesmo processo (SODRÉ, 1967). Esse autor considera que, pouco a pouco, o latifúndio se fragmenta, e os escravos vão sendo substituídos por trabalhadores livres, que pagam taxas ao senhor, vinculados à terra, mas não escravos. Assim, para o autor, das ruínas do regime escravista, surge o colonato1, que engendra o feudalismo.  

Todavia, é importante ressaltar que, além dessas posições, que eram majoritárias no PCB, houve outras leituras sobre o caráter da colonização brasileira, a exemplo das análises realizadas por Caio Prado Júnior e Jacob Gorender.

Caio Prado Júnior (1998) considerava que a grande propriedade fundiária no Brasil não deriva de nenhuma imposição de relações de produção de caráter feudal. Para ele:

a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial, mais complexa que a antiga feitoria, mas sempre com o mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu (PRADO JÚNIOR, 1998, p. 22-23).

De acordo com Prado Júnior (1998), a expansão marítima dos países da Europa, depois do século XV, deriva do desenvolvimento comercial continental europeu e se origina de simples empresas comerciais, levadas a efeito pelos navegadores dos países. Portanto, o surgimento da grande propriedade, “esteve vinculado ao aspecto mercantil que a colonização europeia impôs nos trópicos a partir do final do século XV” (OLIVEIRA DA SILVA; WASSERMAN, 2013).

Segundo Prado Júnior (1998), as colônias tropicais se basearam em um acentuado caráter mercantil, sendo que a empresa do colono branco reunia a natureza pródiga em recursos aproveitáveis para a produção de gêneros de grande valor comercial e o trabalho escravo recrutado entre indígenas e negros africanos importados.

Se vamos à essência da nossa formação, veremos que, na realidade, nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde, ouro e diamante; depois algodão, e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isto. É com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura social, bem como as atividades do país. Virá o branco europeu para especular, realizar um negócio; inverterá seus cabedais e recrutará a mão de obra de que precisa: indígenas ou negros importados. Com tais elementos, articulados numa organização puramente produtora, mercantil, constituir-se-á a colônia brasileira (PRADO JÚNIOR, 1998, p. 23).

Para Prado Júnior (1998), essa realidade, cujo caráter se manterá dominante ao longo dos séculos da formação brasileira, marcará, principalmente, a estrutura econômica do país.

Jacob Gorender (1980) critica essas interpretações, afirmando a necessidade de uma inversão do enfoque: “as relações de produção da economia colonial precisam ser estudadas de dentro para fora, ao contrário do que tem sido feito, isto é, de fora para dentro” (p. 21). Para o autor, “a inversão do enfoque é que permitirá correlacionar as relações de produção às forças produtivas em presença e elaborar a categoria de modo de produção escravista colonial na sua determinação plenamente especifica” (GORENDER, 1980, p. 21).

Não é minha a idéia que a visão metodológica de fora para dentro seja inútil e, por si mesma, distorciva. Com ela foi possível estudar a colonização como ato de colonizar e tudo o que seu processo implicou para a economia européia. (...) Mas, se (...) considerarmos que o ato de colonizar originou nas Américas modos de produção que precisam ser estudados em sua estrutura e dinâmicas próprias, então, a visão metodológica carecerá de uma volta de 180 graus para focalizar o seu objeto de dentro para fora (GORENDER, 1980, p. 21).

Para Gorender (1980), surge um modo de produção historicamente novo: o escravismo colonial, que não é um modo de produção transferido de Portugal, não é uma evolução no sentido de um comunismo primitivo ao escravismo e nem uma síntese entre os modos de produção preexistentes em Portugal e no Brasil. Segundo o autor, a plantagem (também conhecida como plantation), entrelaçando escravidão, latifúndio e monocultura, foi a forma de organização dominante no escravismo colonial.

Dela o trabalho irradiou a outros setores da produção e se difundiu na generalidade da vida social. As unidades produtoras não-plantacionistas se modelaram conforme a plantagem e todas as formas econômicas, inclusive as não-escravistas, giraram em torno da economia de plantagem. Juntamente com a escravidão, a plantagem constitui categoria fundamental do modo de produção escravista colonial (GORENDER, 1980, p. 89).
  
Antonio Carlos Mazzeo (1995), que tem uma análise semelhante à de Caio Prado Júnior, considera que a expansão mercantil e, consequentemente, a colonização, podem ser inseridas no processo de acumulação originária de capitais. Portanto, a colonização do Brasil se insere na própria expansão e consolidação do capitalismo. Para o autor, o capitalismo chegou juntamente com os colonizadores, que irão explorar o Brasil com o intuito de fornecer produtos aos mercados e centros produtores europeus; portanto, o regime estabelecido (o regime de capitanias) consistia numa grande empresa de tipo mercantil. 

Desse modo, podemos afirmar que os donatários que receberam do rei a concessão (essa, de fato, era a real estrutura das capitanias) de exploração das terras do Brasil constituem-se nos primeiros burgueses a explorar as riquezas brasileiras e a investir capitais numa atividade bastante rentável, que era a cultura da cana (MAZZEO, 1995, p. 7).

Logo, as doações de terras não tinham um caráter feudal, mas capitalista. O sistema colonial, que engendrava uma série de relações complexas entre a metrópole e as colônias, num período que vai aproximadamente do século XVI à meados do século XVIII, é parte integrante da primeira fase do capitalismo (MAZZEO, 1995).

A necessidade de produção de mercadorias, para um mercado que se alargava enormemente, é o aspecto determinante da ocupação das terras descobertas pela própria expansão comercial, destinando-as à produção em grande escala. Desse modo, é a expansão da economia de mercado e a utilização das colônias como centros produtores de mercadorias valiosas que darão sentido à existência de um sistema colonial do mercantilismo, cabendo a ele o papel de integrar a produção colonial aos mercados europeus, articulando desenvolvimento da concentração de capitais a partir de múltiplas atividades que o capital cria (MAZZEO, 1995, p. 8).

O fato de não existir trabalho assalariado significa apenas que o capitalismo criou formas de apropriação de mais-valia que não as tipicamente de conteúdo capitalista, como na Europa; por isso, Mazzeo (1995) considera a relação de produção como escravidão capitalista. A introdução do regime de plantagem no Brasil - o escravismo das ilhas do Mediterrâneo (Sicília, Chipre etc.) - constitui o laboratório da escravidão do Novo Mundo, uma continuidade, ampliada e aprimorada das ilhas mediterrâneas, cuja produção se destina ao mercado mundial.

Concluímos, então, que a produção escravista instalada na América e, portanto, no Brasil, não se constitui em um modo de produção distinto do capitalista mas, ao contrário, estrutura-se como um tipo específico de capitalismo. Um capitalismo de extração colonial e escravista que objetiva o mercado externo, grandes lucros e, fundamentalmente, que utiliza a mais-valia que expropria do escravo para investir na produção açucareira e agrária, em geral (MAZZEO, 1995, p. 11).

Verifica-se que a expansão mercantil e a colonização do Brasil se inserem no bojo da acumulação de capital, ainda que numa fase inicial. O capitalismo nasceu a partir do processo de desagregação do feudalismo (por volta do século XIII) no continente europeu, quando situações especificas o pressionam em sua base, isto é, em suas relações de produção, alterando as relações de trabalho servis, desenvolvendo o comércio e a manufatura, promovendo o cercamento das terras e a expulsão dos camponeses, o crescimento e o surgimento das cidades (MAZZEO, 1995).  

Segundo Marx (2008, p. 264), “certas relações pertencentes a formas anteriores nela só poderão ser novamente encontradas completamente esmaecidas, ou mesmo disfarçadas”; isto é, podem ser contidas, desenvolvidas, caricaturadas, mas sempre essencialmente distintas. Por isso, considera-se que o período da colonização não constitui um modo de produção feudal, conforme analisado por Alberto Passos Guimarães, nem um modo de produção escravista que desembocaria no feudalismo, como destaca Nelson Werneck Sodré. O Brasil já se insere na produção de mercadorias para exportação; portanto, ainda que contenha características semelhantes ao modo de produção feudal ou escravista, não o é. Isso é válido também para o regime do colonato, o qual Martins (2010) caracteriza como uma relação de produção não capitalista de acumulação do capital.

De acordo com Marx (2008, p. 266):

Em todas as formas de sociedade se encontra uma produção determinada, superior a todas as demais, e cuja situação aponta sua posição e sua influência sobre as outras. É uma iluminação universal em que atuam todas as cores, e as modifica em sua particularidade. É um éter especial, que determina o peso específico de todas as coisas às quais põe em relevo.

Essa elaboração de Marx pode ser facilmente ampliada para compreender o tipo de dominação que o capital exerce nas formações sociais onde predominam relações de produção não capitalistas - ele é a “luz universal” que modifica todas as outras “cores” econômicas e sociais - como, aliás, Rosa Luxemburgo, escrevendo em outro momento histórico, demonstrou.  

Nesse sentido, considera-se que, no período da colonização, aquela era uma relação de produção escravista já hegemonizada pelo capital. O escravo era uma mercadoria, e o Brasil se inseria no sistema capitalista via produção/circulação de mercadorias.


NOTAS

1 Constituído de relações de trabalho que foram historicamente criadas na substituição do trabalho escravo, conforme as necessidades do capital, sem que viesse a se definir como um trabalho assalariado. Foi um regime de trabalho que durou cerca de um século, de 1850 até fins dos anos 1950, sob o qual, foi realizada a maior parte das tarefas no interior da fazenda de café. Nesse período, “o país selecionaria a dedo, por meio de seus agentes na Europa, o imigrante pobre, desprovido de meios, que chegasse ao Brasil sem outra alternativa senão a de trabalhar em latifúndio alheio para um dia, eventualmente, tornar-se senhor de sua própria terra” (MARTINS, 2010, p. 9).

GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. 3 ed. São Paulo, Ática, 1980.

GUIMARÃES, Alberto Passos. Quatro séculos de latifúndio. In: STEDILE, João Pedro (Org). A questão agrária no Brasil: o debate tradicional – 1500-1960. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011, p. 35-77. 

MARTINS, José de Souza. O cativeiro da terra. 9. ed. São Paulo: Editora Contexto, 2010, 288p.

MARX, Karl. Contribuição à crítica da Economia Política. São Paulo: Expressão Popular, 2008, 285p.

MAZZEO, Antonio Carlos. Burguesia e Capitalismo no Brasil. 2. ed. São Paulo: Ática, 1995, 83p.

PRADO JÚNIOR, Caio. História Econômica do Brasil. 43. ed. São Paulo: Brasiliense, 1998, 364p.

SILVA, Ricardo Oliveira da; WASSERMAN, Claudia. A questão agrária brasileira (1950/1960): A análise histórica de Alberto Passos Guimarães e Caio Prado Júnior. Disponível em: <https://docs.google.com/file/d/0B8_gvWjrwU3ZeEJJSzBnZ3NBZVU/edit?usp=sharing&pli =1>. Acesso em: 20 de Jan. de 2013.

SODRÉ, Nelson Werneck. Formação Histórica do Brasil. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1967, 414p.

6.9.16

HOMENAGEM A MINHA MÃE, OLGA BENÁRIO PRESTES

Anita Leocadia Prestes


(Por ocasião do 80º aniversário da sua extradição para a Alemanha nazista)
A extradição de Olga
Com apenas 16 anos de idade, Olga, nascida em 1908, numa família abastada de Munique, Alemanha, saiu de casa para, junto com o jovem professor Otto Braun, seu namorado e dirigente do Partido Comunista, e sob a influência do ambiente revolucionário então existente em seu país, participar das lutas da juventude trabalhadora no distrito “vermelho” de Neukölln em Berlim. Membro da Juventude Comunista, devido à sua destacada atuação política, foi logo aceita nas fileiras do Partido Comunista da Alemanha (PCA). Em 1928, tornou-se conhecida pela decidida participação na libertação de Otto Braun, detido por “alta traição à pátria” na prisão de Moabit. Ambos tiveram suas cabeças postas a prêmio pelas autoridades policiais, sendo forçados a abandonar a pátria e fugir para Moscou.
Fonte: http://www.ilcp.org.br/prestes/index.php?option=com_content&view=article&id=392

5.9.16

GRANDE MANIFESTAÇÃO FORA TEMER EM PETROLINA

Por Bráulio Wanderley





Maior manifestação contra o golpe até agora ocorrida no interior do Nordeste, Petrolina reuniu juventude, mulheres, negros e trabalhadores organizados em diversos movimentos sociais, a exemplo da União da Juventude Comunista (UJC), Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, DCE Univasf, Sintepe, Levante Popular da Juventude e partidos como o PCB e PSOL.

A concentração ocorreu na Praça do Bambuzinho e de lá tomou as avenidas até ocupar pacificamente a prefeitura denunciando golpistas como o senador Fernando Bezerra Coelho (PSB) e o prefeito Júlio Lóssio (PMDB).

Além de incansáveis e sonoros #foratemer, os manifestantes levantaram bandeiras, cartazes e palavras de ordem contra o ajuste fiscal, a reforma da previdência, os cortes de investimentos sociais e a perda de direitos trabalhistas propostas pelo atual inquilino do Planalto. E por mais que o trânsito fosse temporariamente comprometido, mesmo sem suporte da guarda municipal ou da Polícia Militar, muitos motoristas, motociclistas e passageiros dos coletivos se solidarizaram com o ato.

A passeata foi encerrada com um jogral na Concha Acústica e promete maior força nesta quarta-feira (07 de setembro), no Grito dos excluídos a partir das 09h na Praça Dom Malan.

4.9.16

PROFESSOR UNIVERSITÁRIO IRONIZA ESTUDANTE QUE PERDEU A VISÃO: ",SE FOR PETISTA É BOA NOTÍCIA"

No Facebook, Jairo José da Silva, que dá aulas na Unesp, fez um comentário sarcástico sobre a estudante Deborah Fabri, que perdeu a visão do olho esquerdo após ser atingida por estilhaço de bomba em protesto contra o golpe
REDAÇÃO DA REVISTA FÓRUM
Ontem, às 18h54, o professor Jairo José da Silva, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) publicou em seu perfil no Facebook um comentário sobre o caso envolvendo a estudante Deborah Fabri, de 19 anos.
A jovem perdeu a visão do olho esquerdo após ser atingida por estilhaço de bomba lançada pela polícia militar durante a repressão a manifestantes contrários ao impeachment de Dilma Rousseff.
No texto, Silva diz: “pode ficar cega, se for petista é uma boa notícia”. A estudante participava do ato contra Michel Temer na última quarta-feira (30). A polícia militar reprimiu com violência manifestantes, utilizando tropa de choque, caveirão e cavalaria.


Veja a publicação.